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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Sobre a proliferação de comentadores de economia

 

É o que tem de bom o nosso país; esta gentil ignorância sobre os nossos assuntos faz de nós uns patuscos.

 

Com a idade, há coisas que vamos deixando – ou já deixámos – de discutir, ou porque não têm importância ou porque nos encontrámos finalmente reduzidos à nossa pequena e natural dimensão, e, em consequência, já pouca gente nos liga. Entre essas matérias (muito numerosas) encontram-se o Orçamento de Estado, o buraco do ozono, o desembarque dos “liberais” em 1832, a situação actual do regime bancário português ou, enfim, saber se a D. Jéssica Athayde está – ou não – mais magra. Este último tema foi-me sugerido por Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, e conto um dia pronunciar-me sobre ele.

O velho Doutor Homem, meu pai, tinha por hábito dizer que, em Portugal, tanto a “literatura” como a “indignação” eram coisas que ficavam muito baratas, razão por que se escrevia muito mal na “literatura indígena” – e por que a “indignação” diante do destino ou dos defeitos dos outros nos tinha impedido de procurar fazer coisas bem feitas. No entanto, ainda mais barato do que esses dois flagelos era o fornecimento geral de “opinião” (um produto totalmente gratuito). Tanto assim que a expressão “eu não sei, mas acho que...” é uma das mais frequentes e interessantes do nosso idioma. Só esta ideia (a de “não saber” mas, mesmo assim, emitir uma “opinião”, tão mais enérgica quanto menos fundamentada) permite explicar a extraordinária abundância de comentadores de economia e finanças públicas nas nossas televisões.

Os meus irmãos rapazes são, ambos, economistas (ou “astrólogos”, na gíria familiar – por aqui se vê a fé dos Homem nessa ciência tão sobrevalorizada), seguindo a carreira do nosso avô, administrador de quintas do Douro e antigo colega de José Domingues dos Santos (um esquerdista radical no ocaso da República) no Instituto Superior de Comércio do Porto. Quando lhes peço para confirmarem ou, na maior parte dos casos, para desmentirem esta ou aquela desgraça, ambos encolhem os ombros como se me aconselhassem a não ver telejornais e a dedicar-me a outras matérias, porque de economia sei, digamos, “os rudimentos imutáveis”. Acontece que a generalidade dos comentadores na televisão não são comentadores de economia mas – como me garantem os meus irmãos, a minha sobrinha esquerdista e mesmo o bom Alfredo do restaurante Ancoradouro – de comentadores de outras coisas que também comentam economia e que, desde há quatro anos, não fazem outra coisa, como se estivessem munidos um bacharelato em finanças. É o que tem de bom o nosso país; esta gentil ignorância sobre os nossos assuntos faz de nós uns patuscos.

Dona Elaine e a teoria da literatura

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Dona Elaine acha que os livros velhos constituem contribuições decisivas para doenças conhecidas (a asma, a sinusite, a rinite e a diminuição da vista) e desconhecidas (como a ignorância, por exemplo). Alguns livros das minhas estantes foram conservados na biblioteca de família desde a minha juventude. Na altura sabíamos ler, dividir orações, comentar e sermos tementes aos autores maiores. 

 

Dona Elaine, a governanta deste eremitério, está inconsolável porque terminou uma das suas telenovelas preferidas com um final de que não gostou. O comentário aconteceu uma destas manhãs, à mesa do pequeno-almoço de torradas e café de cevada. Dado ser ainda cedo e a chuva ter regressado aos pinhais de Moledo para os informar da chegada definitiva do Outono, pensei explicar-lhe que isso me aconteceu várias vezes ao terminar um livro – uma personagem que desaparece antes do (meu) tempo, uma acção despropositada, um desfecho sentimental estapafúrdio, uma morte provavelmente injusta. O mundo da literatura é prodigioso em más soluções para histórias fictícias e para histórias reais.

Mas, felizmente, uma brisa de bom senso impediu-me a algaraviada, travando a tempo de deixar a antiga emigrante do Rio de Janeiro a braços com um bibliómano sem nenhuma ligação ao mundo real. As telenovelas portuguesas, de facto, inquietam-me bastante. Dona Elaine não perde uma e conhece os nomes das personagens e a sua genealogia mais longínqua, praticamente da mesma forma que o Tio Alberto conhecia os apelidos das cantoras de ópera do seu tempo. De vez em quando (de mês a mês) “finjo não ver” um episódio – e, mesmo pelo canto do olho, toda a gente me parece deprimida, zangada ou a necessitar de conserto gramatical. Creio que é muito pior do que na vida real, onde podemos dar-nos ao luxo de desviar o olhar.

Dona Elaine acha que os livros velhos constituem contribuições decisivas para doenças conhecidas (a asma, a sinusite, a rinite e a diminuição da vista) e desconhecidas (como a ignorância, por exemplo). Alguns livros das minhas estantes foram conservados na biblioteca de família desde a minha juventude. Na altura sabíamos ler, dividir orações, comentar e sermos tementes aos autores maiores. Talvez as histórias se repetissem de livro para livro (hoje a memória trai-me frequentemente e há personagens que passam de um livro para outro), da mesma forma que hoje as novelas da televisão se repetem com regularidade; entre ricos e pobres, homens e mulheres, felizes e desgraçados, esperançosos ou desiludidos, o género humano não reinventou o amor nem ultrapassou a morte. Dona Elaine, se tivesse lido os clássicos, não seria mais feliz: limitar-se-ia a conhecer outros nomes para a sua vastíssima curiosidade. Por isso limitei-me a confirmar que a telenovela terminou. Houve gente mais feliz; uma senhora má que matou um cavalheiro igualmente mau. Nada que não venha em Shakespeare, murmurei. Dona Elaine julgou que eu estava a pedir mais café.

O efeito do referendo escocês em Ponte de Lima

 

Já quanto à Tia Benedita, por seu lado, ela tinha sido informada pelo clero de Ponte de Lima de que não só a Igreja Anglicana tinha um conflito eterno com Roma, mas que a Escócia era ainda mais anti-papista do que o dr. Afonso Costa.

 

As nossas relações com a Escócia são literárias ou meteorológicas. Menciono “as nossas relações” como se os Homem constituíssem uma espécie de chancelaria e mantivessem laços Estado a Estado – é um resto de vaidade e de mania das grandezas que os leitores benevolentes por certo me perdoarão. Mas como a Escócia não é um Estado e os Homem não são um condado, podemos manter as coisas como estão. Precisamente, um dos sonhos do velho Doutor Homem, meu pai, era o de ter viajado até às ilhas Hébridas, não por causa da música de Mendelssohn, um alemão meridional que ficou encantado com o cenário – mas por causa de Samuel Johnson, o sábio e literato, guardião dos clássicos, que viajou longamente nas suas colinas. Tirando esta intenção nunca cumprida, havia outras referências escocesas na sua vida, a começar por um boné de ‘tweed’ que usava por recreio quando se aproximava o que na altura se designava por “meia estação”; tinha uma etiqueta onde estava a palavra Edimburgo, que ele gostava de mostrar como garantia da sua pequena extravagância escocesa.

Na verdade, nunca planeou alguma viagem às Ilhas Ocidentais; limitava-se a “ter gostado” de lá ter passeado um dia, sem ter, no entanto, dispendido esforço, tempo, pecúlio e imaginação – que provavelmente acabaria desiludida. A imagem que ele tinha das Hébridas era a de uma espécie de parque montanhoso, fustigado pelas intempéries nocturnas, mantido verde pela chuva permanente e relembrado pelos escritores que lhe dedicaram versos ou relatos de viagem, geralmente pouco amáveis. Isto lhe bastava.

Já quanto à Tia Benedita, por seu lado, ela tinha sido informada pelo clero de Ponte de Lima de que não só a Igreja Anglicana tinha um conflito eterno com Roma, mas que a Escócia era ainda mais anti-papista do que o dr. Afonso Costa (este último argumento era decisivo e, no limite, usado sem cerimónia; estrada que o demagogo da República tivesse um pisado, era proibida para a família).

Dos vivos, no entanto, só a minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família (ultimamente muito morigerada, vale a pena dizer), se manifestou sobre o referendo escocês. Foi por ela que soube que a independência da Escócia significaria o estabelecimento de um paraíso na Europa, de onde seriam varridos não só os políticos actuais mas também o capitalismo, a monarquia e, creio, o uísque falsificado. Esta perspectiva não me era desagradável, tirando o exílio de Sua Majestade. Ainda imaginei a Tia Benedita preparando o casarão de Ponte de Lima para receber Isabel II, expulsa pelos escoceses.

O dia em que o velho Doutor Homem repousou

Só dois anos depois tivemos uma explicação: nessa manhã reparou que havia coisas em desordem nas suas gavetas, papéis inúteis, objectos fora do lugar, recordações maldosas. Pensou então que, se a morte o surpreendesse, gostaria de deixar “tudo em ordem” e “facilitado”.

 

Foi por volta de 1970, em pleno Outono, tépido e chuvoso. O velho Doutor Homem, meu pai, apresentou-se à porta de casa a meio da manhã decidido a “arrumar as coisas” – soubemos que tinha sido esta a expressão usada para justificar a momentânea ausência do escritório onde, durante anos, exerceu advocacia e passou praticamente uma vida inteira. Isto merece uma explicação.

A partir de 1966 interrompera o hábito quotidiano de almoçar em casa, tendo decidido que, doravante, passaria a frequentar um restaurante pelo qual se afeiçoou e onde não o incomodavam com sugestões extraordinárias. Nessa altura não havia chefs; uma refeição compunha-se de sopa, prato principal, sobremesa, vinho do Porto e café (que, relembro os leitores benevolentes, não era “expresso”, mas de cafeteira). Por atenção e gentileza do dono do restaurante, o velho Doutor Homem, meu pai, pôde durante anos beber colheitas clássicas da Real Companhia e, uma vez por outra, aceitar xerez com limão como aperitivo (nos dias de Inverno aconchegava-se com um ponche quente à despedida). De vez em quando mandava cumprimentos à cozinha quando a sua vitela no forno ou o arroz de pato lhe traziam à memória a Tia Henriqueta, a melhor de todas as cozinheiras da família, a cuja casa – em Vila Praia de Âncora – acorríamos uma vez por mês para saborear aqueles cardápios que foram sempre a antecâmara da felicidade. Uma vez por outra levava companhia até ao restaurante – mas muito raramente; a sua hora de almoço era uma espécie de recolhimento para um cavalheiro com cinco filhos ruidosos e que gostava de ler O Primeiro de Janeiro com desprendimento enquanto não chegava (do Clube Inglês) o seu pacote semanal do Telegraph.

Excepto naquela manhã. Soubemos, mais tarde (Dona Ester, minha mãe, acompanhou a cena à distância), que se fechou no escritório, vagueou pelo quarto, recolheu papéis – e que, à saída, levava uma caixa de cartão que mandou destruir. Só dois anos depois tivemos uma explicação: nessa manhã reparou que havia coisas em desordem nas suas gavetas, papéis inúteis, objectos fora do lugar, recordações maldosas. Pensou então que, se a morte o surpreendesse, gostaria de deixar “tudo em ordem” e “facilitado”.

Saiu de casa com ar tranquilo; apesar de ainda ser meio-dia, o táxi deixou-o à porta do restaurante onde almoçava diariamente. Quarenta anos depois recordo esse momento com alguma melancolia. O velho Doutor Homem, meu pai, estava disponível para a eternidade.

O crepúsculo em Moledo durante o Verão

A minha sobrinha Maria Luísa, depois de dois casamentos e três divórcios (uma contabilidade muito arbitrária, notarão os leitores), antiga votante do dr. Louçã (as desilusões nunca terminam) e a mais fiel das frequentadoras da minha biblioteca, olha para esses tempos com a melancolia que atribuo à beleza da sua idade.

 

Já contei aos leitores benevolentes a forma como Dona Ester, minha mãe, encarava o Verão: uma espécie de sanatório. Em primeiro lugar, isto só era possível no litoral do Alto Minho, a única província que a família entendia ter condições para proporcionar férias verdadeiras às várias gerações dos Homem de todas as idades; em segundo lugar, o tratamento incluía uma certa dose de abnegação e, em simultâneo, de desprendimento. Dona Ester, minha mãe, acreditava que pessoas bronzeadas não só resistiam melhor aos contratempos como, também, transportavam um certo ideal de beleza que contrariava a palidez e a tendência para a neurastenia. Assim, segundo a sua bula médica, o sol e o iodo de Vila Praia de Âncora, Afife ou Moledo eram, convenientemente administrados, uma espécie de vacina contra as gripes, o reumatismo, as doenças respiratórias, os problemas de pele – tanto como uma prevenção dos estados depressivos e da tendência para a poesia lúgubre (que ela achava um dos grandes defeitos portugueses). Esta medicina foi aplicada pelo tempo fora, sendo Moledo (com a sua conjugação de pinhal, neblinas matinais, brisas marítimas, banhos de água fria e sol filtrado pela imagem da Ínsua e de Santa Tecla) o hospital e a fonte de todos os milagres. Não era um tempo melhor ou pior do que o de hoje – era a época de Dona Ester. Quanto ao velho Doutor Homem, meu pai, ele concordava com a terapêutica desde que, à mesa do jantar, nos apresentássemos em ordem e com gramática. Hoje, passados setenta anos, recordo esses Verões de outrora como uma derradeira ventania da memória.

A minha sobrinha Maria Luísa, depois de dois casamentos e três divórcios (uma contabilidade muito arbitrária, notarão os leitores), antiga votante do dr. Louçã (as desilusões nunca terminam) e a mais fiel das frequentadoras da minha biblioteca, olha para esses tempos com a melancolia que atribuo à beleza da sua idade; creio que se interroga sobre se a vida teria, ou não, sido melhor de outra maneira, e se os seus filhos teriam atravessado de outra forma, a funesta idade da adolescência.

Ontem, ao fim da tarde, arrastou-me para um passeio até à esplanada do P’ra Lá Caminha (o café diante da praia), onde é sempre difícil conseguir uma mesa para suportar a temperatura do crepúsculo. Aquela felicidade surpreende-me sempre. “Qual felicidade?”, perguntou ela, desconfiada. “Nenhuma. Só isto.” Dona Ester teria compreendido a imagem. Um Verão em Moledo nunca se explica; é um crepúsculo que nunca se espera.

 

A depressão de Dona Elaine e a cozinha de Moledo

Ultimamente, porém, Dona Elaine passou um período de melancolia e de certo desalento. A minha sobrinha Maria Luísa atribuiu-o ao excesso de jovens ‘chefs’ que, pela televisão, deprimem o génio da nossa brava governanta. A crise de confiança foi debelada quando lhe pedi, de mãos juntas, que nos fizesse ovos com chouriço ou sardinhas fritas 

 

Desde há meses que Dona Elaine não perde um programa de cozinha na televisão. Se não o vê em directo, escolhe as horas mansas da tarde – enquanto os nossos visitantes se estendem no areal da praia, reconfortados pelo calor que, finalmente, chegou a Moledo – para verificar o que se cozinha na Austrália, nos Estados Unidos e, por vezes, em programas de viagem que atravessam a Tailândia, a Mongólia ou regiões ainda mais exóticas, como o Alto Douro ou o Alentejo. Ontem mesmo deparei com um espectáculo preocupante: a governanta deste eremitério sentada à mesa da cozinha, tendo à sua frente um caderninho comprado na mercearia, tomando notas acerca de um filete de garoupa braseado com raspa de gengibre e um caril de legumes, colorido como um Caravaggio alegre.

Dona Elaine é uma cozinheira de mérito, educada nos fogões da sua família (emigrantes no Brasil), aconchegados pela sabedoria minhota – de Cerveira. Isso significa que oscila bastante entre uma certa simplicidade e um desejo barroco que nunca é atingido: pratos suculentos e letais andam de braço dado com peixes frescos e saladas da horta. Por alturas do Verão, Dona Elaine rejuvenesce e recolhe-se à despensa, animada pela chegada dos meus sobrinhos e outros acompanhantes; limitada pela minha dieta, esta pequena multidão estival, jovem e esfomeada, é uma oportunidade para relembrar a sua arte. Surgem, então, tabuleiros de arroz de pato, travessas de escabeche, doces que fazem tremer os tempos modernos, massas folhadas que desafiam a austeridade, peixes que passam pela tortura do forno e uma grande variedade de recordações dos velhos livros de gastronomia do Alto Minho – para os quais, não raras vezes, é convocado o Dr. Barreto Nunes, que vem de Braga com mais um opúsculo raríssimo que apreciamos à hora da sesta.

Ultimamente, porém, Dona Elaine passou um período de melancolia e de certo desalento. A minha sobrinha Maria Luísa atribuiu-o ao excesso de jovens ‘chefs’ que, pela televisão, deprimem o génio da nossa brava governanta. Foi necessária uma “terapia de choque”, garantindo que detestávamos as técnicas de “empratamento” contemporâneas (onde a comida é amontoada como uma torre de Babel) e que apreciávamos como ninguém o seu frango no forno, recheado, luminoso e suculento. A crise de confiança foi debelada quando lhe pedi, de mãos juntas, que nos fizesse ovos com chouriço ou sardinhas fritas, os pratos que o Tio Alberto preparou para D. Ramon Otero Pedrayo, o insigne galego. Toda a gente compreendeu que são necessários sacrifícios para manter impoluta a mesa de Moledo.

 

Uma família irrequieta diante da chegada do Verão

O Verão foi sempre apreciado pelos mais novos da família, além de Dona Ester, minha mãe (que achava que os seus filhos ficavam mais bonitos se fossem tingidos pelo sol e abençoados pelo iodo), porque correspondia a um período de acentuado desregulamento da vida em geral.

 

Já houve três dias de Verão e o Verão ainda não chegou. A frase foi dita no domingo passado por Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, e foi uma chamada ao bom senso geral em tempo de rebeldia contra os elementos. Ela escutava os lamentos pela “vaga de frio” que nos assolava, entre chuviscos caindo ao largo da Ínsua e uma brisa morigerada que obrigava ao uso de agasalhos. A minha sobrinha Maria Luísa tentou dizer que o aquecimento global causa danos irreparáveis à Natureza, mas foi prontamente abafada por gargalhadas – e juntou-se, vencida, aos protestos pelo atraso na chegada do Verão.

A esta hora, os leitores benevolentes já devem ter notado que o Verão, propriamente dito, só tem chegada marcada para a próxima semana, se cumprir as suas obrigações de calendário.

O velho Doutor Homem, meu pai, prezava muito a “meia estação”, atribuindo-lhe méritos civilizacionais muito exagerados e a chegada do Verão não lhe era especialmente querida. Atribuo isso ao seu dandismo, e a uma boa dose de vaidade de que os Homem sempre dependeram; a “meia estação” era a oportunidade de se vestir como um cavalheiro do campo inglês, de ‘tweed’ e boné, exercitando-se em passeios vagarosos para apreciar, como ele dizia, “o massacre do pólen”.

O Verão foi sempre apreciado pelos mais novos da família, além de Dona Ester, minha mãe (que achava que os seus filhos ficavam mais bonitos se fossem tingidos pelo sol e abençoados pelo iodo), porque correspondia a um período de acentuado desregulamento da vida em geral.

O meu avô, administrador de quintas do Douro, sofria amargamente com o Verão. Tendo de viajar ao longo daquele vale decorado de vinhas e rochas ameaçadoras, era uma vítima do calor inclemente que varria o mapa da região. Nessa altura, Barca d’Alva era o epicentro do inferno, abafado, terrível, sem amenidades, mas que ele tinha de visitar para manter o ritual das conversações crepusculares com Guerra Junqueiro, o poeta da Quinta da Batoca, a quem devotava uma admiração e um respeito que o velho Doutor Homem, meu pai, achava inversamente proporcional à admiração e respeito que se devia devotar à sua poesia.

Regressando do Douro, recebido na estação de São Bento juntamente com cabazes de fruta e garrafas de boas colheitas, o meu avô queria proteger-se do Verão em passeios até Leça, onde procurava um pouco de ar temperado para os seus problemas respiratórios.

Cinquenta, sessenta, setenta anos depois, ainda me sinto um herdeiro de Dona Ester, minha mãe, alugando um toldo à época no diminuído areal de Moledo.

Preparar o Verão e a brevidade da vida

A floração dos hibiscos, como das giestas das serras e das mimosas à beira dos caminhos é um dos retratos do meu Alto Minho particular, enquanto Moledo se prepara para o verão

 

Lamento informar, mas Maio é um dos grandes meses neste eremitério de Moledo: ele alberga as grandes decisões sobre o Verão que se aproxima de mansinho, colorindo o pinhal das traseiras, empurrando com suavidade as brisas dos nossos crepúsculos, limpando a poeira que ameaça os vasos dos hibiscos – durante anos, a família entendeu que eles davam sentido a uma parte da minha vida, frágeis e rosados, tranquilos com a ideia de que perecerão em breve, conformados com a brevidade da vida e a sua imperfeição.

A floração dos hibiscos, como das giestas das serras e das mimosas à beira dos caminhos é um dos retratos do meu Alto Minho particular, enquanto Moledo se prepara para o verão: Dona Elaine ronda a despensa, tomando medidas, anotando — de memória e mentalmente — a proporção entre os víveres a armazenar e os invasores previsíveis.

A segunda prova da proximidade do Verão é dada pela minha sobrinha Maria Luísa; no esplendor da idade, afastada a hipótese de rumar para destinos longínquos ou vagamente cosmopolitas, ela prefere agora seguir a sombra das suas raízes, para retomar o verso de Eliot, limitando-se a anunciar que de Julho a Setembro o seu quarto está reservado, e que provavelmente aqueles dois adolescentes que passam por seus filhos a acompanharão em parte do acampamento.

Falo de acampamento porque era essa a forma que a casa de Moledo tomava nesses Verões de há não muitos anos, quando todos os meus sobrinhos eram adolescentes e se dispunham não apenas a inaugurar a época balnear mas, também, a acompanhar o seu curso até que o último grão de areia pousasse sobre a superfície abandonada dos caminhos junto do mar. A imagem parece romântica, mas é apenas uma força de expressão — eles assentavam arraiais, entontecidos, e permaneciam assim durante todo o Verão (Julho e Agosto, uma semana de Setembro), arrastando visitantes de que sempre ignorei o nome e violando todos os horários praticados dentro de casa.

Dona Elaine — com a ironia do costume — apreciava a situação. Ela entendia que se tratava de um teste à minha capacidade de resistência e ao habitual torpor que o Verão transportava para a sala da biblioteca e para a varanda onde me dedicava à prática dos cuidados botânicos. Mas a antiga emigrante do Rio ficava feliz com essa invasão juvenil; todos eles tinham bom estômago, resistência à água fria da Ínsua e um descaramento que, julgava ela, incomodava o mais reaccionário dos minhotos de Moledo. Enganava-se; eu sentia-me como um Zé do Telhado na companhia de salteadores de Barcelos.

Mais de 40 anos fora de moda

Sobrevivendo ao 25 de Abril por largos meses, o velho Doutor Homem, meu pai, acreditava que o destino final da humanidade não era o de viver em democracia – mas ir sobrevivendo repetidamente às novidades que prometem a felicidade.  

 

O velho Doutor Homem, meu pai, lamentava-se periodicamente de ser conservador num país que alimentava uma genuína paixão pelo progresso em todas as frentes. O caso explica-se facilmente através da literatura: os leitores já não se recordam, mas no Mau Tempo no Canal, o romance do Prof. Nemésio passado no apogeu da República, há um barão da Urzelina muito temente a Deus, que sempre se considerou fiel ao partido de Hintze Ribeiro (o da monarquia, relembro) – porém, como era igualmente fiel ao progresso, tornou-se cabo eleitoral do Partido Republicano, o mesmo de Afonso Costa.

Sobrevivendo ao 25 de Abril por largos meses, o velho Doutor Homem, meu pai, acreditava que o destino final da humanidade não era o de viver em democracia – mas ir sobrevivendo repetidamente às novidades que prometem a felicidade. Isto causar-lhe-ia muitos problemas na época, quando se consideravam a democracia e, por extensão, o socialismo, como uma espécie de pórtico para o paraíso terreno. A Igreja, à excepção da do Alto Minho e talvez da de Miranda do Douro, creio eu, também prometia o socialismo, e o mesmo faziam todos os partidos políticos, incluindo – estranhamente – o Partido Socialista. A minha sobrinha Maria Luísa (a eleitora esquerdista da família e nascida pouco tempo antes da revolução) não acompanhou os debates ideológicos dessas duas décadas preciosas mas, à distância, também sofreu da nostalgia da geração anterior, por pura solidariedade.

A família, que desde o século XIX se habituara a conviver na adversidade com os vários regimes mandantes, preparou-se convenientemente para a democracia. Em primeiro lugar, em vez de flutuar ao sabor das conspirações (foram bastantes), limitou-se a viver como se não pertencesse ao futuro, não obrigando ninguém a aceitar as suas obsessões e teimosias: nestes últimos cento e cinquenta anos conservou a sua biblioteca, reconheceu erros e não esperou a salvação da sua alma. Mantendo-se à distância, cumpriu obrigações e, à excepção de uma ou outra ocasião, foi razoavelmente cínica, não acreditando no apocalipse nem na chegada do reino dos céus. Esta espécie de misantropia não produziu vítimas nem nos isolou do mundo; pelo contrário, apesar da existência da Tia Benedita, a matriarca miguelista de Ponte de Lima, manteve-nos razoavelmente disponíveis para o divórcio, a televisão a cores ou o convívio com políticos que raramente soletram frases com sujeito, predicado e complemento directo. Éramos fora de moda, enfim. E continuamos, em liberdade. Não há maior elogio ao 25 de Abril.

Lições de economia num mundo de idiotas

«O velho Doutor Homem, meu pai, não só defendia que a vida não tinha sentido (um prolongamento romântico do seu pessimismo) como dizia que era impossível explicar isso a pessoas dos tempos de hoje. Ele acreditava que a um mundo que acreditava em coisas idiotas só poderiam suceder, invariavelmente, coisas disparatadas.»

 

 

O meu irmão mais novo é economista. Ele herdou o escritório do nosso avô em 1965 – exactamente o mesmo que, quarenta anos antes, em Janeiro de 1925, foi tomado de assalto por milícias republicanas que ali foram procurar promissórias e bombas reaccionárias escondidas debaixo dos tapetes. Na época, o avô – administrador de quintas inglesas do Douro – recorreu a uma amizade académica, o radical e incendiário presidente do Ministério, José Domingues dos Santos, matosinhense de quem fora colega no burguês mas solene Instituto Superior de Comércio do Porto, que mandou desmobilizar a púrria.

De 1965 até hoje a ciência da contabilidade transformou-se bastante e o meu irmão protesta, com veemência e estatísticas, sempre que (por cinismo mas boa fé) lhe recordo os erros das previsões económicas, o que aproxima a sua classe tanto dos meteorologistas de antanho como dos astrólogos de hoje.

A nossa fé no Dr. Anthímio de Azevedo em nada se compara com a desconfiança nos economistas; o meteorologista explicava pela televisão, de ponteiro na mão, como poderia evoluir o anticiclone dos Açores e como as chuvas do dia poderiam terminar num céu obtuso ou num firmamento limpo – o seu crédito era ilimitado porque os astros eram imprevisíveis. Já com os economistas da televisão a situação é bem diferente. Rodeados de estatísticas, os economistas manejam-nas da mesma forma que Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, esconde a sua receita de pudim de peixe.

Porém, onde o Dr. Anthímio de Azevedo mostrava a imprevisibilidade dos Elementos, os economistas da televisão consideram a infalibilidade dos números, com a diferença de que as previsões dos astrólogos nos ficam consideravelmente mais em conta. O meu irmão não concorda; ele acha que a crise se deve a factores que os economistas estudam com empenho e seriedade, e que vamos demorar vinte anos a recuperar da hecatombe – um tempo que, quando chegar ao Alto Minho, já não me encontrará vivo.

O velho Doutor Homem, meu pai, não só defendia que a vida não tinha sentido (um prolongamento romântico do seu pessimismo) como dizia que era impossível explicar isso a pessoas dos tempos de hoje. Ele acreditava que a um mundo que acreditava em coisas idiotas só poderiam suceder, invariavelmente, coisas disparatadas. Com toda a probabilidade, teria razão. E, confrontado com a previsão de vinte anos para abandonar a crise, ele teria considerado – antes de voltar à leitura do Telegraph – que isso era bem possível, desde que eliminassem os idiotas. 

Um pequeno elogio ao bigode fora de moda

 

«No meio desta argumentação lembrei-me da Tia Benedita, para quem os bigodes eram, ou a incarnação de carbonários e bolcheviques, ou uma lembrança do rei D. Carlos, que ela considerava um fraco. Pelo sim, pelo não, aparei o meu – à tesoura, como antigamente.»

 

As minhas irmãs não cessam de se actualizar com as coisas do mundo. Como são as mais novas de um grupo de cinco irmãos, têm a seu favor a palavra “modernidade” e quase nada daquela parte do mundo que fica fora de Moledo lhes é desconhecido. Periodicamente mencionam novas dietas e novas religiões que fazem de nós, simples mortais, provincianos de um mundo que não tem fim. A determinada altura conseguiram conciliar uma forma de meditação oriental, de que agora me não recordo, com um regime de baixas calorias que certamente as tornava mais felizes. A propósito disso, a minha sobrinha Maria Luísa acha que eu tenho um preconceito contra as “coisas novas”, estatuto que eu aceito obedientemente, como convém a uma espécie cordata de miguelista do Alto Minho.

Apesar de tudo, houve um tempo em que eu era menos velho. As minhas irmãs, por exemplo, dão como adquirido que eu nasci já depois da adolescência. Elas referem-se a um gosto desajustado, mesmo para a época, por andar bem barbeado e vestido com sobriedade. Conservo o meu bigode desde esse tempo da juventude, nem à Clark Gable, nem à Santos Dumont, se bem que, ao dobrar os trinta, Dona Ester, minha mãe, o achasse demasiado parecido com o de um retrato do ‘Kaiser’ Guilherme II – o que levou a uma consequente aparadela, com o corte que ainda hoje apresenta (ela gostava muito de ver os filmes de Omar Shariff).

O meu sobrinho Pedro deixou agora crescer o bigode, o que não desagradou a Isabelle, a sua namorada holandesa. O argumento familiar é simples: voltou a “estar na moda”. Mas a jovem frísia, criada entre holandeses escanhoados e antepassados de vastíssimas barbas aloiradas, creio que considera o bigode um enfeite mediterrânico e um pormenor aristocrata. Depois de ter sido banido durante algumas décadas, o bigode está prestes – segundo entendo – a regressar aos nossos retratos.

O velho doutor Homem, meu pai, dizia que o passado regressa amiúde para se rir, ou das coisas modernas, ou da vontade de criar modas. Maria Luísa, sem o saber (ela é uma mulher inteligente criada nos anos oitenta), encarou a hipótese e sugeriu que, por embirração, eu talvez devesse considerar a ideia de cortar o bigode. Esclareci que, para mim, não se trata de um adereço, mas de um hábito, como o café de cevada ao pequeno-almoço. No meio desta argumentação lembrei-me da Tia Benedita, para quem os bigodes eram, ou a incarnação de carbonários e bolcheviques, ou uma lembrança do rei D. Carlos, que ela considerava um fraco. Pelo sim, pelo não, aparei o meu – à tesoura, como antigamente.

A pátria familiar e as saudades de Dona Elaine

 

«O velho Doutor Homem, meu pai, sonhava com os alfaiates de Londres; Dona Elaine, suspira quando recorda as canções de Dick Farney sob o crepúsculo da Avenida Rio Branco, no Rio.»

 

De vez em quando, Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, declara que tem saudades. Mais do que pela menção às saudades, propriamente ditas, é o timbre que assevera a autenticidade da proclamação, entre o pequeno-almoço e aquele momento em que o ar da manhã entra pela porta da cozinha, juntamente com o ruído da chuva no pinhal junto de casa e o ondular permanente do mar do Minho, cavo e familiar. Emigrante no Brasil, para onde foi com os pais, que se estabeleceram como comerciantes no Rio, Dona Elaine regressou a Cerveira depois de ter enviuvado. Trouxe com ela o essencial: dinheiro para reconstruir a modesta casa dos seus maiores (que, assim, deixou de ser modesta sem abandonar a sua aldeia natal), as arrecadas e algum vício do mundo – aquilo que, à sua medida, se pode considerar o pórtico de algum cosmopolitismo. O último quartel do século XX já não era, no entanto, o tempo dos “brasileiros” de Camilo e do Porto, Famalicão, Braga ou Barcelos. O tio Alfredo, que regressou dos sertões só depois da morte do dr. Salazar (e que se manteve assinante da Gazeta do Pernambuco), amealhara o suficiente para se instalar na sua quinta de Afife – e sofria das mesmas saudades, como se a pátria lhe tolhesse os movimentos ou lhe provocasse o tédio dos insones.

Os portugueses amam terrivelmente o seu país, mas amiúde gostariam que ele fosse outro qualquer. Afastados da sua horta, choram as harpas dependuradas sob os salgueiros, como os exilados de Sião; regressados, declaram que têm saudades. Esta contradição não é aparente – é verdadeira, salvo no caso do velho Doutor Homem, meu pai, que passou os melhores anos da sua vida imaginando ser um lorde inglês que aos sábados discreteava com o Dr. Samuel Johnson acerca de genealogia, lápides funerárias e questões de geografia das Hébridas. Ai dele, limitava-se a alimentar uma família numerosa e a receber o Daily Telegraph em pacotes remetidos do Clube Britânico.

Hoje, a emigração é tratada como um flagelo – como se os portugueses sofressem perdidamente por cada minuto passado fora da linha de fronteira. A verdade é que fomos sempre emigrantes, ou por motivos políticos ou para ludibriar a pobreza. Tirando a Tia Benedita, que considerava “estrangeiro” quase tudo o que acontecera depois da Concessão de Evoramonte, ou que a afastava do casarão de granito de Ponte de Lima, o “estrangeiro” foi sempre a nossa miragem. O velho Doutor Homem, meu pai, sonhava com os alfaiates de Londres; Dona Elaine, suspira quando recorda as canções de Dick Farney sob o crepúsculo da Avenida Rio Branco, no Rio.

A que horas começa o dia em Moledo?

 

«Quando era jovem não tinha insónias. Atribuo o facto à minha vida desinteressante, distribuída pelo escritório, pelo cumprimento dos deveres, pelas amizades discretas e pelas horas dedicadas a leituras enfadonhas.»

 

Os velhos levantam-se mais cedo por dois motivos: dormem menos e, porque são sensatos, recolhem mais cedo. São hábitos de anos que moldaram o carácter e as funções vitais de gerações habituadas a ritmos que, de ordinário, se destinavam a gente que trabalhava cedo, que tinha obrigações domésticas e que acreditava ser bom para a saúde cedo erguer e cedo adormecer.

Até ao aparecimento da televisão, da rádio por vinte e quatro horas, da luz eléctrica, da cafeína distribuída a rodos e dos medicamentos para dormir, os dias de antanho terminavam com aquela placidez que se atribui ao tempo dominado pelo silêncio – o meu e o dos meus avós, e por aí fora, até sermos devolvidos à criação do mundo.

Contra todas as expectativas, acho que esse tempo era enfadonho. Não triste, nem inútil, ou desagradável – apenas enfadonho. As grandes novidades deste tempo comovem-me um tanto, embora não as ache, a esta distância, muito úteis. Servem, certamente, para que a nossa vida fique menos enfadonha; mas peço ao leitor que acompanhe o meu raciocínio: uma vida com sinais enfadonhos não é necessariamente desinteressante ou triste. A vida não tem de assemelhar-se às festas da Senhora da Agonia vistas dos pinhais dos arredores, nem havia pirotecnia que chegasse. Há, portanto, um preço a pagar pelas coisas.

Hoje, dobrando aquela idade que não me transporta a mais memórias mas apenas às primeiras franjas do esquecimento, continuo a levantar-me cedo e a aproveitar a bonomia das madrugadas, apesar de sofrer periodicamente de insónias. Levantar-me cedo oferece-me um bom momento do dia. Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, serve o pequeno-almoço a partir das sete e meia (eu apareço um pouco depois); há vinte anos que se repete, dia-a-dia, o cardápio do pequeno-almoço (torradas e café de cevada), tal como a sobremesa do almoço de Ano Novo.

Quando era jovem não tinha insónias. Atribuo o facto à minha vida desinteressante, distribuída pelo escritório, pelo cumprimento dos deveres, pelas amizades discretas e pelas horas dedicadas a leituras enfadonhas. As minhas irmãs, que sempre me olharam com a curiosidade que se deveria devotar a uma espécie rara, acrescentam a falta de preocupações familiares e a ausência de uma mulher que castigasse a leviandade do meu carácter. Em seu entender, uma esposa deveria proporcionar-me um nível adequado de preocupações, de modo a economizar no sono e a manter-me acordado quando o corpo me ordenasse que dormisse. Foi o que me salvou.

Um velho passa por mal agradecido


 

«Naquele início dos anos quarenta, o Tio Alberto conduzia um carro desportivo pelas pobres estradas do Minho, a fim de se vingar do dr. Salazar, que gostava de elogiar a pobreza dos pobres e a modéstia dos pobres de espírito – e de Coimbra, que ele considerava a madrinha de todos os vícios.»

 

A vida na universidade (a de Coimbra) sempre me pareceu fastidiosa mas “teve de ser”. Ao contrário da descrição jubilosa de ‘Os Maias’, cheia de saraus literários e musicais, adultérios, álcool ou ‘charretes’ subindo e descendo as colinas, as neblinas do Mondego sempre me pareceram coroar uma existência geralmente consagrada a pouco estudo, aos desregramentos noctívagos e ao folclore que, ao longo dos anos, muitos colegas prolongaram em baladas de saudade e alguma melancolia. Como a melancolia é um sentimento nobre, prefiro classificar essas lágrimas como elas me pareceram: pura choraminguice e vontade de repetir épocas de alcoolismo remanescente ou de paixonetas histriónicas. Livrar-me de Coimbra foi, também, livrar-me de uma idade aborrecida e poder viver pelos meus próprios meios. O velho Doutor Homem, meu pai, tinha de Coimbra (que conheceu durante os anos da República) uma visão oficialmente idílica e muitas vezes, à sobremesa, depois de descrever com uma bem disfarçada minúcia alguns dos episódios fadistas da sua existência universitária, confessava que fora tudo “uma palhaçada”. O seu desprezo por Coimbra foi adquirido depois de ter visitado Londres e, por curiosidade, a verdejante e chuvosa Oxford, onde se sentiu, finalmente, estudante: em vez do lixo das vielas coimbrãs, encontrou a serenidade que aconselhava o estudo; e, em vez das peregrinações boémias e feéricas que percorriam o empedrado de uma cidade cheia de castas, lentes, pudores, bedéis, manias e futuros directores-gerais ou desembargadores, Oxford pareceu-lhe um lar. Para sua – e creio que nossa – infelicidade, foi sempre um conservador de ideias liberais, e um cavalheiro bem vestido, num país que não podia ter uma câmara de Lordes pelo simples motivo de não haver gente com categoria para ascender à posição. O seu desprezo pelo dr. Salazar, tantas vezes exagerado, vinha de ele imaginar aquele pobre homem provinciano, de colete e chinelos, estudando a questão do trigo à luz de candeeiros de petróleo, a uma mesa com camilha e braseira, enquanto no Arco de Almedina decorriam as praxes e as bebedeiras. Livrar-me de Coimbra (onde, séculos antes, a Inquisição condenara um dos nossos antepassados) significou um sincero regresso à vida. Naquele início dos anos quarenta, o Tio Alberto conduzia um carro desportivo pelas pobres estradas do Minho, a fim de se vingar do dr. Salazar, que gostava de elogiar a pobreza dos pobres e a modéstia dos pobres de espírito – e de Coimbra, que ele considerava a madrinha de todos os vícios.

Vivien Leight no areal de Moledo

«Como seria a minha vida se ela tivesse sido de outra maneira? Não sei. As famílias normais desapareceram da face da Terra há muito tempo e a que tenho à minha volta abastece-me de dramas e divertimentos suficientes.»

 

A minha relação com o cinema é ligeira, antiga (há mais de vinte anos que ignoro o que acontece fora de Moledo) e feita de muita ignorância, mas, naquela época – eu teria cerca de vinte anos –, talvez quisesse ter-me casado com Vivien Leight, não por causa de ‘E Tudo o Vento Levou’, onde foi Scarlett O’Hara, mas por causa de Blanche DuBois, papel que ela representou ao lado de Marlon Brando. E eu, na minha superlativa vaidade, só poderia ter sido Brando ou, então, Richard Burton (totalmente afastada a hipótese de me fazer passar por Clark Gable). Porquê Brando? Por causa de Blanche DuBois em ‘Um Eléctrico Chamado Desejo’. Porquê Burton? Por causa de ‘Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?’, um filme que trai a minha idade mas que justifica o meu celibato.

Destas revelações, que só o Inverno propicia, a minha sobrinha Maria Luísa fixou apenas Vivien Leight – eu não poderia explicar-lhe quem foi Claire Bloom, uma actriz de beleza tempestuosa e triste, que os leitores certamente já esqueceram. Maria Luísa acha Blanche DuBois um nome fatal do teatro e um exemplo de primeira grandeza para o feminismo, assuntos que ou me ultrapassam ou me deixam em grande desvantagem numa conversa de sociedade. Mais tarde, falhados os principais amores da minha vida, eu fugia de tudo o que pudesse complicar mais a minha vida, dedicada à mediania da vida familiar e ao cumprimento de tarefas que asseguravam a possibilidade de viajar e economizar para a velhice. Quando esta chegou, como sempre acontece, era tarde para voltar atrás.

Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, pensa – por vezes – que me fez falta uma companhia feminina e, provavelmente, uma “família normal”. Como seria a minha vida se ela tivesse sido de outra maneira? Não sei. As famílias normais desapareceram da face da Terra há muito tempo e a que tenho à minha volta abastece-me de dramas e divertimentos suficientes: sobrinhos enamorados ou ruidosos, irmãos que vivem angustiados com os problemas do economia, sobrinhos-netos que crescem no meio da ignorância e da internet, e pessoas amáveis que às vezes vêm ajudar-me a entender a harmonia das coisas. A Dra. Celina, por exemplo, dá-me notícias da sua filha que estuda em Lisboa. A minha sobrinha Maria Luísa descobriu agora o prazer de cozinhar e, ao crepúsculo de sábado, recolhe-se junto do fogão como uma esquerdista cheia de ternura. Este empréstimo de beleza basta-me. Ao canto da sala, Vivien Leigh lê um romance da moda e, de vez em quando, imagina como teria sido a sua vida sem mim.

 

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Passagens do tempo a meio do Inverno

«O ruído que vem da sala, no rés-do-chão, é o dos meus sobrinhos-netos, caminhando na adolescência – não basta para interromper a memória, para apagar os retratos do passado.»

 

Entretenho-me com memórias da família. O senso comum manda que o Inverno, com as suas depressões e dias de chuva seja um período dedicado ao assunto: noites para revisitar a memória, curtas tardes de sábado para recolocar fotografias nos álbuns, crepúsculos melancólicos para meditar sobre a torrente dos anos que passaram. Na minha idade, dobrado aquele ponto de onde nunca mais se divisa o ponto de partida, todos os momentos são dedicados à memória, mesmo quando ela diminui gravemente.

A generosidade, talvez por isso, chega com o passagem do tempo; à distância apreciam-se melhor os momentos que não podem regressar. E somos mais condescendentes, mais generosos, menos dados ao rigor ou à fúria. É a única coisa valiosa que se aprende com a idade: a envelhecer. Como se se envelhecesse para se aprender a envelhecer. O Tio Henrique visita-nos durante o Inverno; vestido com o seu velho casaco de lã, toca oboé ao canto da varanda, aprecia a chuva que cai sobre as faias de Arcos de Valdevez. A Tia Benedita dá os seus passos firmes pelo corredor do velho casarão de granito em Ponte de Lima e, a meio, pára a fim de limpar com o xaile uma pequena mancha de humidade no retrato de Dom Miguel, sem o mínimo sinal de tristeza.

O ruído que vem da sala, no rés-do-chão, é o dos meus sobrinhos-netos, caminhando na adolescência – não basta para interromper a memória, para apagar os retratos do passado. O Tio Alberto, gastrónomo e bibliófilo de São Pedro de Arcos, acende a lareira e senta-se no seu cadeirão voltado para uma estante onde se extingue a memória do seu século – atravessou continentes, é o aventureiro da família, o homem que roubou o coração a Svetlana Davydovna e conheceu o céu sobre Astrakhan, aberto sobre o Cáspio. Poucas vezes falou dela em família: era o seu segredo velado. Conhecendo a tendência dos Homem para a maledicência, poupou Svetlana, a sua princesa russa, ao lado de quem queria ser sepultado em Genebra. Ficou no Minho; ficámos todos no Minho, aguardando o nosso juízo final, igualmente sem tristeza, conformados com a geografia e os nossos vícios.

As gerações da família transmitem as recordações umas às outras, como num álbum de retratos que se herda de um museu. Dona Ester, minha mãe, acena aos seus bisnetos no areal de Caminha, onde o rio se perde na ondulação até não existir mais; a minha sobrinha Maria Luísa, a quem contei estes devaneios, acha que é tema de romance. Não. É apenas o tempo que passa e que nos deixa mais humanos, mais resistentes à gripe, mais sorridentes.

 

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O mar de Biarritz e as recordações de um velho

«Dona Ester acreditava que os rapazes bronzeados e as raparigas desempoeiradas eram abençoados pelo iodo e transformavam-se, com o tempo, em gente saudável.»

 

O velho Doutor Homem, meu pai, e Dona Ester, minha mãe, enamoraram-se em Biarritz num mês de Julho sem história, à beira de uma praia que quase ninguém frequentava porque estava mau tempo e chovia com abundância; o pormenor acabou por aproximá-los. As famílias de ambos tinham o costume de, de dois em dois anos, passar aí uma temporada (duas semanas, uma eternidade). Eram gente moderadamente rica sem a vertigem da fama ou da vulgaridade, e creio que davam passeios pela costa, falando o francês dos romances da época e da má imprensa parisiense. Trinta anos mais tarde, depois dos horrores da II Guerra, a família visitou o lugar – éramos muitos, a viagem era terrível através de uma Espanha sitiada por estradas ruins e vigiada por carabineiros de bigode, e Biarritz já não era o paraíso daquele primeiro quartel do século, procurada por pessoas que sabiam ler e se vestiam para jantar nas varandas dos hotéis. Mas era necessário recordar o episódio. De vez em quando, pelo menos até os meus irmãos e irmãs (éramos cinco no total) terem casado e criado os seus próprios itinerários familiares, fazíamos a peregrinação; eu era o mais velho, ainda não sabia que seria poupado à felicidade do matrimónio e da puericultura, e tornara-me proprietário da caneta Parker com que o velho Doutor Homem, meu pai, assinara o seu assento de casamento.

Ao contrário desse Julho de Biarritz, não me recordo de temporadas inclementes durante os verões da minha adolescência e juventude, passados quase sempre no Minho, ao qual sempre pertenci como um pinheiro melancólico à beira das dunas de Caminha e Moledo. Os invernos eram cruéis e as ventanias e tempestades da Galiza concentravam-se por toda a costa até às rochas de Leça e às ondulações que entravam Douro dentro, transformando a Afurada num cenário de devastação. Conhecíamos o mar e sabíamos como os arredores do Neiva, de Montedor ou de Âncora podiam ser perigosos.

No Verão, Dona Ester lançava-nos nos areais de Afife para que nos bronzeássemos e a pele secasse com a água salgada a que atribuía virtudes curativas e prolongadas. Dona Ester acreditava que os rapazes bronzeados e as raparigas desempoeiradas eram abençoados pelo iodo e transformavam-se, com o tempo, em gente saudável.

Na semana passada recordei esses momentos, como um velho atacado pelo demónio sentimental. A minha sobrinha Maria Luísa mencionou os temporais, com honra de televisão e alertas vermelhos. Lembrei que não se pode querer viver debruçado sobre o mar sem considerar que é necessário protegermo-nos dele.

 

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As histórias são sempre as mesmas

«Heróis no uso da palavra, os portugueses indignam-se muito, gritam na televisão, esgotam a lista de advérbios, abusam dos pontos de exclamação e, se fosse por eles, haveria revoluções todos os dias, excepto nos períodos festivos. O velho Doutor Homem, meu pai, considerava isto uma bênção: “Basta tapar os ouvidos e o país parece um quintal à hora da sesta. Tudo o mais é ruído.”»

 

 

O velho Doutor Homem, meu pai, considerava que A Brasileira de Prazins, de Camilo Castelo Branco, era o livro que melhor servia os interesses dos curiosos em história portuguesa do século XIX. Na verdade, nessas páginas habitava uma galeria de celerados, loucos, gente sensata e virtuosa vivendo paredes-meias com frades apóstatas e traidores das milícias minhotas, mulheres intempestivas, homens covardes, pregadores violentos, pecadores arrependidos, gente picaresca, enfim, de tudo um pouco. Um dos personagens, o pedreiro Zeferino das Lamelas, julgou morrer de amores por Marta, que tinha o seu coração prometido a José Dias e o dote garantido pelo que viria a ser, afinal, o seu futuro marido, um tio brasileiro muito forreta e sem carácter. Era deste Zeferino que queria falar, não por ser um modelo de virtudes mas por ser um fala-barato que acabaria morto atrás de um muro em ruínas, a coberto da noite, às mãos de um bando de assassinos a soldo, que assim facilitavam a vida ao pai de Marta, que poderia finalmente negociar com o brasileiro que em breve chegaria disposto a comprar as melhores quintas da região. Confuso? Naturalmente (e poupo os meus leitores e leitoras ao conhecimento de outras agonias crepusculares). Para isso servem os romances, tirando os de Mrs. Trollope, em que tudo acaba a contento.

Resumidamente, julgava o velho Doutor Homem, meu pai, nos meus momentos de desmoralização, aqui estava uma boa ideia sobre como falar da história de Portugal.

Hoje em dia, ao serão, evito cada vez mais ver televisão: tudo medido e considerado, não se acrescenta muito ao conhecimento que temos do género humano ou do destino da pátria. Dona Elaine não perde as novelas e, na cozinha ou na sala, saltita de uma para outra, mudando de canal, creio que misturando as personagens e as histórias de todas elas. Manifestei-lhe essa preocupação. Ela tranquilizou-me:  “O senhor doutor não se incomode, porque as histórias são sempre as mesmas. Em perdendo um capítulo numa delas, logo se apanha na outra.”

Num país tagarela, feito à medida do Zeferino das Lamelas – o personagem de Camilo –, isto ocorre com muita frequência. Heróis no uso da palavra, os portugueses indignam-se muito, gritam na televisão, esgotam a lista de advérbios, abusam dos pontos de exclamação e, se fosse por eles, haveria revoluções todos os dias, excepto nos períodos festivos. O velho Doutor Homem, meu pai, considerava isto uma bênção: “Basta tapar os ouvidos e o país parece um quintal à hora da sesta. Tudo o mais é ruído.”

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo

Um passeio breve em volta da fortaleza

«Depois de atravessarmos meia dúzia de viadutos e de visitarmos alguns restaurantes que, felizmente, continuam a manter cozinheiros e cozinheiras em vez de chefs, regressámos a Moledo com uma paragem em Seide.»

 

Contra todas as evidências, o mundo continua a interessar-me. Os meus sobrinhos, mais do que os meus irmãos, entendem o eremitério de Moledo, onde me instalei nos anos oitenta, como uma espécie de observatório inclinado sobre o mar, mas de onde suspeito que o resto do universo continua a mover-se – e de uma forma mais interessante do que Galileu Galilei imaginava.

Na semana passada, aproveitando o que ela chama “o período idiota” para o seu negócio bracarense, a minha sobrinha Maria Luísa levou-me de carro por um passeio pelo Norte do país. Há dois anos que Moledo era a minha fortaleza e a minha fronteira; a leitura dos jornais (cada vez menos, se tirarmos o The Daily Telegraph por assinatura na papelaria), uma passagem de olhos pela televisão e o comentário dominical durante o almoço de família bastavam-me para me considerar um cidadão informado. Tal como em várias gerações de antepassados, as opiniões têm prioridade sobre os factos – estes, limitam-se a repetir uma sequência de acontecimentos cujo interesse reside em confirmarem as previsões da família desde há duzentos anos, ou seja, que o mundo não estará muito melhor, mas que vale a pena persistir em guardar alguns valores que nos protegem da erosão. A frase é complicada, mas resume o essencial.

Serras atravessadas por auto-estradas, cidades rodeadas de edifícios incolores ou devastadas por eles, a velha Natureza enevoada do Norte (que sempre me comove), praças ocupadas por jovens que se vêem na televisão: o meu país não me desilude nem contraria. É como eu supus que ele era. Mantém a sua face, apesar do regime do dr. Salazar e da devastação do presente.

Depois de atravessarmos meia dúzia de viadutos e de visitarmos alguns restaurantes que, felizmente, continuam a manter cozinheiros e cozinheiras em vez de chefs, regressámos a Moledo com uma paragem em Seide, onde anualmente visito as sombras que há mais de cem anos foram as de Camilo, com o seu arvoredo triste, as suas madeiras velhas, o seu crepúsculo mágico. O país mudou aceleradamente mas o refúgio de Seide continua a inquietar-me; ali estava o relógio de Pinheiro Alves, o marido de Ana Plácido, que Camilo usou sem pudor, antecipando o desfecho trágico de uma existência consagrada a sobreviver no meio de ruínas.

A casa de Moledo recebeu-me de volta com o seu ar apaziguador. É a minha fortaleza e a minha fronteira. Maria Luísa, antes de partir para Braga, acenou-me do carro. A poeira do fim da tarde confundiu-se com o nevoeiro, tal como os anos da minha vida.

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo

Um conservador perdido no meio do dicionário



«Na verdade, não há português que não se afirme “amigo do progresso” e desconfiado do “conservadorismo”.»



A minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família, desconfia da existência de um “gene conservador” entre os Homem. Só isso explica, pensa ela, uma certa “tonalidade progressista” em muitas das crónicas com que tenho afligido a bondade dos meus leitores. Fui verificar, preocupado. E adivinho que o problema reside, muito mais, na forma como os portugueses agudizaram, ao longo dos anos, o seu relacionamento com o dicionário da sua pobre língua.

Na verdade, não há português que não se afirme “amigo do progresso” e desconfiado do “conservadorismo”; esta profissão de fé é comum a toda a espécie de gente e serve para declarar que os “conservadores” são inimigos da espécie humana – sobreviventes de uma era anterior ao Titanic e à descoberta da penicilina –, por oposição aos “progressistas”, gente aberta ao mundo e disponível para massacrar tradições e hábitos dos nossos antepassados, com o argumento de que a civilização não cessa de nos maravilhar.

Estas evidências são lendárias, tal como a existência de unicórnios nos bosques de Ponte da Barca ou nas encostas mais arborizadas do Gerês. Em primeiro lugar, a espécie humana é, não raras vezes, uma desilusão a que a nossa generosidade empresta algum carácter; mas não deixa de ser uma desilusão. Em segundo lugar, a civilização não é uma escadaria para o santuário de S. Bento da Porta Aberta, degrau sobre degrau: pelo contrário, há recuos admiráveis e funestos, vergonhosos, indignos – do nazismo aos massacres actuais, o nosso tempo conhece horrores de registo. Finalmente, não vejo vantagem em bom número de “coisas modernas”, que nos transformaram numa espécie sitiada pelo perigo de acordar no dia seguinte.

Mesmo concordando com estes princípios (que não fazem uma filosofia, reconheço), não há português que não se satisfaça por, algum dia, alguma vez, ter apanhado o comboio da modernidade e do “avanço civilizacional”, onde segue a boa velocidade, atravessando florestas esventradas por urbanizações de betão ou falando uma língua sem gramática, nem beleza, nem ordem.

Os conservadores gostam da ordem porque o género humano precisa de alguma tranquilidade – não porque apreciem o controle dos polícias. Foram os tempos modernos que impuseram uma vigilância perigosa nas nossas vidas privadas e públicas. O velho Doutor Homem, meu pai, recusava-se a entrar nesta discussão com o argumento de que, depois do Padre António Vieira, se falava mal o português e as pessoas se não entendiam. Ele tinha uma certa razão, e nunca leu uma única das minhas crónicas.


Publicado no Correio da Manhã | Domingo, 8-12-2013

Do niilismo à preguiça na província do Minho

 

«A família era realmente conservadora, com a sua pouco subtil tendência para a preguiça e para uma misantropia inócua que significava, no fundo, que era necessário encolher os ombros e seguir em frente.»

 

Para a Tia Benedita, todos os homens eram iguais, tirando o dr. Afonso Costa – com a sua barbicha – que era muito pior. Quando a senhora referia que “todos eram iguais” não estava a citar o emblema da revolução francesa, evidentemente, mas o seu próprio anátema contra o comportamento dos homens da família, que iam a Vigo comprar charutos, à Corunha comer polvo e a Orense e ao Lugo creio que comer presunto cozido e beber viños de ribeiro. Quando referia estes objectivos, a Tia Benedita sabia bem que o seu auditório compreendia o que ela queria dizer: que, em podendo, iam divertir-se e arranjar amantes.

O velho Doutor Homem, meu pai, teve durante algum tempo o costume de ir à Corunha visitar o dr. Cunha Leal, que ali estava exilado – mas com o argumento, que lhe fora explicado pelo seu irmão Alberto, de ir a Ribadeo comer ostras. Por aqui se vê a ortodoxia da família. A verdade é que, até o dr. Cunha Leal ter sido apanhado na companhia de simpatizantes carbonários e republicanos do Partido Democrático, os Homem manifestavam alguma compreensão por aquele cavalheiro que queria ordem na política e disciplina nas finanças públicas; a partir daí, deixou de mencionar-se o seu nome, creio que até hoje, com excepção do relato do funeral de Paiva Couceiro, em 1944, ao qual ambos os lados compareceram: o Tio Alberto, representante de um dos clãs que financiou o seu pobre exército galego; o dr. Cunha Leal, porque lhe agradavam todos os que tinham sido contra qualquer coisa desde que produzissem algum ruído.

Esta ideia de ser “contra qualquer coisa” poderia ter feito escola na família. Havia todas as condições para se tratar de uma tribo de perigosos niilistas conservadores, com a civilizada excepção de não defender o uso de bombas – mas seria uma contradição de termos. A família era realmente conservadora, com a sua pouco subtil tendência para a preguiça e para uma misantropia inócua que significava, no fundo, que era necessário encolher os ombros e seguir em frente. Depois de um século a viver entre despojos de derrotas políticas, o sentido da História – se é que alguma vez ele existiu – não nos interessava. Limitar-nos “a cultivar o jardim”, dizia o velho Doutor Homem, meu pai, citando Voltaire às escondidas da Tia Benedita.

Ela julgava que a frase tinha a ver com algum interesse súbito do seu sobrinho dilecto pela arte da jardinagem ou pela botânica; a sua ignorância no campo das letras ímpias foi, também, a sua salvação. À sua maneira, ela também era “contra qualquer coisa”.

 

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo, 1-12-2013

A vida privada e a sua virtude


«A Tia Benedita, por exemplo, evitava saber o que não lhe agradava. Ela imaginava Ponte de Lima, onde viveu e morreu, sitiada pela imoralidade, pelo bolchevismo e pela república.»

 

Não me lembro de, à mesa de casa, se falar de vida privada. Não existia. O velho Doutor Homem, meu pai, tinha – pela hora da sobremesa, antes do café – o pequeno gosto da maledicência, não da maldade. Havia um maravilhoso resto de humor nesses apontamentos, com vítimas desenhadas com pormenor, moldadas sem piedade, arrastadas com a colher do pudim.

Tudo tinha a ver, dizia o velho Doutor Homem, meu pai, com “a exibição da alma”, um adereço que devia guardar-se para o interior das casas, onde estivesse a salvo da vulgaridade. Discutir a vida íntima era matéria para não mais que duas pessoas, num recato inviolável, talvez com aquele toque de soberba e até de misantropia fingida.

O princípio foi levado tão longe que, quando a minha sobrinha Maria Luísa anunciou que ia divorciar-se pela terceira vez, havia gente que não sabia do segundo casamento. Era, naturalmente, um exagero indesculpável numa família que assistiu a escândalos, protagonizou alguns (casamentos roubados, desgostos pueris, singularidades do Alto Minho) e tratou da vida como se os hibiscos fossem eternos – sabendo que não eram.

A Tia Benedita, por exemplo, evitava saber o que não lhe agradava. Ela imaginava Ponte de Lima, onde viveu e morreu, sitiada pela imoralidade, pelo bolchevismo e pela república. Na verdade, nunca conheceu nenhuma das coisas. Limitou-se a verificar que havia coisas que não lhe agradavam e que o tempo passava sobre o retrato do senhor Dom Miguel ao fundo do corredor de granitos e reposteiros, uma presença tão banal e consentida que é hoje, periodicamente, entregue aos cuidados de Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família – que o leva a Braga para limpeza.

Percebo que Maria Luísa, com o tempo, passou a apreciar esta discrição (antigamente, ela supunha que se tratava de hipocrisia): nunca foi perguntada sobre os seus amores nem os meus sobrinhos sobre os passeios pelo pinhal, onde suponho que procedem a cerimónias rituais para fumar haxixe.

O que não existe, não me incomoda – apenas me surpreenda que exista. Mas pouco. Desde a ida do homem à Lua e da invenção do biquíni brasileiro que a tranquilidade conservadora de Moledo persiste como uma bênção acolhedora. Limita-se a fazer de conta que as coisas estão bem feitas.

Dona Elaine, a governanta e vigilante deste eremitério, diz que o mal de hoje são as telenovelas. Ela acredita que, a sul de Viana, atravessando o Lima, o mundo anda num grande desconcerto. Acha-o normal. A arte está em escondê-lo com virtude. 

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo, 24-11-2013

Uma ida a Copacabana nos anos cinquenta



«Até ao fim da sua vida, a Tia Benedita (cuja galeria incluía um retrato do brigadeiro Ferreira Sampaio em vésperas da contra-revolução de 1823) nunca deixou de desconfiar do Brasil, tal como o dr. Salazar, que achava os trópicos a antecâmara de todos os pecados.»

 

Recordo com alguma nitidez – aquela que a idade permite – a minha partida para o Brasil nesses inesquecíveis anos cinquenta (a minha sobrinha Maria Luísa considera a palavra “inesquecíveis” sinónima de “o despertar de Copacabana”, e não anda muito longe da verdade).

Para alojamento, o meu pai contribuiu com alguma moderação e mandou instalar-me no então circunspecto Hotel Glória, já um símbolo conservador do Brasil da época. Aqueles três meses, como já contei aos leitores bondosos, mudaram a minha vida, devolvendo-me à Pátria curado de um mal de amor e preparado para enfrentar os enigmas da idade adulta. Voltei ao Brasil mais vezes, mas os “inesquecíveis anos cinquenta” nunca poderia repetir-se pela minha vida fora. Seja como for, o tempo passou sobre o tempo, a minha vida passou sobre esses anos e, como seria lógico, o mundo mudou bastante.

Na altura, tomando conhecimento da viagem, a Tia Benedita manifestou um pouco da sua habilidade para lidar com a História; desconhecendo os areais de Copacabana e as suas tentações limítrofes (é uma maneira de dizer), a matriarca de Ponte de Lima preferiu lembrar, sobre todas as coisas, que D. Pedro tinha “reinado” sobre o Brasil antes de chegar ao trono de Lisboa, o que fazia da antiga colónia uma espécie de foco de contágio. O velho Doutor Homem, meu pai, achou o argumento despropositado e, levando-me a Lisboa para que eu atravessasse o Atlântico, recomendou-me que me divertisse.

Até ao fim da sua vida, a Tia Benedita (cuja galeria incluía um retrato do brigadeiro Ferreira Sampaio em vésperas da contra-revolução de 1823) nunca deixou de desconfiar do Brasil, tal como o dr. Salazar, que achava os trópicos a antecâmara de todos os pecados e, portanto, da liberalidade em política. Para a Tia Benedita, o pecado não contava muito, porque ela conhecia a natureza humana e não se impressionava facilmente com adultérios nem quebras de moral. O que a incomodava era “o contágio”: hoje um degrau, amanhã outro; hoje um deslize, amanhã uma avalanche; da mini-saia ao bolchevismo, o caminho era curto e a passagem demasiado rápida.

Quando regressei do Brasil, ao fim de três meses e meio no Rio de Janeiro, as coisas não tinham mudado nas colinas que rodeavam Ponte de Lima e aquele casarão rodeado de muros cobertos de trepadeiras e rosas de Sta. Teresinha. Vi a Tia Benedita uma semana depois do meu regresso, quando fui visitá-la para oferecer-lhe umas recordações da Guanabara. Tossiu com discrição. A falar verdade, ela achava que era necessária uma quarentena.

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo, 17-11-2013

A vida dá voltas, ou o caso do fado

O velho Doutor Homem, meu pai, tinha uma predilecção por Anna Moffo, cujas interpretações da Traviatta e do Barbeiro de Sevilha o comoviam bastante. Os discos da soprano acompanharam-no durante muito tempo e, naqueles verões destemperados de Ponte de Lima, onde se recolhia por uma a duas semanas, serviam para acomodar as amenidades locais ao seu temperamento irrequieto. De braço dado com uma ária tardia, o crepúsculo descia mais perfeito sobre o casarão de Ponte de Lima e os seus muros de granito cobertos de trepadeiras e rosas de Santa Teresinha.

A minha sobrinha Maria Luísa estranhou, durante muito tempo, a natureza desse gosto pela ópera, que ela chamava aristocrático – atribuindo-o, alternadamente, ou à bela vida do seu tio-bisavô, ou a uma “educação elitista”, como sugere o seu manual de única eleitora esquerdista da família (tomando como seguro que o antigo partido do Dr. Louçã se apresente periodicamente a votos). Nenhuma das hipóteses é verdadeira: o velho Doutor Homem, meu pai, apreciava ópera porque na sua juventude frequentara os teatros do Porto e porque fizera um esforço para aprimorar, melhorar e aprofundar os seus gostos. E então, sim, era um gosto de aristocrata e de autodidacta.

Outra era a sua relação com o fado, por exemplo, que as esquerdas consideravam um vergonhoso vício do país atrasado que éramos durante o longo consulado do dr. Salazar. Acontece que o velho Doutor Homem, meu pai, apenas gostava de quatro fados, em geral, e desconhecia orgulhosamente tudo o resto, desprezando-o com uma certa ironia aristocrata. “E que quatro fados eram esses?”, quis saber Maria Luísa. Simples: “Havemos de ir a Viana”, “Povo Que Lavas no Rio” e “O Rapaz da Camisola Verde”, todos com poemas do Dr. Pedro Homem de Mello (e cantados por Amália Rodrigues) – e todos os fados cantados por D. Maria Teresa de Noronha, sem excepção, se bem que, além do “Fado das Horas”, ele não conhecesse mais nenhum.

A vida dá voltas: o pobre fado, essa canção lacrimosa, machista e cheia de saudosismo (emblema nacional, portanto), deixou de ser “um vergonhoso vício” do salazarismo, e é hoje um orgulho das esquerdas, que o choram melancolicamente, diz-se que com muita proficiência, ou em seu nome ou em nome do povo e das classes trabalhadoras. Maria Luísa, tentando esclarecer-me, apresentou-me seis ou sete fadistas da “nova geração” de que esqueci os nomes. Em vão: tal como o velho Doutor Homem, um bom melómano, só aprecio três ou quadro fados. Tudo o resto é, digamos, fado.

Um Verão tardio para iluminar as dunas

Como previa a Dra. Celina, a nossa bibliotecária de Caminha, agora o Outono veio para ficar. Disse-o com alguma tristeza ao entardecer do sábado passado, como se se despedisse, não do Verão pleno e balnear, mas de uma espécie de recaída de um Verão tardio que viesse dar-nos uma segunda oportunidade para apreciar a luz sobre as dunas de Moledo. Lembro-me de que isso acontecia, geralmente, a meio das tardes de Outubro – Dona Ester, minha mãe, vigiava as bicicletas dos seus filhos naquele então longo corredor da Foz. Ainda não havia neblina. Ainda não havia chuva. Ainda não havia folhas de árvores no chão da Praça de Liège. Praticamente, ainda não havia Outono: apenas a graciosidade daquela despedida que Dona Ester, mais do que ninguém, sentia como uma nostalgia antecipada. Ela acreditava que o Verão e as temporadas de praia eram uma inesgotável fonte de saúde de beleza (coisa que, nesse tempo de pudores públicos e privados, fez dela uma mulher ousada e destemida): queria-nos bronzeados (somos cinco irmãos ao todo, eu o mais velho) e a respirar o perfume da beira do mar.

O velho Doutor Homem, meu pai, tinha uma atitude diferente: era um dandy que apreciava o seu alfaiate, os seus chapéus e a chegada da ocasião mais certa para vestir o primeiro tweed do ano. O fim do Verão não o incomodava; de facto, o seu Verão terminava na primeira semana de Setembro, quando dava por findas as suas excursões ao velho casarão de Ponte de Lima, onde a Tia Benedita vigiava, à distância e com rigor, os espalhafatos da família. Nessa altura, o Tio Alberto já partira para as suas viagens para lá do Bósforo e da civilização, abandonando o jardim e a despensa de São Pedro de Arcos, onde vivia. Há quem atribua ao Outono uma grande percentagem de razões para começarmos a cismar, como se nos desfolhássemos com os plátanos e as videiras das colinas. Pessoalmente, limito-me a agasalhar-me, atitude que me tem protegido bastante. Esta indiferença há-de parecer relativamente arrogante, se pensarmos na minha idade e na teimosia que a acompanha.

Na semana passada, a minha sobrinha perguntou-me se eu penso na morte. “Não costumo cismar. Uma vez ou outra”, menti depois, porque depois dos oitenta pensamos nela todos os dias. O velho doutor Homem, meu pai, aconselhava chá de cidreira para todos os males, inclusive para a tendência de cismar. Por detrás daquela aparência de circunspecto cavalheiro do velho Porto escondia-se um sátiro que ironizava até sobre a existência de vida para lá do Outono.

Os livros que servem para conservar o mundo

De vez em quando, a meio da semana e aproveitando a doçura daquele silêncio outonal que abençoa os pinhais em redor da casa, Dona Elaine, a guardiã e governanta do eremitério de Moledo, fica de pé observando as estantes que cobrem todas as paredes daquilo que chamamos, na família, “a biblioteca”. São uns milhares de livros com proveniência muito diversa e que servem, fundamentalmente, para ler.

A utilidade dos livros, entre os Homem, nunca se desviou muito dessa estrita finalidade. Não se tome a afirmação por arrogância, digamos, intelectual. Há, claro, uma certa vaidade de bibliómano e um certo prazer na posse de um exemplar raro, uma primeira edição, uma curiosidade; mas a vaidade dos Homem tomou sempre outra direcção. O velho Doutor Homem, meu pai, por exemplo, guardava-se para a meia estação a fim de vestir os seus fatos de ‘tweed’ de Donegal (o único que ele achava digno de um cavalheiro colonial, considerando que não ligava à distinção entre o Eire e o Ulster) e dar uso aos bonés irlandeses que o protegiam, durante os seus passeios à beira-mar, de um frio inexistente. Era essa a prova da sua vaidade. O Tio Alberto, tirando o facto de ser considerado o bibliómano da família, preferia ser considerado pelos seus dotes culinários e por ser reconhecido pelos porteiros do velho Hotel du Lac em Genebra, onde repousava das suas viagens em redor do Cáspio antes de regressar à solidão melancólica de São Pedro de Arcos. E a Tia Benedita, tirando a literatura pia e dois ou três romances de que ignorava os títulos, considerava a vaidade um pecado capital de primeira grandeza. Sobrei eu. Durante anos, décadas, não havia opúsculo de história regional do Minho que não cativasse a minha atenção. Mas não por vaidade absoluta e maldosa. Apenas por ingenuidade e um resto de entusiasmo adolescente (coisa que sempre foi duvidosa, uma vez que a família considera que nasci já adulto e que não passei pela adolescência).

De modo que Dona Elaine estaciona diante das prateleiras e, baixinho, pergunta: “O senhor doutor não sabia o que fazer sem estes livros, pois não?” Não. Não saberia o que fazer. A minha sobrinha Maria Luísa, que acha que os livros são um contributo essencial para “mudar o mundo”, desde o mais modesto romance cheio de erros de gramática, até ao ensaio mais obtuso de um professor de Heidelberga, nunca compreendeu que os livros servem, sobretudo, para “conservar o mundo”. Se quiséssemos mudar o mundo, andávamos lá fora, atrevidos e inconsoláveis. São estas coisas que definem um reaccionário em épocas de intempérie.

Um poeta de Monção e a invasão espanhola

No encerramento das contas do mês de Agosto, a minha sobrinha Maria Luísa deu largas ao que, às escondidas, chamou os seus “verdadeiros sentimentos anti-espanhóis”. A ideia de que Castela poderia tomar as Selvagens, ao largo da Madeira, convocou o seu espírito anti-imperialista. Era um fim de tarde de domingo em Moledo, depois de um dia de sol preguiçoso e poeirento, e em breve Maria Luísa partiria para Braga – onde, como expliquei ao leitor, a minha sobrinha trata de ajudar os ricos a decorar as suas casas sem atropelar o sentido das proporções. O Dr. Barreto Nunes interrompera as suas férias em Âncora para ir a Tui comprar o guia do campeonato espanhol e, de caminho, trouxe tapas de Baiona para um lanche cheio de revelações sobre opúsculos minhotos e versos quase galegos de João Verde, um melancólico de Monção que, além de versejar, apreciava a Galiza de antanho como ela vem em dois livros de Gonzalo Torrente Ballester.

O Tio Alberto, bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, guardara na sua biblioteca um exemplar de Ares da Raia, que transitou nos anos oitenta para as estantes de Moledo, como uma curiosidade regional. João Verde é uma raridade e merece o título. O Dr. Barreto Nunes é um dos seus leitores generosos – e a minha vaidade brilhou ao mostrar-lhe uma primeira edição de 1902. O meu avô paterno, administrador de quintas do Douro, visita regular de Guerra Junqueiro nas colinas estivais de Barca d’Alva, conheceu João Verde à distância. O autor de ‘O Melro’ (o velho Doutor Homem, meu pai, considerava-o um dos mais aborrecidos poemas da nossa língua), que viveu em Viana, foi o responsável por essa familiaridade que o velho contabilista e gestor cultivou educadamente, com o argumento de que se deviam respeitar os homens de letras.

A ideia de um poeta quase luso-galego, declamando em Monção sobre a beleza da raia, mesmo ouvida à distância, foi o motivo da explosão patriótica de Maria Luísa, que temia a ocupação castelhana das Selvagens. A imagem era excessiva, porque as ilhas madeirenses não têm o recorte peninsular de Gibraltar – mas bastava para imaginar o forte da Ínsua, na praia de Moledo, sitiado ou invadido por carabineiros de bigode e tricórnio.

“Os espanhóis são assim. É mais conversa”, tentou explicar dona Elaine, a pretexto da sua experiência de uma década a negociar com contrabandistas de La Guardia. Mas à noite, na varanda voltada para o pinhal, a governanta do eremitério de Moledo olhou para a ondulação, em busca de lanchas invasoras.

Um Verão com iodo e ciúmes familiares

Ao contrário do que supõe a generalidade dos “equiparados a sociólogos” que trabalha nos jornais, não é unânime a ideia de que o Verão seja um território de absoluta felicidade. Preparam-se grandes catástrofes: “o regresso às aulas” antecipará uma temporada em que psicólogos e adivinhos serão entrevistados pelas televisões para nos esclarecerem sobre os traumas que as crianças sofrem todos os anos em Setembro; a chegada do Outono será acompanhada de cantos trágicos e celestiais de economistas (como os meus dois irmãos, cada um em seu ramo) que hão-de celebrar a angústia das contas públicas; para concluir uma procissão de condenados, chegará o Natal e a necessidade de demonstrar o nosso amor ao próximo.

Sei destas coisas por ouvir dizer. Nos areais de Moledo, a meio da tarde, quando começa a levantar-se uma nortada carregada dos iodos atlânticos, há conversas instrutivas sob os toldos de Verão: a minha sobrinha Maria Luísa, que acha “as crianças” (como ela se refere aos seus filhos adolescentes) relativamente insuportáveis, pede a antecipação do ano escolar para Agosto, por considerar que as hormonas devem ser educadas com disciplina e não abandonadas à sua sorte; os economistas, em calção de banho, mencionam operações complicadas da sua ciência e temem a chegada da troika; e Dona Elaine, inesperadamente, a meio de uma tarde de calor apenas temperada pela sombra dos pinhais, sugeriu que este ano substituíssemos o peru pelo cabrito na ceia de Natal, “porque a pequena holandesa queria prová-lo”.

“A pequena holandesa” (natural da Frísia e do Mar do Norte – só isso explica ela achar o mar de Moledo uma bolsa de requintes tropicais) chama-se Isabelle, é a namorada do meu sobrinho Pedro e ainda não tinha antes, e com três meses de antecedência, interferido no cardápio da cozinha de Dona Elaine, a governanta vitalícia. Tirando estas inquietações, saiba o leitor que o Estio decorre no Minho com a moderação habitual. Maria Luísa declarou-se satisfeita com a época balnear e tentou explicar aos filhos que “o iodo” é uma categoria filosófica idolatrada em Moledo, comparável à alma ou às provas da existência de Deus, e não uma matéria para a medicina ou a química. Isabelle, muito positivista, sorriu à ideia e esclareceu que o iodo é muito recomendável “para a saúde”.

Maria Luísa abriu muito os olhos e pediu-lhe para não se meter no assunto. Ela não perdoa que eu tenha emprestado o velho Rover para o meu sobrinho Pedro e a “pequena holandesa” irem a Viana às festas da Senhora da Agonia.

Uma ideologia: as coisas são como são

A “pequena holandesa”, como portas adentro D. Elaine se refere a Isabelle, a namorada do meu sobrinho Pedro, chegou na semana passada para a sua temporada de Agosto. Como é uma visita regular (vem quatro a cinco vezes por ano) e já tenta exprimir-se afavelmente na nossa língua, o seu lugar à mesa está garantido para as duas semanas que se demorará em Moledo. Há trinta anos isto não era possível, pelo menos na família que se honra de ter tido a Tia Benedita como matriarca e farol da sua genealogia: Isabelle teria de pernoitar em Caminha ou em Vila Praia de Âncora, pelo menos até se realizar o casamento com Pedro. A minha sobrinha Maia Luísa, que desconfia dos países do norte da Europa, sempre achou Isabelle muito atrevida; depois de murmurar algumas observações sobre o consumo de haxixe em Amesterdão, a votante esquerdista da família compreendeu que estava a batalhar em terreno minado: não só ninguém se preocupava com as drogas holandesas como a simpatia natural (e a sua beleza rara, vinda das baixas temperaturas da Frísia) de Isabelle se coadunava perfeitamente com a desorganização ideológica de uma família que desistira há muito de chorar a partida do Senhor Dom Miguel – e aceitava que “as coisas são como são”.

O axioma é estranho, mas o universo mudou bastante nas últimas décadas. Esse tempo passou. Hoje, Maria Luísa e Isabelle regressam da praia como amigas de sempre, e entre a jovem bióloga holandesa e a decoradora bracarense nasceu uma cumplicidade que admiro ao longe, porque representa uma vitória da minha parte. Para mim é um argumento fatal: insinuo que Maria Luísa está “mais conservadora” por contágio com a representante do luteranismo neerlandês (e logo frísio), um benefício que a idade arrasta consigo sem prevenir.

Maria Luísa cede aqui e ali, sem reconhecer a evidência – mas aceitando que “as coisas são como são” e que os adolescentes estão cada vez mais absurdos (“os adolescentes” são os seus dois filhos) por culpa da educação liberal dos tempos modernos. Mas o Verão de Agosto não é um território para combates ideológicos: uma modorra vespertina recompensa as neblinas matinais e a nortada quase permanente que pica o mar junto da Ínsua, onde ele é mais azul e parece mais profundo. Maria Luísa encolhe os ombros. O seu optimismo é feito de notícias sobre como o mundo está desregulado e irreconhecível, por culpa do capitalismo, do aquecimento do planeta ou da maldade dos poderosos. Entretanto, lê romances. Há dois dias começou com ‘Orgulho e Preconceito’ e temo que os resultados sejam devastadores.

Os fins-de-semana de uma família desaparecida

A minha sobrinha Maria Luísa considera que os seus filhos, a quem ternamente designa por “as crianças”, dormem demasiado, sobretudo durante os fins de semana. Ora, “as crianças” têm acima de 18 anos e concebem “o fim de semana” como um acontecimento que decorre fora do mundo e vagamente destinado a esgotar energias que, em geral, são desconhecidas. Quando quis saber a que horas se deitam “as crianças”, Maria Luísa murmurou que “às dez ou onze” – e antes que eu elogiasse a sisudez de dois adolescentes que se deitam às horas a que o seu tio-avô dobra as derradeiras páginas do seu livro de companhia, ela limitou-se a esclarecer: “Da manhã.” E o que fazem entretanto? “Desconheço”, respondeu ela enquanto arrumava a loiça do pequeno-almoço, por volta das nove, a tempo de iniciar a caminhada dos sábados.

O velho Doutor Homem, meu pai, tinha fama de ser madrugador. Ele atribuía isso a um hábito nem por isso saudável, o de ter um horário para cumprir no velho escritório da Baixa portuense, e de fazer a sua entrada discreta às nove e meia da manhã, depois de uma passagem pelo Café Guarany, onde – à falta do ‘Daily Telegraph’, que só chegava aos sábados, num pacote expedido – lia o essencial de ‘O Primeiro de Janeiro’ e tomava conhecimento da previsão meteorológica para o dia seguinte. Porém, a sua hora de acordar, fosse qual fosse o dia da semana e a estação do ano, rondava as sete da manhã; a hora de sair de casa, em dias de trabalho, coincidia com as oito e meia.

Quando, ao entrar na idade adulta, fui admitido no escritório, uma das primeiras coisas que aprendi foi que “o Senhor Doutor nunca marca nada antes das dez e meia”, e mesmo diligências, julgamentos, sessões avulsas nos tribunais, eram quase sempre contestadas se violavam essa agenda invisível e partilhada por todos os funcionários: “O Doutor Homem só está disponível depois das dez e meia.” Portanto, a maior parte das (raras) deslocações do meu pai aos tribunais – ele dedicava-se às minudências do direito bancário – antecediam a hora de almoço, reservando as tardes para trabalhar à secretária. Aquela agenda minuciosa significava que o mundo não era, de facto, uma exigência permanente – e que, pelo contrário, tinha de se adequar aos hábitos que, ao longo dos anos, e com muita insistência e estoicismo, o velho Doutor Homem, meu pai, impôs à sua volta.

Maria Luísa sonha com um mundo em que as coisas voltem a uma certa ordem que nunca conheceu. As mulheres da sua idade – a idade perfeita para reiniciar a vida e apreciá-la condignamente – têm tudo a ganhar.

 

{Publicado no Correio da Manhã}

A desilusão do império em Arcos de Valdevez

Em casa do tio Henrique, nos Arcos, não se falava de política – nem à mesa (como o velho Doutor Homem, meu pai, tinha sabiamente prescrito), nem noutro lugar qualquer. Infelizmente, a essa mesa familiar, discreta e saborosa, no casarão escondido por amieiros e freixos de Arcos de Valdevez, era possível ouvir o Tio Henrique discretear sobre as campanhas de África ou o seu sonho de compor uma obra sinfónica sobre as aventuras ultramarinas dos portugueses, mesmo depois da queda de Dadrá e Nagar-Aveli e do seu desaparecimento do depois defunto Estado Português da Índia.

A frase é complicada mas traduz o espírito: à medida que esses pequenos territórios iam sendo ocupados pelos seus actuais donos (até 1961 seria a vez de Goa, Angediva, Simbor, Damão, Gogolá e Diu), o Tio Henrique redobrava de fervor imperial e ninguém estranharia vê-lo, desgrenhado e de dólmen e bandoleira, imitar os miguelistas de Macau – que, numa noite de boémia patriótica, ameaçaram invadir a China.

Depois de o último dos territórios ter sido absorvido pela Índia, esperava-se que o Tio Henrique caísse num estado de prostração e de melancolia. Não aconteceu. Mesmo tendo sofrido um abalo desta natureza, o improvável melómano dos Arcos sobreviveu aos desafios da História e, tirando um período em que manifestou um interesse perigoso pelas obscuras experiências científicas do Padre Himalaya, pareceu perceber que o seu tempo tinha passado. O velho Doutor Homem, meu pai, tentou consolá-lo: fez-lhe saber, cuidadosamente, que o destino do império estava traçado desde que, em 1822, nasceu a lenda de D. Pedro atravessando o Ipiranga. O Brasil era apenas a primeira peça desse dominó; por isso, acrescentava o causídico, com o cinismo cultivado pela destreza de um ‘snob’, restava-nos “cultivar o nosso jardim”. A citação era perigosa, vinda do ‘Cândido’, de Voltaire, mas transportava uma profundidade amarga e conservadora, como se lhe dissesse, ao ouvido: “Resta-nos o Minho, cá nos aguentaremos.”

O Tio Henrique nunca mais saiu do Minho, de facto. O resto da humanidade não parecia interessá-lo, desde que lhe fosse permitido ensaiar o seu oboé, passear entre os amieiros, fumar charutos canarinos e ler ‘O Primeiro de Janeiro’.

Ele e a Tia Florbela eram um casal feliz. Em Agosto, saíam dos Arcos para se sentarem à mesa do almoço anual dos Homem, e ficavam uma semana em Ponte de Lima; gostavam das visitas do Tio Alberto, o bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, que lhes levava travessas com sardinhas de escabeche e opúsculos raríssimos sobre os sertões de África. Não viviam neste mundo.

 

Uma recordação sobre a poesia no Outono

Já um dia tive a oportunidade de explicar aos leitores pacientes que o velho Doutor Homem, meu pai, dedicava uma grande parte da sua biblioteca aos poetas românticos ingleses. Estes eram as suas pérolas bibliográficas, ao contrário de mim, que me concentrei em ninharias de botânica, história regional e geografia do Alto Minho, e do Tio Alberto – o bibliófilo de São Pedro de Arcos –, que coleccionava quase tudo mas devotava uma atenção erudita a assuntos de gastronomia.

O prazer que o velho Doutor Homem, meu pai, obtinha da leitura dos seus poetas e da contemplação desses livros (Tennyson, Byron, Shelley, Keats) não tinha a ver com nenhum tipo de dedicação à literatura ou às figuras literárias. Em abono da verdade é necessário dizer que abominava vates em carne e osso; em seu entender, um poeta não tinha o direito de se apresentar vivo. Essa sua repulsa era conhecida da família, tanto como a sua paixão pela poesia. Compreende-se. Formado no respeito pela leitura, achava os autores simples instrumentos de uma entidade superior e, geralmente, pessoas com defeitos superlativos, desde a vaidade à falta de maneiras, passando pelo mau hálito e pelo oportunismo político. Acresce ainda que a família, uma espécie de sebe miguelista do Alto Minho, detestava “o regime” – e “o regime” era, sobretudo, a colecção de inanidades literárias e patrióticas quer do constitucionalismo, quer da República, quer do círculo do dr. Salazar. Tudo com poucas excepções, numa galeria cheia de vates melancólicos, mimados e depressivos ou, aqui e ali, poetas cómicos que erraram o seu destino, tratando assuntos que poderiam parecer sérios, como as aldeias de Portugal, a humildade do povo, a democracia, as lavadeiras do Mondego, o Cristo dos pobres ou as saudades de um amor justamente perdido (até por castigo).

Hoje, raramente leio poesia – à excepção de versos que lembram a minha adolescência ou a formação da minha idade adulta. Os meus irmãos acham esta ideia um despropósito, porque insistem em que eu não tive adolescência e acreditam que nasci já adulto, vestido de ‘tweed’ e celibatário. Nessas alturas, argumento que a métrica, a gramática e um bom vocabulário também fazem falta, coisa que até os poetas galegos sabem.

A minha sobrinha Maria Luísa indigna-se bastante nestas ocasiões. Mas ela supõe duas coisas erradas: que basta haver poetas para haver poesia, e que basta alguém escrever poesia para o acharmos poeta. Uma coisa não tem a ver com a outra, como se sabe. Só isso explica a beleza deste Outono em Moledo – uma coisa que raras vezes coube, inteira, em versos de certa qualidade.

Uma espécie de vigilante de um museu de província

Por algum motivo que me tem escapado nos últimos sessenta anos, os casos de celibato multiplicaram-se na família, ao longo de várias gerações. O assunto ou nunca mereceu comentários – ou eu não quis ouvi-los depois de dobrar os quarenta e de me ter conformado com essa existência medíocre e relativamente solitária, longe da puericultura, das disputas conjugais e das alegrias do matrimónio. Do Tio Alberto, bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, todos conhecíamos a sua relação com uma princesa do Cáspio (hoje sepultada em Genebra, segundo a sua vontade), e sabíamos que, mal despontassem as primeiras neblinas de Agosto, ele partiria, discretamente, para atravessar as fronteiras que o separavam das flores do seu romance.

À Tia Benedita, legitimista da família e uma espécie de marco geodésico de todas as excentricidades dos Homem, não agradavam estes exemplos. Ela considerava que o celibato obrigava os seus padres de Ponte de Lima (a quem conhecia os flagrantes mais criticáveis), mas deslustrava a gente de casa como se tivesse sido recusada no altar. Mas a família conhecia casos ambivalentes. A viuvez, na flor da idade, da Tia Henriqueta, fez supor um segundo casamento; ilusão: permaneceu solitária, no casarão de Vila Praia de Âncora, com a sua cozinha perfumada pela melhor culinária do Alto Minho e os rumores de uma paixão sáfica que emprestava ao seu riso um tom de melancolia aristocrata. O meu avô, administrador de quintas no vale do Douro, falava da sua viuvez como de um estádio de repouso entre os afazeres do escritório. A própria Tia Benedita, viúva aos cinquenta, dedicou o resto do seu tempo à religião, aos retratos do senhor Dom Miguel e à jardinagem (de gosto duvidoso, segundo o velho Doutor Homem, meu pai).

Mas ela desconfiava: achava que as portas do celibato eram apenas uma passagem obscura para a estroinice e as tentações maçónicas, porque – sem rei a sério, como ela supunha que existisse antes de 1820 – o mundo estava abandonado à sua sorte, o que significava que tudo estaria condenado a ser corroído pelo bolchevismo, pela imoralidade e pela República, uma trindade que pretendia ver em todos os esconderijos do seu planisfério.

Havia nisto um certo exagero. Com o passar dos anos, a família desinteressou-se dos velhos princípios. O velho Doutor Homem, meu pai, era um dândi da Foz portuense. Eu, seu filho, limitei-me a escolher o caminho mais fácil. Hoje, sou apenas o guardião do retrato de Dom Miguel, uma espécie de vigilante de um museu de província.

Uma aurora boreal no céu de Gibraltar

A vaidade de um velho minhoto, quase contemporâneo do Titanic (falhei por uma década), haveria de surpreender o velho Doutor Homem, meu pai, habituado a não se comover com as provas do desvario do mundo e a emprestar pouco crédito à capacidade de os portugueses se escandalizarem ou escreverem maus sonetos por quase nada.

Desta vez, foi a Dra. Celina que, na sexta-feira da semana passada, me trouxe a novidade: “Olhe o que encontrei na livraria.” E mostrou-nos a capa do livro que reúne as crónicas publicadas nesta página nos últimos anos. O Dr. Boavida, com a sua proverbial generosidade, já tinha enviado um exemplar em segredo – que a minha sobrinha Maria Luísa levara para Braga, a fim de me poupar à humilhação de encontrar nas estantes um livro com o meu nome no frontispício.

Sou, portanto, da idade da Turquia e da Mongólia russa, acontecimentos que nunca tiveram importância na minha vida ao longo do último século. Entrei na idade adulta, praticamente, no ano em que o mundo foi surpreendido com uma aurora boreal em Gibraltar e em que o Tio Alberto, o nosso bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, lamentou a morte de Gabriel D’Annunzio e me explicou, largamente, quem era Kemal Ataturk. Anos depois, o Tio Alberto, o maior viajante da nossa família (a despeito da indignação da Tia Benedita, a matriarca miguelista dos Homem), atravessaria o Bósforo na perseguição do amor da sua vida, até às margens do Cáspio. Daria um romance, dois romances, nenhum deles escrito ou a escrever – a queda da família para a literatura também está no domínio da vaidade, porque se habituou a coleccionar frases vergonhosas nos autores consagrados para provar que o liberalismo e, depois, a República, tinham maioritariamente produzido autores menores, incapazes de cumprir as regras da gramática e, ao mesmo tempo, produzir beleza.

Aos quarenta anos, quando o velho Doutor Homem, meu pai (já conformado com a minha inabilidade para o matrimónio ou, até, para o amor), decidiu considerar-me sócio do seu escritório de advocacia no Porto, começou a guerra em Angola e a Tia Benedita, já viúva, decretou que os russos tinham enviado o astronauta Iuri Gagarin ao espaço a fim de ameaçar a humanidade com o bolchevismo. Nessa altura, espremíamos a pasta de dentes pelo fundo, e as melhores navalhas de barba eram espanholas. O meu avô, administrador de quintas no Douro, adoeceu subitamente e morreu em paz num Verão cheio de japoneiras vermelhas.

Saiba o leitor que nada disto vem no livro – que é só vaidade. Tudo o resto se esconde.

Páginas de doutrina e crítica literária

Em matéria de leitura, os Homem sempre desconfiaram das virtudes literárias da poesia. Excepção feita, como já informei os leitores, ao meu avô paterno, administrador de quintas do Douro e confidente de Guerra Junqueiro em Barca d’Alva. No regresso das suas viagens pelos vales do Douro, o velho Doutor Homem, meu pai, interessava-se pelas notícias que incluíam menções ao autor de “O Melro”, proprietário da Quinta da Batoca, a quem acusava de ser autor de má poesia. Porém, nas suas estantes, os poetas ingleses e os versos de Sá de Miranda tinham um lugar garantido. Por formação e deformação, continuei a tradição da família, lendo os poeta necessários mas não os incluindo na prestação de cuidados à minha pobre educação sentimental, mais credora de desilusões do que de métrica e metonímias.

A minha sobrinha Maria Luísa pensa que sou uma alma penada sem sensibilidade e, por extensão, um machista empedernido que não dá ouvidos ao “lado mais afectuoso” das letras, o que não é verdade. Ela comove-se facilmente com poetas que desarrumam o dicionário e são considerados humanistas e homens de letras; quanto aos romancistas, tem as suas preferências por histórias familiares que eu li há muito nos romances populares ou nos folhetins de antanho. A literatura popular enchia as férias de Ponte de Lima e os areais de Moledo e Afife sem cerimónia e sem regras. Eram volumes que não ficariam bem na Biblioteca Geral da Universidade (refiro-me à de Coimbra), mas que ilustrariam qualquer época balnear – liam-se bem, da mesma forma que se digeriam bem as cataplanas de Vigo: tinham sabor, vinham ao gosto de todos e tinham marisco em abundância.

As senhoras que hoje escrevem romances de família são excelentes namoradeiras e conhecem a maquineta que comanda as emoções – um casamento desfeito, uma família desorganizada, vícios normais para a idade e interrogações chãs e acessíveis sobre ser adulto e padecer de apetites sexuais maiores do que permite a força humana.

Melhor do que isso fez a literatura popular de outros tempos, que nos ofereceu O Conde de Montecristo, A Ilha do Tesouro ou, bem vistas as coisas, alguns dos folhetins avulsos de Camilo, com a vantagem de serem bons em gramática e de não se levarem a sério no mais importante.

Diante do vastíssimo número de escritoras viciosas de hoje em dia, o velho Doutor Homem, meu pai, colocaria a hipótese de, por chalaça, chamar pela polícia de costumes, uma velharia já no seu tempo. Mas a intenção fica.

 

Um família conservadora e os casamentos de Verão

 

Quando, durante um almoço de domingo de há uns anos, a minha sobrinha Maria Luísa anunciou o seu terceiro casamento (que não chegou a realizar-se), houve um certo burburinho à mesa. O ruído extravagante de talheres e um súbito tossicar por parte de alguns dos meus irmãos, não se deveu ao anúncio do casamento propriamente dito – mas ao facto, ainda mais extravagante, de quase ninguém ter tomado conhecimento do segundo divórcio.

O assunto esgotou-se com alguma rapidez e não sobreviveu à sobremesa de leite-creme com framboesas espanholas, uma pequena intromissão de dona Elaine para interromper o embaraço familiar, com a travessa depositada na mesa para causar aquele efeito esperado: um aplauso comedido e comovido, semelhante ao que era provocado pela chegada do arroz de pato da Tia Henriqueta à vasta mesa do sobrado de Vila Praia de Âncora.

Os casamentos da família nunca tiveram grande história, ou porque nas nossas estantes existem demasiados livros de Camilo, ou porque o sentido da moralidade foi lentamente expurgado – pela repetição de episódios romanescos – ao longo dos anos, da tentação do escândalo.

Mas houve casamentos, sim. Assisti a uma lista infindável de bodas, sensatamente programadas para sábados caniculares dos Verões de Ponte de Lima, dos Arcos ou de Viana; sobrevivi à maior parte deles, tentando não me enganar nos nomes dos noivos e, em certas ocasiões, resistindo educadamente ao prolongamento das cerimónias, como um celibatário histórico.

A Tia Benedita era chamada a participar em quase todos; a sua presença conferia mais solenidade aos festejos, como se o facto de ela se sentar num dos lugares de honra fizesse supor que o almoço seria apresentado em loiça da Companhia das Índias.

O velho Doutor Homem, meu pai, aguardava pelo momento definitivo das fotografias de grupo – e ele sabia, sorridente, que se tratava de um espectáculo imperdível. Arrumados os convidados e os membros da família, os mais recentes ou aqueles que rescendiam à fundação da Monarquia, a Tia Benedita lançava um olhar severo, varrendo a composição com a sua frase do costume, em surdina: “Os apêndices para os seus lugares.” Queria ela dizer, habituada a separações e divórcios informais, que os sucessivos genros e noras se deviam colocar nas margens das fotografias para ser mais fácil recortá-los depois, em caso de “catástrofe”. E os “apêndices” lá iam, serenamente, obedientemente, a ocupar os segundos planos que podiam mais tarde ser, ou não, decapitados.

As coisas que ficam depois do fim do mundo

O velho Doutor Homem, meu pai, achava que não se devia contrariar o “espírito do tempo”. Ele conhecia a palavra “Zeitgeist”, mas não a usava; Dona Ester, minha mãe, prendia-o ao mundo das coisas terrenas – e o seu bando de filhos importunava-o o suficiente.

Recordo hoje o seu silêncio, passados tantos anos, disfarçado de dedicação e de alguma solenidade. Imagino-o embalado pelo Verão, distraído pelas coisas vulgares, incomodado pelos ruídos da família.

Talvez por isso, o Verão é a minha estação do ano: rodeado de adolescentes tardios e de sobrinhos que atravessam a idade madura sem abdicar da juventude, aprecio o fim do meu mundo. Depois de dobrar os oitenta, cada dia é um pedido de empréstimo ao destino e pergunto-me sobre o que restará depois de tudo desaparecer.

São enumerações no meio do caos, mas sem tristeza nem angústia: o sorriso de Dona Ester, debruçada sobre os toldos do areal de Moledo; o humor cáustico do velho Doutor Homem, meu pai, cruel e malévolo como se tivesse toda a eternidade para expiar os seus pecados e a sua ironia; o primeiro amor perdido; o primeiro livro que me conduziu ao amor sem futuro; os gestos de conformismo e de aparente tédio; o fingimento delicioso que esconde a devassidão e o desejo; o guarda-roupa inglês do velho Doutor Homem, meu pai, e os dois carros italianos do Tio Alberto, bibliófilo de São Pedro de Arcos; a ausência aparente da Tia Benedita quando a família sofria de deslizes democráticos; as longas conversas com Dra. Celina, destituídas de uma finalidade grave e alimentadas pelo prazer de amar Moledo e as suas memórias; o optimismo da minha sobrinha Maria Luísa e a sua crença na bondade de um mundo que nunca chegará a existir; um barco que atravessava as correntes do rio, diante de Caminha, e onde os meus irmãos riam com a leveza quase absurda do Verão; a primeira doença que a Dra. Teresa (a minha médica de Venade) assinalou no capítulo dos “males crónicos”; os livros que nunca emprestei e cuja leitura nunca recomendei por pura soberba; o arroz de pato da Tia Henriqueta; o arvoredo do casarão de Ponte de Lima, onde a família se recolhia uma vez por ano para visitar o retrato do senhor Dom Miguel, mantendo tradições que ninguém compreende. A lista é infindável. Tão infindável como o mundo que não termina para já. Esse é o nosso prenúncio de felicidade: as coisas que não são para já, que podem aguardar até que o Livro da Vida seja tocado por uma penumbra de despedida. Ou de delicadeza.

Declaração de amor ao clima de Moledo

As multidões estão preocupadas e compreendo a natureza da apreensão: que o Verão está frio ou, pelo menos, que não atinge as proporções de outros anos, aqueles que a minha sobrinha Maria Luísa apontava como prova de que o aquecimento global iria transformar-nos em habitantes do deserto. As neblinas matinais resolveram, este ano, prolongar a sua existência até ao final do dia, quando se renovam para ameaçar a manhã seguinte; o manto de penumbra que paira habitualmente sobre os picos da Serra d’Arga, como uma nuvem densa e calorífera, está durante este Verão diluída entre correntes de ar que descem e sobem sobre a foz do Minho, arejando o litoral.

No Verão gostamos de calor, para protestarmos pelo excesso. No Inverno apreciamos o frio, para nos queixarmos da inclemência. O velho Doutor Homem, meu pai, achava isto o resumo de uma sensibilidade, a legenda da identidade nacional: a insatisfação diante dos Elementos, à falta de – em dias certos – culpar a própria pátria ou, em horas mais absurdas, de os portugueses se culparem a si próprios.

A mim parece-me excelente esta temperatura. Mas eu sou um velho; habituo-me com resignação às oscilações do clima tal como à sua eventual duração, às suas birras e aos seus maus modos. Moledo é, por isso, a prova absoluta da insatisfação dos portugueses, sobretudo daqueles que ainda não entenderam as subtilezas do clima e rumam para o Algarve, voltando as costas à rebelde doçura do iodo minhoto, à sua blandícia matinal, às suas recordações de Verões de outrora.

Pelo contrário, as novas gerações (que abrangem as pessoas abaixo dos cinquenta e acima dos vinte), criadas na paixão pelos trópicos e pelo bronzeado fácil, onde as noites não sossegam e os dias são a antecâmara dos desertos africanos, tremem de indignação diante desta beleza incompreensível pelos seus padrões. Ao contrário do resto da minha família, que protesta contra a ameaça de frios árcticos em pleno mês de Agosto, só eu e Maria Luísa – por razões diferentes – nos declaramos satisfeitos com as graças recebidas. Eu, porque sou um conservador que tem mais em que pensar; Maria Luísa porque gosta de estar “do contra” e acha uma razoável consolação no facto de a Natureza atraiçoar as burguesias que gostavam de ver o Algarve estacionado às portas de Vila Praia de Âncora. Ou seja: eu, porque aproveito para elogiar o clima de Moledo; Maria Luísa, porque encontrou uma forma de esquecer a ameaça do aquecimento global. Somos uns hipócritas.

Rejuvenescer é ganhar uns anos mais

Ao dobrar os quarenta anos e entrar, por assim dizer, na “idade interessante”, a minha sobrinha Maria Luísa confessou-me que “estava a envelhecer”. Não propriamente nestes termos; tratava-se, antes da descoberta de que os relógios do tempo e da idade tinham coincidido num ponto da sua vida. Expliquei que Honoré de Balzac não era um psicólogo nem um sábio – e que a ideia de uma “mulher de trinta anos” com os atributos de Louise d’Aiglemont tinha hoje correspondência na “mulher de quarenta anos” e, mesmo, na “mulher de cinquenta anos”. O sorriso relativamente triste de Maria Luísa respondeu-me por vias travessas, como se fosse uma espécie de confirmação da provável generosidade de um tio ancião – mas que isso não significava apenas um gesto de generosidade ou de cavalheirismo, e que a realidade era bem mais crua.

Louise d’Aiglemont nunca foi tema de conversa na família. O adultério, como o erotismo e outras matérias, não chegava à mesa da sala de jantar. Mas Louise d’Aiglemont permanecia na minha memória, e na minha prédica, como um exemplo do tempo que passa e perdura com a sua beleza, mais do que os seus pecados, que não me interessaram nunca e eram apenas um perfume no cetim falso de Balzac, impiedoso e cru.

Mas o enigma permanece: a idade de amadurecer, primeiro; a idade de envelhecer, depois. Por mim, não encontro matéria definitiva: com a idade, passei a desobedecer às obrigações dos velhos. Ao contrário dos lugares comuns sobre gerontologia, não passei a gostar mais de sopa nem a dormir menos; o meu gosto pela preguiça aumentou, bem como o prazer de comer coisas proibidas e de imaginar vidas pretéritas que não tive. Também não me tornei mais conformista, nem mais austero, nem mais sábio. Quis o destino, como afiançam sobretudo as minhas irmãs (que temem o envelhecimento), que eu tivesse nascido já no final da minha adolescência, poupando-me a infortúnios como o acne, a depressão ou a rebeldia sem justificação. Encarei a “vida adulta” como uma etapa inevitável até chegar à minha vida neste eremitério de Moledo, onde vivo diante do mais belo mar português e dos pinhais cujo perfume se confunde com a própria doçura do Verão. E aqui estou. Sempre esperei por esta idade. Se o Tio Alberto não tivesse morrido, iria com ele até às margens do seu Cáspio, sem destino ou obrigação.

Maria Luísa olhou-me como se tivesse descoberto um monstro. A eleitora esquerdista da família nunca tinha suspeitado que, sob a pele de um conservador da idade do Titanic, havia um aventureiro natural e envergonhado. Suspeito que rejuvenesceu sem medo da idade.

Um breve elogio à hipocrisia

Uma das tendências dos “tempos modernos” é a tendência para, em determinado momento, condenar a hipocrisia. O velho Doutor Homem, meu pai, recomendava que se usasse moderadamente uma certa hipocrisia – queria ele dizer, com o seu tom de doce sátiro minhoto e portuense, que algum gosto pela dissimulação era uma vantagem enorme para a vida corrente, tal como tinha sido para a grande vida, ou seja, para os grandes momentos da História humana.

A minha sobrinha Maria Luísa acha que “os portugueses são hipócritas”. Tento, com paciência e alguns tiques nervosos, explicar que não existe essa categoria de gente, “os portugueses”. A Tia Benedita, por exemplo, a velha matriarca ultramontana dos Homem, nunca foi hipócrita: ela era verdadeiramente reaccionária, gostava dos sermões da Semana Santa, julgava mesmo que Afonso Costa não tinha morrido e acreditava que o mundo se encaminhava para a catástrofe graças ao bolchevismo, à Rússia, à vida sexual das novas gerações e à falta de um monarca poderoso e severo, como ela – enganada – julgava que teria sido o senhor Dom Miguel. Esta sinceridade era desarmante e não tinha a mais pequena nódoa de hipocrisia.

Outros portugueses, como por exemplo o Tio Alberto, gastrónomo e bibliófilo de São Pedro de Arcos, também não era hipócrita: não via salvação – nem para a sua vida amorosa – dentro das fronteiras da pátria, o que o levava a atravessar os Pirenéus sempre que via abertura no seu calendário particular.

Mas nem todos “os portugueses” tinham essa liberdade infame e felizarda para viver de acordo ou com as suas crenças ou com as suas manias. Por isso, o velho Doutor Homem, meu pai, achava que era preciso encontrar maneira de ludibriar o senso comum, aquela espécie de obrigação de viver as nossas vidas de acordo com a vontade dos outros. Maria Luísa confunde a “hipocrisia” com a protecção da vida de cada um e atribui as culpas à “moral judaico-cristã”. Por mim, não vejo nada quase tão delicioso como essa “hipocrisia”: comportar-se bem e desejar fazer o seu contrário é o sinal de uma saudável resistência à banalidade. O Tio Alberto era um mestre nessa matéria, uma espécie de agente duplo, ou triplo, dos nossos pobres costumes da época. Imagino que, quando regressava das suas longas e discretas viagens, ajeitava o nó da gravata (que só usava amiúde) à passagem pelo posto da Guarda Fiscal de Tui, mesmo à passagem pelo rio Minho. Chegava a casa e, como um devasso, reconstituía as prioridades, como um Velázquez de Ponte de Lima.

Histórias de amor, como de costume

A minha sobrinha Maria Luísa diz que o amor são, sobretudo, as grandes histórias que vêm nos livros ou que são contadas pelo cinema – a vida real estaria condenada a estragar o principal, ou seja, a imprevisibilidade e “os estados de paixão”.

O amor é uma recordação perigosa. Quando Dona Ester, minha mãe, decidiu poupar-me a um desses “estados de paixão”, reenviando-me para Copacabana e para um confortável quarto no então Hotel Glória, eu ainda não o sabia. Apenas suspeitava, terminando a juventude, que me despedia da inocência e dos entusiasmos do coração. Munido de roupa de Verão e de uma gabardina a despropósito, o Rio de Janeiro da época, em meados dos anos cinquenta, recebeu-me como a um desprotegido, fornecendo-me os meios para esquecer os males de amor. Dona Ester não acreditava neles; pelo menos, sempre agiu como se se pudessem curar com iodo, passeios pela praia e trabalho regular. Tinha razão. O problema – sessenta anos depois o pormenor não tem muita importância – é que se pode ficar curado em definitivo.

Nessa altura eu tinha passado a barreira dos vinte e cinco anos, lia revistas inglesas, frequentava os bailes e julgava-me um dândi (categoria que, a esta distância, ficou reservada ao velho Doutor Homem, meu pai). Não entendia nada do mundo. Passados sessenta anos, ao recordar os parcos álbuns dessa memória, continuava sem entender nada do mundo – mas, na verdade, já tinha desistido de o fazer.

Apaixonei-me no Brasil. Foi breve, como todas as paixões. Mesmo assim, tive os meus momentos: a chuva de Copacabana (estávamos em Setembro, no ocaso do Verão local) pareceu-me um nuvem de pérolas, as suas ruas um passeio pela glória da juventude da época – e as despedidas, uma dor lancinante que só haveria de desaparecer com o tempo e a distância que eu também nunca haveria de entender.

Mais tarde, Dona Ester, minha mãe, quis saber pormenores. Não havia. Tudo tinha desaparecido. Ela recriminar-me-ia até ao final da sua vida, instando-me a regressar ao Brasil e ao Rio de Janeiro, em busca dessa mulher que, por três longos meses de felicidade, tinha tornado a minha vida mais leve, mais preparada para o Inverno e mais cheia de memórias. Não fui. Nunca fui. O velho Doutor Homem, meu pai, olhava-me por vezes com uma espécie de incompreensão que tentava minorar com o seu humor despropositado e um bom senso que nos aproximava. A história das nossas vidas é sempre, mais uma vez, como de costume, uma história de amor que não se cumpriu. Ou que podia cumprir-se.

A Tia Benedita tinha alguma razão

O velho Doutor Homem, meu pai, considerava com alguma magnanimidade que “o ideal era uma pessoa não se incomodar”. Este princípio, como já tive oportunidade de explicar aos leitores mais pacientes, norteou a família durante muitos anos, como uma tribo relegada para a sua reserva entre as florestas. A imagem não é muito conforme com a vaidade dos Homem, mas deve dar-se-lhe um desconto: afastados da política, que achavam vulgar e destinada aos funcionários da República e aos sobreviventes do constitucionalismo, os nossos tios e avós arranjaram maneira de sobreviver sem se notar. Isso exigiu deles, em doses desiguais, inteligência, astúcia e hipocrisia. A inteligência é um factor demasiado obscuro nesta equação e dispenso-me de exaltá-la para não exacerbar a vaidade tradicional da família; a astúcia permitiu-lhes atravessar, incólumes, século e meio de história sem serem manchados com o seu passado; quando o passado desapareceu, com a sua tralha e as suas honras, restou a hipocrisia, um ingrediente que se deve administrar com a cautela de um cirurgião – só isso explica, como contei na semana passada, que o retrato do Senhor D. Miguel nunca tenha sido retirado do velho casarão de Ponte de Lima, onde todos os verões o encontramos intacto e restaurado como uma relíquia que se guarda por hábito.

Mas não é assim. O silêncio de outrora desvaneceu-se com a chegada da democracia, onde todos podiam falar, até velhos miguelistas desfasados do seu tempo – e regressou com a sua idade madura, onde a opinião da maioria é que conta, calando miguelistas distraídos e receosos. Do promontório de Moledo e das colinas de São Pedro dos Arcos a família assistiu aos desvarios do século passado e à agonia do início do milénio; desconfiou, como era seu costume; desiludiu-se, como lhe competia; conspirou, como o seu heroísmo discreto aconselhava – mas sempre se deu como derrotada na contabilidade final. Este mundo não estava previsto nem pela Tia Benedita, a matriarca ultramontana, nem pelo Tio Alberto, a consciência cosmopolita dos Homem, nem pelo velho Doutor Homem, meu pai, o conservador inglês que por acidente viveu no Porto toda a vida, ansiando por um país com florestas protegidas, jornais educados, escritores atrevidos e governos discretos. Tudo foi ao contrário: as florestas arderam consideravelmente; os jornais deixaram de ser lidos; os escritores transformaram-se em conformistas alfabetizados; e, finalmente, os governos destruíram o país com ruído e indigência.

No fundo, a Tia Benedita tinha alguma razão.

A romagem a Ponte de Lima

A melancolia do velho casarão de Ponte de Lima não vem dos seus granitos seculares nem dos corredores por onde entrava aquela luz ténue, filtrada por reposteiros que impediam a entrada do Verão pleno, total e do seu calor minhoto. Bem vistas as coisas, sou o único testemunho desse tempo que terminou sem glória e sem arrebatamento, discretamente, num fim anunciado pelo andamento do mundo.

O retrato de Dom Miguel poderia ser outra das testemunhas da grandeza e orgulho da família – periodicamente cuidado em Braga (ironia das ironias: é para lá transportado, de dois em dois anos, pela minha sobrinha Maria Luísa, a esquerdista da família). Mas a crueldade da política arrastou-o nos últimos duzentos anos apenas nas nossas recordações e numa fidelidade rara e incompreensível, só possível no Minho e numa família que aprendeu o caminho das travessias do deserto e que mantém ali dependurado o “mais belo dos príncipes”, como sustentava a Tia Benedita – um excesso que se desculpa numa senhora que se recusava a viajar até Tuy. Os Homem, orgulhosos das suas alianças, não o esqueceram nem deixaram de o honrar.

Por isso, em Junho a família prepara a sua romaria anual até Ponte de Lima, depois de ter achado – há uns anos – que o calor de Agosto era demasiado inclemente para suportar a peregrinação. Trata-se de uma visita anual a esse velho casarão de granitos e heras escuras, onde os Homem de outros séculos viveram períodos de felicidade e irrelevância, ignorando a imprensa, a internet, o défice, a educação sexual nas escolas e o constitucionalismo. Vivi parte desses tempos, nos Verões da infância, entre os seus muros que tombaram e foram reerguidos, e tombaram de novo, e de novo foram levantados. Foi esta a nossa vida: assistir à queda, reerguer ruínas, passar discretamente, ser grato.

O preço desse heroísmo discreto foi elevado, por vezes. Um primo afastado decidiu, um dia, para vingar uma afronta à pátria, anunciar – na longínqua Macau – a invasão da China. Fê-lo à revelia de avisos sensatos e da ausência do governador; a China não moveu uma pálpebra: contratou uma divisão de bandidos e dinamitou o navio que, a meio do Rio das Pérolas, se preparava ainda para içar o estandarte. Ainda hoje se fala nos “miguelistas de Macau” como de um grupo de visionários improváveis, para não dizer mais. É em nome dos visionários improváveis que, todos os anos, abrimos os reposteiros de Ponte de Lima e regressamos ao casarão. A luz entra, ilumina o passado. 

Regresso ao iodo, uma vida depois

Dizem-me as pessoas informadas que este será o Verão mais frio dos últimos tempos. A notícia deixa-me preocupado porque já atravessámos um Inverno penoso e longo; mas, por outro lado, há uma espécie de vingança de Moledo sobre o resto do mundo, pelo menos desde que me lembro dos rituais balneares de que até Dona Ester, minha mãe, desdenhava com método e humor: as camisolas de algodão, as mantas, o guarda-vento e o casaquinho de lã para o fim da tarde, protecções indispensáveis para uma época de praia na altura em que os trópicos eram um mundo desconhecido e distante, cheio de febre amarela e de aventureiros infelizes.

De modo que Moledo ocupou o espaço daquele humor cruel, cheio de sarcasmo: o areal diante da Ínsua e da ondulação mais azul do nosso litoral era um promontório eternamente concedido ao frio e às “neblinas matinais”. A bravura do jovem que nos recebe no restaurante Ancoradouro é, assim, o resumo de uma espécie de luta contra o destino: de Inverno ou de Verão, ele percorre todas as manhãs esse areal inóspito, colocando-se ao lado das velhas gerações resistentes a quem nunca assustaram o frio, a morrinha galega empurrada pelo vento ou a ventania atlântica. A minha sobrinha Maria Luísa, ultrapassada aquela idade cativada pelas coisas fáceis, concorda que “o bronzeado dos rapazes” é mais firme e profundo por estas paragens – e arrasta para a areia parte da sua biblioteca balnear, argumentando que o tempero de bronzeador, areia, salitre e calor do meio-dia é um bálsamo para as leituras de Verão e para o que resta de romantismo no Minho de hoje.

Como concordo com a ideia, Maria Luísa acusa-me de ser um sátiro e um devasso, por considerar ali segundas intenções. Desculpo-me dizendo que, dobrados os últimos anos da minha vida, vivo há décadas de segundas intenções.

O domingo passado, por exemplo, arrastou-nos para considerações muito poéticas sobre a existência, ou não, de iodo – uma invenção útil para os fãs de Moledo. Dona Ester, minha mãe, mencionava-o como uma crente fidelíssima. O velho Doutor Homem, meu pai, considerava-o de grande utilidade, desde que lhe retirasse de casa, em pleno Verão, um bando de adolescentes barulhentos. A história repete-se ao longo dos anos e das gerações.

Este ano, com um prometido Verão frio, imagino todo o mundo balnear como uma réplica de Moledo, procurando iodo e amenidades à beira do mar, protegendo-se com camisolas e sensatez. É uma vitória sentida e merecida.

As estradas florestais da Serra d’Arga

É pouco provável que o país esteja a correr, a passos largos, para a desgraça – e sobre isso há um argumento que uso com frequência muito regular: ao longo dos últimos sessenta anos, ouvi demasiadas vezes essa ameaça, de modo que a sua repetição a tornou tão vaga como a promessa da Primavera de Moledo.

O apocalipse da pátria foi anunciado sem cessar pela Tia Benedita, a matriarca “ultramontana” da família: ela acreditava que, a partir do momento em que o general Azevedo Lemos se juntou ao Senhor Dom Miguel a caminho do exílio, em Alvalade do Alentejo, e depois o acompanhou a Sines, e com ele partiu para Génova, o nosso fim estava apenas adiado. A Tia Benedita suportou pesadelos mais trágicos do que os nossos: temeu a chegada de Afonso Costa para fuzilar os padres e roubar as igrejas; viu chegar a minissaia em fotografias do ‘Paris Match’ – que depois lhe era cuidadosamente surripiada e trocada pela ‘Jours de France’; atravessou a I a II Guerra, o racionamento, os exilados de Paiva Couceiro, a debandada ideológica da família (houve um primo que foi subsecretário do dr. Salazar, o que a penalizou bastante), os primeiros divórcios no Minho – e a lista é infindável. Mesmo assim, o apocalipse não chegou.

O velho Doutor Homem, meu pai, tinha uma opinião reservada acerca do rumo do país; em ocasiões de crise limitava-se a considerar o carácter inóspito da vida em geral, como se achasse estranho que o apocalipse, a chegar, tivesse começado por nós, de entre uma lista de outros países mais talhados para o efeito. Este argumento era definitivo. E quando a Europa atravessava o pós-guerra, a sua Ponte de Lima natal registava, no Verão de 1949, a chegada do primeiro Alfa Romeo 2500 Cabriolet, de seis cilindros, vermelho reluzente, um modelo de 1947 que o velho Doutor Homem, meu pai, de bom grado trocaria por um Aston Martin, como se as estradas florestais da Serra d’Arga fossem as pistas de Le Mans.

O Tio Alberto, seu irmão, e que viria a ser o eremita, bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, comemorou o seu primeiro não-casamento (foram vários) com a aquisição do primeiro desses bólides. A expressão “não-casamento” tornou-se um clássico na família: tratava-se de um namoro que, chegado à fase decisiva do contrato de matrimónio, o Tio Alberto descartava com elegância, até se ter enamorado, depois, por uma princesa do Cáspio que lhe prometeu paciência e lhe provou um amor insensato e raro. Nenhum deles acreditava na desgraça.

Amamos o país mas queremos outro

A minha sobrinha Maria Luísa declarou, no domingo passado, ter “saudades do Verão”. Entendo-a. A meteorologia e o fluxo das estações do ano não tem apenas a ver com a meteorologia e o fluxo das estações do ano. O Prof. Vitorino Nemésio, que em casa sempre competia em popularidade com o Dr. Anthímio de Azevedo em matéria de televisão, era o único português que, nos casos mais dramáticos, não precisava de falar do tempo para quebrar o silêncio. As suas palestras de televisão eram seguidas com reverência e solenidade pelo velho Doutor Homem, meu pai – que, a meio daqueles vinte minutos de dedicação ao ecrã, resmungava qualquer coisa sobre ter-se perdido no meio das frases do poeta açoriano, um dos poucos autores do seu século que merecia leitura e espaço na estante. O Prof. Nemésio não tinha saudades do Verão, como a minha sobrinha, mas no ‘Mau Tempo no Canal’ aprendia-se bastante sobre a natureza das estações do ano, de tal modo são descritas as transições entre as tempestades e as bonanças, os céus negros e os crepúsculos suaves, o calor do Estio e o primeiro anúncio de Outono.

A família nunca teve uma grande ligação com as províncias adjacentes, como na altura chamávamos às ilhas atlânticas. Apenas a Madeira entrou nos nossos roteiros devido a uma coincidência entre a visita de Winston Churchill e uma minha breve passagem pelo Funchal, naquele Verão suave, temperado de humidade e de neblinas matinais.

No entanto, não era sobre o fluxo das estações do ano que falava Maria Luísa, mas sobre a vida inteira. O Inverno vai longo e o país respira com dificuldade, queria ela dizer – mas não disse. Um pudor doce e amargo impede-nos de ver mais longe do que o próprio país, uma velharia que atravessou crises profundas e as ultrapassou sem a ajuda dos comentadores da televisão. Amamos o país, mas queremos outro; temos pouca paciência e não sabemos esperar.

Maria Luísa tem saudades do Verão da mesma forma que eu lembro o velho salão de jantar do Hotel Reid’s, no Funchal, voltado para o Atlântico. Onde ela imagina um aroma de bronzeador nos areais de Moledo, eu recordo o perfume de uma juventude feliz. A Dra. Celina passou ontem a buscar-nos para um passeio até à beira do mar. Fomos os três sentar-nos diante daquela luz do entardecer, tagarelando sobre as casas que estão para alugar em Moledo – e eu compreendi o desejo de Verão e do calor de Junho. Estávamos, todos, a precisar daquela beleza num país zangado consigo mesmo.

Rodrigo da Fonseca e o gosto pela derrota

Periodicamente, quando estava disponível para ministrar uma lição de história sobre o seu século, o velho administrador de quintas no Douro, meu avô, mencionava o nome de Rodrigo da Fonseca como o seu “falso cartista”, um subterfúgio para esconder a mínima capitulação da família diante do constitucionalismo. Rodrigo da Fonseca foi o cartógrafo e o artífice minucioso da Regeneração, a que Fontes Pereira de Melo emprestou o combustível e as linhas férreas.

O meu avô era um entusiasta das linhas férreas e conhecia todos os desníveis, curvas, pontes, túneis, apeadeiros e afluentes ao longo do Douro – como se, em vez de administrador, contabilista e conselheiro íntimo (coisas que se misturavam nesses anos providenciais para o vinho do Porto) dos proprietários das quintas do vale, de Resende a Barca d’Alva, tivesse sido um engenheiro visionário que presidira e, depois, vigiara a colocação de dinamite sobre as falésias onde depois assentaram os carris da sua linha preferida.

Já por várias vezes mencionei que a família aguardava ansiosamente pelo seu regresso das viagens pelo Douro, esperando-o em São Bento para receber cabazes de fruta, perdizes e alguma indiscrição do país vinhateiro. Mas o avô era discreto, resguardado e cioso dos seus clientes e confidentes. Durante essas viagens ele era um hóspede que venerava os anfitriões, ingleses sobretudo, a quem tratava como cavalheiros de negócios do Surrey – e com quem depois reiniciava torrentes desorganizadas de epistolografia. Mas o que ele transportava consigo, e que a família não podia partilhar, era a paisagem que o comovia e o deixava, por vários dias, tocado por uma doçura de geógrafo em penitência.

Nessas alturas, falava de Rodrigo da Fonseca, o seu “falso cartista”. Rodrigo ajudara a combater os exércitos a que a família emprestara o seu sangue, os seus soldados e, menos, o seu dinheiro (com o argumento de que não queria pagar a genebra a capitães de milícias do Minho que depois apareceriam nas páginas de Camilo).

Mas cedo Rodrigo deixou de ser – se alguma vez o foi – o setembrista revolucionário da sua idade juvenil. Aos 30 anos estava desiludido. Fugiu dos radicais desde essa altura e, por isso, o meu avô o lembrava como “falso cartista”, tal como tratou António Granjo como o “falso republicano”. Queria ele dizer que o Dr. Granjo era republicano mas que se podia falar com ele amiúde (ele recebia-o em São Bento quando, no Verão, vinha a termas nas montanhas da sua terra). A família teve sempre uma predilecção por derrotados.

O livro de memórias que nunca se escreve

A minha sobrinha Maria Luísa supõe vagamente que eu devia “escrever as minhas memórias”. Suponho que o faz a pedido do Dr. Boavida que, duas vezes por ano (no Natal e quando me envia o relatório dos meus proventos como modestíssimo autor da sua casa editora), menciona essa ideia suicida. Tento desvalorizar a distinção que ela significa para a vaidade de um velho tonto e doente coronário, mas Maria Luísa volta à carga sempre que vem a talhe de foice alguém pronunciar-se sobre livros de memórias – e anunciou mesmo, no almoço de domingo passado, enquanto a família repousava de um tormentoso cenário de trovoada, que “o tio António está a escrever um livro”.

Notícias desta natureza (sobretudo quando são anunciadas entre o 25 de Abril e o 1.ºde Maio) submetem a família a uma enormíssima pressão, e não apenas por ela ser confrontada com o impudor de um dos seus – no fundo, o pavor causado pela utilização da palavra “memórias” transporta a família ao século XIX, onde ficou a maior parte do seu juízo. Como demorei mais do que o quarto de hora da sobremesa a desmentir a sugestão, o pânico alastrou até ao momento em que alguém (um dos meus irmãos) mencionou  “a vida privada”. A invocação do sacrossantotabu significou que se tratava de pânico verdadeiro.

A “vida privada” de antigamente era justamente considerada privada porque se passava paredes dentro. As casas de família, é certo, albergavam segredos lamentáveis – mas, ou tinham um Camilo à altura como relator (e o romance encarregava-se delas, vingativo e cheio de insinuações), ou limitavam-se a circular nas ruas da maledicência. Era uma vantagem sobre os dias de hoje.

Os Homem tanto prezaram a vida privada que transformaram os almoços de domingo numa arena de maledicência, cujo nível aumenta quando chega o calor do Verão. É uma tradição antiga. O meu avô, administrador de quintas do Douro (e de algumas propriedades no Minho), por exemplo, era aguardado com alegria sincera das suas viagens pelos vales e montanhas onde ia tratar da contabilidade e das contas bancárias dos seus clientes – não pelos cabazes de fruta e pelas perdizes que trazia de Barca d’Alva (o poeta Guerra Junqueiro era seu anfitrião na fronteira do Douro com Espanha), mas pelas notícias que transportava como repórter da vida nas províncias.

Feita a escusa, proclamada a palavra de honra de que nunca escreveria “as memórias”, Maria Luísa piscou-me o olho no fim do almoço: “O tio fê-los sofrer.” Toda a família me quer de boa saúde.

A recordação que esperamos do futuro

O único contacto entre o velho Doutor Homem, meu pai, e o delicado mundo do futebol, realizou-se através da leitura do ensaio ‘Some Aspects of the Offside Rule’ (‘Alguns Aspectos da Regra do Fora de Jogo’), de Michael Wharton, escrito para o anuário da federação britânica de futebol na longínqua década de quarenta.

O seu conservadorismo, puramente inglês, cheio de humor e de absurdo, era o produto de leituras agradáveis ao fim de semana, rondando assuntos tão inúteis como a economia, a jardinagem, a história da I Guerra ou da ferrovia europeia – nenhum deles de grande utilidade entre nós, explicava ele, porque os portugueses são “poupados e de grande morigeração quando se trata de coisas do espírito”. Compreendo-o bem a esta distância.

Michael Wharton era um dos seus autores predilectos e lia a sua crónica (assinada por Peter Simple) todos os sábados no ‘Telegraph’, mesmo quando aquela era publicada noutro dia da semana. Tal como ele, desconfiava de quase tudo o que tinha acontecido durante o seu tempo de vida – o jazz (exceptuando, suponho, o trompete e a orquestra de Coleman Hawkins), a arte abstracta, a televisão e as obras de Fernando Namora. Tinha razão no essencial, se bem que eu nunca tivesse sofrido a experiência devastadora e inquietante de ler romances passados em Coimbra, onde certa percentagem da família passou agruras impossíveis de descrever (fingindo estudar direito e coleccionar anotações do dr. Paulo Merêa), ou descrevendo a dificuldade de ser médico, ou com mais do que três adjectivos por frase. O último romance moderno que o velho Doutor Homem, meu pai, teve a impressão de ter lido (Aquilino Ribeiro não conta porque sempre foi um autor do século XVI), foi um volume amarelecido, A Garça e a Serpente, oferecido e dedicado pelo dr. Francisco Costa, autor que os leitores de hoje desconhecem com o mesmo orgulho com que ignoram as éclogas de Rodrigues Lobo. Em vão tentei interessá-lo pela leitura de algumas páginas de Dona Agustina, mas a sua resistência estava fortalecida pela más experiências com outros autores que viveram depois de W.B. Yeats, o seu limite temporal.

A minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família, não compreende como é possível ser-se contra o progresso e a modernidade. Tento explicar, com uma paciência de barítono a treinar acordes, que a maior parte dos progressos do último século nos deixou deserdados da felicidade. “E o que é a felicidade?”, pergunta ela. Recordação, só recordação. É isso que esperamos do futuro.

Lembranças familiares de um Outono fatídico

O velho Doutor Homem, meu pai, morreu um ano antes de Mrs. Thatcher ter chegado a líder dos conservadores ingleses. Nesses anos, ninguém em Portugal queria ser “conservador” – e mesmo antigos admiradores do dr. Salazar juravam a pés juntos que o antigo lente de Coimbra era, “à sua maneira”, “um amante do progresso”. Ser “conservador” constituía, na cartilha revolucionária, nas missas de Vila Praia de Âncora, nos jornais de direita e mesmo nos discursos moderados do Tio Henrique – antigo militar dos sertões de África –, um pecado quase tão mortal como tentar atingir mortalmente, com arco e flecha, um bondoso e respeitador membro da família.

Pelo contrário, o velho Doutor Homem, meu pai, sempre se reclamou de uma obsessão “conservadora-liberal”, em que a extensão “liberal” não era bem vista por parte de uma família que não esquecera a humilhação de Évora Monte e que continuava a guardar, no casarão de Ponte de Lima, uma cópia do retrato do senhor Dom Miguel. Mas o velho causídico era um homem não apenas tolerante mas, também, paciente com um país que albergava cerca de oito milhões de “progressistas” preparados ou para tomar o Palácio de Inverno, à maneira russa, ou para iniciar a longa marcha revolucionária, de inspiração oriental: finalmente, anunciou apenas que iria aguardar o regresso do bom-senso à pátria, coisa que nunca pôde presenciar em toda a plenitude.

Mesmo assim, a revolução nunca o incomodou  – limitou-se a declarar o Dr. Palma Carlos um bonacheirão inigualável e com poucas leituras de Disraeli, e a registar o general Spínola no grupo dos personagens condenados à derrota por viverem (como se comprovou) noutro mundo. As suas derradeiras semanas passaram com uma serenidade quase melancólica, entrando num Outono com aroma de catástrofe e evitando ver televisão a toda e qualquer hora, com o argumento de que só o interessava a previsão meteorológica para o dia seguinte.

Na verdade, o velho Doutor Homem, meu pai, foi o mais virtuoso dos derrotados. Depois de ter atravessado o regime do dr. Salazar (que vituperava) e amparado os resignados da República (eram conhecidas na família as suas viagens à Corunha para visitar o exílio do dr. Cunha Leal), nem por isso fez planos para a sua obsessão “conservadora-liberal”. Primeiro, porque suspeitava desse fatídico Outono; depois, porque nunca deixou de suspeitar do seu país, que ele achava mais talhado para operetas servidas nos teatros de província. Não, não era arrogante. Limitava-se a ser o que foi.

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