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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

As coisas que ficam depois do fim do mundo

O velho Doutor Homem, meu pai, achava que não se devia contrariar o “espírito do tempo”. Ele conhecia a palavra “Zeitgeist”, mas não a usava; Dona Ester, minha mãe, prendia-o ao mundo das coisas terrenas – e o seu bando de filhos importunava-o o suficiente.

Recordo hoje o seu silêncio, passados tantos anos, disfarçado de dedicação e de alguma solenidade. Imagino-o embalado pelo Verão, distraído pelas coisas vulgares, incomodado pelos ruídos da família.

Talvez por isso, o Verão é a minha estação do ano: rodeado de adolescentes tardios e de sobrinhos que atravessam a idade madura sem abdicar da juventude, aprecio o fim do meu mundo. Depois de dobrar os oitenta, cada dia é um pedido de empréstimo ao destino e pergunto-me sobre o que restará depois de tudo desaparecer.

São enumerações no meio do caos, mas sem tristeza nem angústia: o sorriso de Dona Ester, debruçada sobre os toldos do areal de Moledo; o humor cáustico do velho Doutor Homem, meu pai, cruel e malévolo como se tivesse toda a eternidade para expiar os seus pecados e a sua ironia; o primeiro amor perdido; o primeiro livro que me conduziu ao amor sem futuro; os gestos de conformismo e de aparente tédio; o fingimento delicioso que esconde a devassidão e o desejo; o guarda-roupa inglês do velho Doutor Homem, meu pai, e os dois carros italianos do Tio Alberto, bibliófilo de São Pedro de Arcos; a ausência aparente da Tia Benedita quando a família sofria de deslizes democráticos; as longas conversas com Dra. Celina, destituídas de uma finalidade grave e alimentadas pelo prazer de amar Moledo e as suas memórias; o optimismo da minha sobrinha Maria Luísa e a sua crença na bondade de um mundo que nunca chegará a existir; um barco que atravessava as correntes do rio, diante de Caminha, e onde os meus irmãos riam com a leveza quase absurda do Verão; a primeira doença que a Dra. Teresa (a minha médica de Venade) assinalou no capítulo dos “males crónicos”; os livros que nunca emprestei e cuja leitura nunca recomendei por pura soberba; o arroz de pato da Tia Henriqueta; o arvoredo do casarão de Ponte de Lima, onde a família se recolhia uma vez por ano para visitar o retrato do senhor Dom Miguel, mantendo tradições que ninguém compreende. A lista é infindável. Tão infindável como o mundo que não termina para já. Esse é o nosso prenúncio de felicidade: as coisas que não são para já, que podem aguardar até que o Livro da Vida seja tocado por uma penumbra de despedida. Ou de delicadeza.

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