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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Um breve elogio à hipocrisia

Uma das tendências dos “tempos modernos” é a tendência para, em determinado momento, condenar a hipocrisia. O velho Doutor Homem, meu pai, recomendava que se usasse moderadamente uma certa hipocrisia – queria ele dizer, com o seu tom de doce sátiro minhoto e portuense, que algum gosto pela dissimulação era uma vantagem enorme para a vida corrente, tal como tinha sido para a grande vida, ou seja, para os grandes momentos da História humana.

A minha sobrinha Maria Luísa acha que “os portugueses são hipócritas”. Tento, com paciência e alguns tiques nervosos, explicar que não existe essa categoria de gente, “os portugueses”. A Tia Benedita, por exemplo, a velha matriarca ultramontana dos Homem, nunca foi hipócrita: ela era verdadeiramente reaccionária, gostava dos sermões da Semana Santa, julgava mesmo que Afonso Costa não tinha morrido e acreditava que o mundo se encaminhava para a catástrofe graças ao bolchevismo, à Rússia, à vida sexual das novas gerações e à falta de um monarca poderoso e severo, como ela – enganada – julgava que teria sido o senhor Dom Miguel. Esta sinceridade era desarmante e não tinha a mais pequena nódoa de hipocrisia.

Outros portugueses, como por exemplo o Tio Alberto, gastrónomo e bibliófilo de São Pedro de Arcos, também não era hipócrita: não via salvação – nem para a sua vida amorosa – dentro das fronteiras da pátria, o que o levava a atravessar os Pirenéus sempre que via abertura no seu calendário particular.

Mas nem todos “os portugueses” tinham essa liberdade infame e felizarda para viver de acordo ou com as suas crenças ou com as suas manias. Por isso, o velho Doutor Homem, meu pai, achava que era preciso encontrar maneira de ludibriar o senso comum, aquela espécie de obrigação de viver as nossas vidas de acordo com a vontade dos outros. Maria Luísa confunde a “hipocrisia” com a protecção da vida de cada um e atribui as culpas à “moral judaico-cristã”. Por mim, não vejo nada quase tão delicioso como essa “hipocrisia”: comportar-se bem e desejar fazer o seu contrário é o sinal de uma saudável resistência à banalidade. O Tio Alberto era um mestre nessa matéria, uma espécie de agente duplo, ou triplo, dos nossos pobres costumes da época. Imagino que, quando regressava das suas longas e discretas viagens, ajeitava o nó da gravata (que só usava amiúde) à passagem pelo posto da Guarda Fiscal de Tui, mesmo à passagem pelo rio Minho. Chegava a casa e, como um devasso, reconstituía as prioridades, como um Velázquez de Ponte de Lima.

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