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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

A Tia Benedita tinha alguma razão

O velho Doutor Homem, meu pai, considerava com alguma magnanimidade que “o ideal era uma pessoa não se incomodar”. Este princípio, como já tive oportunidade de explicar aos leitores mais pacientes, norteou a família durante muitos anos, como uma tribo relegada para a sua reserva entre as florestas. A imagem não é muito conforme com a vaidade dos Homem, mas deve dar-se-lhe um desconto: afastados da política, que achavam vulgar e destinada aos funcionários da República e aos sobreviventes do constitucionalismo, os nossos tios e avós arranjaram maneira de sobreviver sem se notar. Isso exigiu deles, em doses desiguais, inteligência, astúcia e hipocrisia. A inteligência é um factor demasiado obscuro nesta equação e dispenso-me de exaltá-la para não exacerbar a vaidade tradicional da família; a astúcia permitiu-lhes atravessar, incólumes, século e meio de história sem serem manchados com o seu passado; quando o passado desapareceu, com a sua tralha e as suas honras, restou a hipocrisia, um ingrediente que se deve administrar com a cautela de um cirurgião – só isso explica, como contei na semana passada, que o retrato do Senhor D. Miguel nunca tenha sido retirado do velho casarão de Ponte de Lima, onde todos os verões o encontramos intacto e restaurado como uma relíquia que se guarda por hábito.

Mas não é assim. O silêncio de outrora desvaneceu-se com a chegada da democracia, onde todos podiam falar, até velhos miguelistas desfasados do seu tempo – e regressou com a sua idade madura, onde a opinião da maioria é que conta, calando miguelistas distraídos e receosos. Do promontório de Moledo e das colinas de São Pedro dos Arcos a família assistiu aos desvarios do século passado e à agonia do início do milénio; desconfiou, como era seu costume; desiludiu-se, como lhe competia; conspirou, como o seu heroísmo discreto aconselhava – mas sempre se deu como derrotada na contabilidade final. Este mundo não estava previsto nem pela Tia Benedita, a matriarca ultramontana, nem pelo Tio Alberto, a consciência cosmopolita dos Homem, nem pelo velho Doutor Homem, meu pai, o conservador inglês que por acidente viveu no Porto toda a vida, ansiando por um país com florestas protegidas, jornais educados, escritores atrevidos e governos discretos. Tudo foi ao contrário: as florestas arderam consideravelmente; os jornais deixaram de ser lidos; os escritores transformaram-se em conformistas alfabetizados; e, finalmente, os governos destruíram o país com ruído e indigência.

No fundo, a Tia Benedita tinha alguma razão.

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