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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Uma espécie de vigilante de um museu de província

Por algum motivo que me tem escapado nos últimos sessenta anos, os casos de celibato multiplicaram-se na família, ao longo de várias gerações. O assunto ou nunca mereceu comentários – ou eu não quis ouvi-los depois de dobrar os quarenta e de me ter conformado com essa existência medíocre e relativamente solitária, longe da puericultura, das disputas conjugais e das alegrias do matrimónio. Do Tio Alberto, bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, todos conhecíamos a sua relação com uma princesa do Cáspio (hoje sepultada em Genebra, segundo a sua vontade), e sabíamos que, mal despontassem as primeiras neblinas de Agosto, ele partiria, discretamente, para atravessar as fronteiras que o separavam das flores do seu romance.

À Tia Benedita, legitimista da família e uma espécie de marco geodésico de todas as excentricidades dos Homem, não agradavam estes exemplos. Ela considerava que o celibato obrigava os seus padres de Ponte de Lima (a quem conhecia os flagrantes mais criticáveis), mas deslustrava a gente de casa como se tivesse sido recusada no altar. Mas a família conhecia casos ambivalentes. A viuvez, na flor da idade, da Tia Henriqueta, fez supor um segundo casamento; ilusão: permaneceu solitária, no casarão de Vila Praia de Âncora, com a sua cozinha perfumada pela melhor culinária do Alto Minho e os rumores de uma paixão sáfica que emprestava ao seu riso um tom de melancolia aristocrata. O meu avô, administrador de quintas no vale do Douro, falava da sua viuvez como de um estádio de repouso entre os afazeres do escritório. A própria Tia Benedita, viúva aos cinquenta, dedicou o resto do seu tempo à religião, aos retratos do senhor Dom Miguel e à jardinagem (de gosto duvidoso, segundo o velho Doutor Homem, meu pai).

Mas ela desconfiava: achava que as portas do celibato eram apenas uma passagem obscura para a estroinice e as tentações maçónicas, porque – sem rei a sério, como ela supunha que existisse antes de 1820 – o mundo estava abandonado à sua sorte, o que significava que tudo estaria condenado a ser corroído pelo bolchevismo, pela imoralidade e pela República, uma trindade que pretendia ver em todos os esconderijos do seu planisfério.

Havia nisto um certo exagero. Com o passar dos anos, a família desinteressou-se dos velhos princípios. O velho Doutor Homem, meu pai, era um dândi da Foz portuense. Eu, seu filho, limitei-me a escolher o caminho mais fácil. Hoje, sou apenas o guardião do retrato de Dom Miguel, uma espécie de vigilante de um museu de província.

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