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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

As estradas florestais da Serra d’Arga

É pouco provável que o país esteja a correr, a passos largos, para a desgraça – e sobre isso há um argumento que uso com frequência muito regular: ao longo dos últimos sessenta anos, ouvi demasiadas vezes essa ameaça, de modo que a sua repetição a tornou tão vaga como a promessa da Primavera de Moledo.

O apocalipse da pátria foi anunciado sem cessar pela Tia Benedita, a matriarca “ultramontana” da família: ela acreditava que, a partir do momento em que o general Azevedo Lemos se juntou ao Senhor Dom Miguel a caminho do exílio, em Alvalade do Alentejo, e depois o acompanhou a Sines, e com ele partiu para Génova, o nosso fim estava apenas adiado. A Tia Benedita suportou pesadelos mais trágicos do que os nossos: temeu a chegada de Afonso Costa para fuzilar os padres e roubar as igrejas; viu chegar a minissaia em fotografias do ‘Paris Match’ – que depois lhe era cuidadosamente surripiada e trocada pela ‘Jours de France’; atravessou a I a II Guerra, o racionamento, os exilados de Paiva Couceiro, a debandada ideológica da família (houve um primo que foi subsecretário do dr. Salazar, o que a penalizou bastante), os primeiros divórcios no Minho – e a lista é infindável. Mesmo assim, o apocalipse não chegou.

O velho Doutor Homem, meu pai, tinha uma opinião reservada acerca do rumo do país; em ocasiões de crise limitava-se a considerar o carácter inóspito da vida em geral, como se achasse estranho que o apocalipse, a chegar, tivesse começado por nós, de entre uma lista de outros países mais talhados para o efeito. Este argumento era definitivo. E quando a Europa atravessava o pós-guerra, a sua Ponte de Lima natal registava, no Verão de 1949, a chegada do primeiro Alfa Romeo 2500 Cabriolet, de seis cilindros, vermelho reluzente, um modelo de 1947 que o velho Doutor Homem, meu pai, de bom grado trocaria por um Aston Martin, como se as estradas florestais da Serra d’Arga fossem as pistas de Le Mans.

O Tio Alberto, seu irmão, e que viria a ser o eremita, bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, comemorou o seu primeiro não-casamento (foram vários) com a aquisição do primeiro desses bólides. A expressão “não-casamento” tornou-se um clássico na família: tratava-se de um namoro que, chegado à fase decisiva do contrato de matrimónio, o Tio Alberto descartava com elegância, até se ter enamorado, depois, por uma princesa do Cáspio que lhe prometeu paciência e lhe provou um amor insensato e raro. Nenhum deles acreditava na desgraça.

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