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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Amamos o país mas queremos outro

A minha sobrinha Maria Luísa declarou, no domingo passado, ter “saudades do Verão”. Entendo-a. A meteorologia e o fluxo das estações do ano não tem apenas a ver com a meteorologia e o fluxo das estações do ano. O Prof. Vitorino Nemésio, que em casa sempre competia em popularidade com o Dr. Anthímio de Azevedo em matéria de televisão, era o único português que, nos casos mais dramáticos, não precisava de falar do tempo para quebrar o silêncio. As suas palestras de televisão eram seguidas com reverência e solenidade pelo velho Doutor Homem, meu pai – que, a meio daqueles vinte minutos de dedicação ao ecrã, resmungava qualquer coisa sobre ter-se perdido no meio das frases do poeta açoriano, um dos poucos autores do seu século que merecia leitura e espaço na estante. O Prof. Nemésio não tinha saudades do Verão, como a minha sobrinha, mas no ‘Mau Tempo no Canal’ aprendia-se bastante sobre a natureza das estações do ano, de tal modo são descritas as transições entre as tempestades e as bonanças, os céus negros e os crepúsculos suaves, o calor do Estio e o primeiro anúncio de Outono.

A família nunca teve uma grande ligação com as províncias adjacentes, como na altura chamávamos às ilhas atlânticas. Apenas a Madeira entrou nos nossos roteiros devido a uma coincidência entre a visita de Winston Churchill e uma minha breve passagem pelo Funchal, naquele Verão suave, temperado de humidade e de neblinas matinais.

No entanto, não era sobre o fluxo das estações do ano que falava Maria Luísa, mas sobre a vida inteira. O Inverno vai longo e o país respira com dificuldade, queria ela dizer – mas não disse. Um pudor doce e amargo impede-nos de ver mais longe do que o próprio país, uma velharia que atravessou crises profundas e as ultrapassou sem a ajuda dos comentadores da televisão. Amamos o país, mas queremos outro; temos pouca paciência e não sabemos esperar.

Maria Luísa tem saudades do Verão da mesma forma que eu lembro o velho salão de jantar do Hotel Reid’s, no Funchal, voltado para o Atlântico. Onde ela imagina um aroma de bronzeador nos areais de Moledo, eu recordo o perfume de uma juventude feliz. A Dra. Celina passou ontem a buscar-nos para um passeio até à beira do mar. Fomos os três sentar-nos diante daquela luz do entardecer, tagarelando sobre as casas que estão para alugar em Moledo – e eu compreendi o desejo de Verão e do calor de Junho. Estávamos, todos, a precisar daquela beleza num país zangado consigo mesmo.

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