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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Declaração de amor ao clima de Moledo

As multidões estão preocupadas e compreendo a natureza da apreensão: que o Verão está frio ou, pelo menos, que não atinge as proporções de outros anos, aqueles que a minha sobrinha Maria Luísa apontava como prova de que o aquecimento global iria transformar-nos em habitantes do deserto. As neblinas matinais resolveram, este ano, prolongar a sua existência até ao final do dia, quando se renovam para ameaçar a manhã seguinte; o manto de penumbra que paira habitualmente sobre os picos da Serra d’Arga, como uma nuvem densa e calorífera, está durante este Verão diluída entre correntes de ar que descem e sobem sobre a foz do Minho, arejando o litoral.

No Verão gostamos de calor, para protestarmos pelo excesso. No Inverno apreciamos o frio, para nos queixarmos da inclemência. O velho Doutor Homem, meu pai, achava isto o resumo de uma sensibilidade, a legenda da identidade nacional: a insatisfação diante dos Elementos, à falta de – em dias certos – culpar a própria pátria ou, em horas mais absurdas, de os portugueses se culparem a si próprios.

A mim parece-me excelente esta temperatura. Mas eu sou um velho; habituo-me com resignação às oscilações do clima tal como à sua eventual duração, às suas birras e aos seus maus modos. Moledo é, por isso, a prova absoluta da insatisfação dos portugueses, sobretudo daqueles que ainda não entenderam as subtilezas do clima e rumam para o Algarve, voltando as costas à rebelde doçura do iodo minhoto, à sua blandícia matinal, às suas recordações de Verões de outrora.

Pelo contrário, as novas gerações (que abrangem as pessoas abaixo dos cinquenta e acima dos vinte), criadas na paixão pelos trópicos e pelo bronzeado fácil, onde as noites não sossegam e os dias são a antecâmara dos desertos africanos, tremem de indignação diante desta beleza incompreensível pelos seus padrões. Ao contrário do resto da minha família, que protesta contra a ameaça de frios árcticos em pleno mês de Agosto, só eu e Maria Luísa – por razões diferentes – nos declaramos satisfeitos com as graças recebidas. Eu, porque sou um conservador que tem mais em que pensar; Maria Luísa porque gosta de estar “do contra” e acha uma razoável consolação no facto de a Natureza atraiçoar as burguesias que gostavam de ver o Algarve estacionado às portas de Vila Praia de Âncora. Ou seja: eu, porque aproveito para elogiar o clima de Moledo; Maria Luísa, porque encontrou uma forma de esquecer a ameaça do aquecimento global. Somos uns hipócritas.

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