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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Regresso ao iodo, uma vida depois

Dizem-me as pessoas informadas que este será o Verão mais frio dos últimos tempos. A notícia deixa-me preocupado porque já atravessámos um Inverno penoso e longo; mas, por outro lado, há uma espécie de vingança de Moledo sobre o resto do mundo, pelo menos desde que me lembro dos rituais balneares de que até Dona Ester, minha mãe, desdenhava com método e humor: as camisolas de algodão, as mantas, o guarda-vento e o casaquinho de lã para o fim da tarde, protecções indispensáveis para uma época de praia na altura em que os trópicos eram um mundo desconhecido e distante, cheio de febre amarela e de aventureiros infelizes.

De modo que Moledo ocupou o espaço daquele humor cruel, cheio de sarcasmo: o areal diante da Ínsua e da ondulação mais azul do nosso litoral era um promontório eternamente concedido ao frio e às “neblinas matinais”. A bravura do jovem que nos recebe no restaurante Ancoradouro é, assim, o resumo de uma espécie de luta contra o destino: de Inverno ou de Verão, ele percorre todas as manhãs esse areal inóspito, colocando-se ao lado das velhas gerações resistentes a quem nunca assustaram o frio, a morrinha galega empurrada pelo vento ou a ventania atlântica. A minha sobrinha Maria Luísa, ultrapassada aquela idade cativada pelas coisas fáceis, concorda que “o bronzeado dos rapazes” é mais firme e profundo por estas paragens – e arrasta para a areia parte da sua biblioteca balnear, argumentando que o tempero de bronzeador, areia, salitre e calor do meio-dia é um bálsamo para as leituras de Verão e para o que resta de romantismo no Minho de hoje.

Como concordo com a ideia, Maria Luísa acusa-me de ser um sátiro e um devasso, por considerar ali segundas intenções. Desculpo-me dizendo que, dobrados os últimos anos da minha vida, vivo há décadas de segundas intenções.

O domingo passado, por exemplo, arrastou-nos para considerações muito poéticas sobre a existência, ou não, de iodo – uma invenção útil para os fãs de Moledo. Dona Ester, minha mãe, mencionava-o como uma crente fidelíssima. O velho Doutor Homem, meu pai, considerava-o de grande utilidade, desde que lhe retirasse de casa, em pleno Verão, um bando de adolescentes barulhentos. A história repete-se ao longo dos anos e das gerações.

Este ano, com um prometido Verão frio, imagino todo o mundo balnear como uma réplica de Moledo, procurando iodo e amenidades à beira do mar, protegendo-se com camisolas e sensatez. É uma vitória sentida e merecida.

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