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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Uma recordação sobre a poesia no Outono

Já um dia tive a oportunidade de explicar aos leitores pacientes que o velho Doutor Homem, meu pai, dedicava uma grande parte da sua biblioteca aos poetas românticos ingleses. Estes eram as suas pérolas bibliográficas, ao contrário de mim, que me concentrei em ninharias de botânica, história regional e geografia do Alto Minho, e do Tio Alberto – o bibliófilo de São Pedro de Arcos –, que coleccionava quase tudo mas devotava uma atenção erudita a assuntos de gastronomia.

O prazer que o velho Doutor Homem, meu pai, obtinha da leitura dos seus poetas e da contemplação desses livros (Tennyson, Byron, Shelley, Keats) não tinha a ver com nenhum tipo de dedicação à literatura ou às figuras literárias. Em abono da verdade é necessário dizer que abominava vates em carne e osso; em seu entender, um poeta não tinha o direito de se apresentar vivo. Essa sua repulsa era conhecida da família, tanto como a sua paixão pela poesia. Compreende-se. Formado no respeito pela leitura, achava os autores simples instrumentos de uma entidade superior e, geralmente, pessoas com defeitos superlativos, desde a vaidade à falta de maneiras, passando pelo mau hálito e pelo oportunismo político. Acresce ainda que a família, uma espécie de sebe miguelista do Alto Minho, detestava “o regime” – e “o regime” era, sobretudo, a colecção de inanidades literárias e patrióticas quer do constitucionalismo, quer da República, quer do círculo do dr. Salazar. Tudo com poucas excepções, numa galeria cheia de vates melancólicos, mimados e depressivos ou, aqui e ali, poetas cómicos que erraram o seu destino, tratando assuntos que poderiam parecer sérios, como as aldeias de Portugal, a humildade do povo, a democracia, as lavadeiras do Mondego, o Cristo dos pobres ou as saudades de um amor justamente perdido (até por castigo).

Hoje, raramente leio poesia – à excepção de versos que lembram a minha adolescência ou a formação da minha idade adulta. Os meus irmãos acham esta ideia um despropósito, porque insistem em que eu não tive adolescência e acreditam que nasci já adulto, vestido de ‘tweed’ e celibatário. Nessas alturas, argumento que a métrica, a gramática e um bom vocabulário também fazem falta, coisa que até os poetas galegos sabem.

A minha sobrinha Maria Luísa indigna-se bastante nestas ocasiões. Mas ela supõe duas coisas erradas: que basta haver poetas para haver poesia, e que basta alguém escrever poesia para o acharmos poeta. Uma coisa não tem a ver com a outra, como se sabe. Só isso explica a beleza deste Outono em Moledo – uma coisa que raras vezes coube, inteira, em versos de certa qualidade.

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