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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Histórias de amor, como de costume

A minha sobrinha Maria Luísa diz que o amor são, sobretudo, as grandes histórias que vêm nos livros ou que são contadas pelo cinema – a vida real estaria condenada a estragar o principal, ou seja, a imprevisibilidade e “os estados de paixão”.

O amor é uma recordação perigosa. Quando Dona Ester, minha mãe, decidiu poupar-me a um desses “estados de paixão”, reenviando-me para Copacabana e para um confortável quarto no então Hotel Glória, eu ainda não o sabia. Apenas suspeitava, terminando a juventude, que me despedia da inocência e dos entusiasmos do coração. Munido de roupa de Verão e de uma gabardina a despropósito, o Rio de Janeiro da época, em meados dos anos cinquenta, recebeu-me como a um desprotegido, fornecendo-me os meios para esquecer os males de amor. Dona Ester não acreditava neles; pelo menos, sempre agiu como se se pudessem curar com iodo, passeios pela praia e trabalho regular. Tinha razão. O problema – sessenta anos depois o pormenor não tem muita importância – é que se pode ficar curado em definitivo.

Nessa altura eu tinha passado a barreira dos vinte e cinco anos, lia revistas inglesas, frequentava os bailes e julgava-me um dândi (categoria que, a esta distância, ficou reservada ao velho Doutor Homem, meu pai). Não entendia nada do mundo. Passados sessenta anos, ao recordar os parcos álbuns dessa memória, continuava sem entender nada do mundo – mas, na verdade, já tinha desistido de o fazer.

Apaixonei-me no Brasil. Foi breve, como todas as paixões. Mesmo assim, tive os meus momentos: a chuva de Copacabana (estávamos em Setembro, no ocaso do Verão local) pareceu-me um nuvem de pérolas, as suas ruas um passeio pela glória da juventude da época – e as despedidas, uma dor lancinante que só haveria de desaparecer com o tempo e a distância que eu também nunca haveria de entender.

Mais tarde, Dona Ester, minha mãe, quis saber pormenores. Não havia. Tudo tinha desaparecido. Ela recriminar-me-ia até ao final da sua vida, instando-me a regressar ao Brasil e ao Rio de Janeiro, em busca dessa mulher que, por três longos meses de felicidade, tinha tornado a minha vida mais leve, mais preparada para o Inverno e mais cheia de memórias. Não fui. Nunca fui. O velho Doutor Homem, meu pai, olhava-me por vezes com uma espécie de incompreensão que tentava minorar com o seu humor despropositado e um bom senso que nos aproximava. A história das nossas vidas é sempre, mais uma vez, como de costume, uma história de amor que não se cumpriu. Ou que podia cumprir-se.

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