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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Páginas de doutrina e crítica literária

Em matéria de leitura, os Homem sempre desconfiaram das virtudes literárias da poesia. Excepção feita, como já informei os leitores, ao meu avô paterno, administrador de quintas do Douro e confidente de Guerra Junqueiro em Barca d’Alva. No regresso das suas viagens pelos vales do Douro, o velho Doutor Homem, meu pai, interessava-se pelas notícias que incluíam menções ao autor de “O Melro”, proprietário da Quinta da Batoca, a quem acusava de ser autor de má poesia. Porém, nas suas estantes, os poetas ingleses e os versos de Sá de Miranda tinham um lugar garantido. Por formação e deformação, continuei a tradição da família, lendo os poeta necessários mas não os incluindo na prestação de cuidados à minha pobre educação sentimental, mais credora de desilusões do que de métrica e metonímias.

A minha sobrinha Maria Luísa pensa que sou uma alma penada sem sensibilidade e, por extensão, um machista empedernido que não dá ouvidos ao “lado mais afectuoso” das letras, o que não é verdade. Ela comove-se facilmente com poetas que desarrumam o dicionário e são considerados humanistas e homens de letras; quanto aos romancistas, tem as suas preferências por histórias familiares que eu li há muito nos romances populares ou nos folhetins de antanho. A literatura popular enchia as férias de Ponte de Lima e os areais de Moledo e Afife sem cerimónia e sem regras. Eram volumes que não ficariam bem na Biblioteca Geral da Universidade (refiro-me à de Coimbra), mas que ilustrariam qualquer época balnear – liam-se bem, da mesma forma que se digeriam bem as cataplanas de Vigo: tinham sabor, vinham ao gosto de todos e tinham marisco em abundância.

As senhoras que hoje escrevem romances de família são excelentes namoradeiras e conhecem a maquineta que comanda as emoções – um casamento desfeito, uma família desorganizada, vícios normais para a idade e interrogações chãs e acessíveis sobre ser adulto e padecer de apetites sexuais maiores do que permite a força humana.

Melhor do que isso fez a literatura popular de outros tempos, que nos ofereceu O Conde de Montecristo, A Ilha do Tesouro ou, bem vistas as coisas, alguns dos folhetins avulsos de Camilo, com a vantagem de serem bons em gramática e de não se levarem a sério no mais importante.

Diante do vastíssimo número de escritoras viciosas de hoje em dia, o velho Doutor Homem, meu pai, colocaria a hipótese de, por chalaça, chamar pela polícia de costumes, uma velharia já no seu tempo. Mas a intenção fica.

 

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