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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

A desilusão do império em Arcos de Valdevez

Em casa do tio Henrique, nos Arcos, não se falava de política – nem à mesa (como o velho Doutor Homem, meu pai, tinha sabiamente prescrito), nem noutro lugar qualquer. Infelizmente, a essa mesa familiar, discreta e saborosa, no casarão escondido por amieiros e freixos de Arcos de Valdevez, era possível ouvir o Tio Henrique discretear sobre as campanhas de África ou o seu sonho de compor uma obra sinfónica sobre as aventuras ultramarinas dos portugueses, mesmo depois da queda de Dadrá e Nagar-Aveli e do seu desaparecimento do depois defunto Estado Português da Índia.

A frase é complicada mas traduz o espírito: à medida que esses pequenos territórios iam sendo ocupados pelos seus actuais donos (até 1961 seria a vez de Goa, Angediva, Simbor, Damão, Gogolá e Diu), o Tio Henrique redobrava de fervor imperial e ninguém estranharia vê-lo, desgrenhado e de dólmen e bandoleira, imitar os miguelistas de Macau – que, numa noite de boémia patriótica, ameaçaram invadir a China.

Depois de o último dos territórios ter sido absorvido pela Índia, esperava-se que o Tio Henrique caísse num estado de prostração e de melancolia. Não aconteceu. Mesmo tendo sofrido um abalo desta natureza, o improvável melómano dos Arcos sobreviveu aos desafios da História e, tirando um período em que manifestou um interesse perigoso pelas obscuras experiências científicas do Padre Himalaya, pareceu perceber que o seu tempo tinha passado. O velho Doutor Homem, meu pai, tentou consolá-lo: fez-lhe saber, cuidadosamente, que o destino do império estava traçado desde que, em 1822, nasceu a lenda de D. Pedro atravessando o Ipiranga. O Brasil era apenas a primeira peça desse dominó; por isso, acrescentava o causídico, com o cinismo cultivado pela destreza de um ‘snob’, restava-nos “cultivar o nosso jardim”. A citação era perigosa, vinda do ‘Cândido’, de Voltaire, mas transportava uma profundidade amarga e conservadora, como se lhe dissesse, ao ouvido: “Resta-nos o Minho, cá nos aguentaremos.”

O Tio Henrique nunca mais saiu do Minho, de facto. O resto da humanidade não parecia interessá-lo, desde que lhe fosse permitido ensaiar o seu oboé, passear entre os amieiros, fumar charutos canarinos e ler ‘O Primeiro de Janeiro’.

Ele e a Tia Florbela eram um casal feliz. Em Agosto, saíam dos Arcos para se sentarem à mesa do almoço anual dos Homem, e ficavam uma semana em Ponte de Lima; gostavam das visitas do Tio Alberto, o bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, que lhes levava travessas com sardinhas de escabeche e opúsculos raríssimos sobre os sertões de África. Não viviam neste mundo.

 

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