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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Uma aurora boreal no céu de Gibraltar

A vaidade de um velho minhoto, quase contemporâneo do Titanic (falhei por uma década), haveria de surpreender o velho Doutor Homem, meu pai, habituado a não se comover com as provas do desvario do mundo e a emprestar pouco crédito à capacidade de os portugueses se escandalizarem ou escreverem maus sonetos por quase nada.

Desta vez, foi a Dra. Celina que, na sexta-feira da semana passada, me trouxe a novidade: “Olhe o que encontrei na livraria.” E mostrou-nos a capa do livro que reúne as crónicas publicadas nesta página nos últimos anos. O Dr. Boavida, com a sua proverbial generosidade, já tinha enviado um exemplar em segredo – que a minha sobrinha Maria Luísa levara para Braga, a fim de me poupar à humilhação de encontrar nas estantes um livro com o meu nome no frontispício.

Sou, portanto, da idade da Turquia e da Mongólia russa, acontecimentos que nunca tiveram importância na minha vida ao longo do último século. Entrei na idade adulta, praticamente, no ano em que o mundo foi surpreendido com uma aurora boreal em Gibraltar e em que o Tio Alberto, o nosso bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, lamentou a morte de Gabriel D’Annunzio e me explicou, largamente, quem era Kemal Ataturk. Anos depois, o Tio Alberto, o maior viajante da nossa família (a despeito da indignação da Tia Benedita, a matriarca miguelista dos Homem), atravessaria o Bósforo na perseguição do amor da sua vida, até às margens do Cáspio. Daria um romance, dois romances, nenhum deles escrito ou a escrever – a queda da família para a literatura também está no domínio da vaidade, porque se habituou a coleccionar frases vergonhosas nos autores consagrados para provar que o liberalismo e, depois, a República, tinham maioritariamente produzido autores menores, incapazes de cumprir as regras da gramática e, ao mesmo tempo, produzir beleza.

Aos quarenta anos, quando o velho Doutor Homem, meu pai (já conformado com a minha inabilidade para o matrimónio ou, até, para o amor), decidiu considerar-me sócio do seu escritório de advocacia no Porto, começou a guerra em Angola e a Tia Benedita, já viúva, decretou que os russos tinham enviado o astronauta Iuri Gagarin ao espaço a fim de ameaçar a humanidade com o bolchevismo. Nessa altura, espremíamos a pasta de dentes pelo fundo, e as melhores navalhas de barba eram espanholas. O meu avô, administrador de quintas no Douro, adoeceu subitamente e morreu em paz num Verão cheio de japoneiras vermelhas.

Saiba o leitor que nada disto vem no livro – que é só vaidade. Tudo o resto se esconde.

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