Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Os fins-de-semana de uma família desaparecida

A minha sobrinha Maria Luísa considera que os seus filhos, a quem ternamente designa por “as crianças”, dormem demasiado, sobretudo durante os fins de semana. Ora, “as crianças” têm acima de 18 anos e concebem “o fim de semana” como um acontecimento que decorre fora do mundo e vagamente destinado a esgotar energias que, em geral, são desconhecidas. Quando quis saber a que horas se deitam “as crianças”, Maria Luísa murmurou que “às dez ou onze” – e antes que eu elogiasse a sisudez de dois adolescentes que se deitam às horas a que o seu tio-avô dobra as derradeiras páginas do seu livro de companhia, ela limitou-se a esclarecer: “Da manhã.” E o que fazem entretanto? “Desconheço”, respondeu ela enquanto arrumava a loiça do pequeno-almoço, por volta das nove, a tempo de iniciar a caminhada dos sábados.

O velho Doutor Homem, meu pai, tinha fama de ser madrugador. Ele atribuía isso a um hábito nem por isso saudável, o de ter um horário para cumprir no velho escritório da Baixa portuense, e de fazer a sua entrada discreta às nove e meia da manhã, depois de uma passagem pelo Café Guarany, onde – à falta do ‘Daily Telegraph’, que só chegava aos sábados, num pacote expedido – lia o essencial de ‘O Primeiro de Janeiro’ e tomava conhecimento da previsão meteorológica para o dia seguinte. Porém, a sua hora de acordar, fosse qual fosse o dia da semana e a estação do ano, rondava as sete da manhã; a hora de sair de casa, em dias de trabalho, coincidia com as oito e meia.

Quando, ao entrar na idade adulta, fui admitido no escritório, uma das primeiras coisas que aprendi foi que “o Senhor Doutor nunca marca nada antes das dez e meia”, e mesmo diligências, julgamentos, sessões avulsas nos tribunais, eram quase sempre contestadas se violavam essa agenda invisível e partilhada por todos os funcionários: “O Doutor Homem só está disponível depois das dez e meia.” Portanto, a maior parte das (raras) deslocações do meu pai aos tribunais – ele dedicava-se às minudências do direito bancário – antecediam a hora de almoço, reservando as tardes para trabalhar à secretária. Aquela agenda minuciosa significava que o mundo não era, de facto, uma exigência permanente – e que, pelo contrário, tinha de se adequar aos hábitos que, ao longo dos anos, e com muita insistência e estoicismo, o velho Doutor Homem, meu pai, impôs à sua volta.

Maria Luísa sonha com um mundo em que as coisas voltem a uma certa ordem que nunca conheceu. As mulheres da sua idade – a idade perfeita para reiniciar a vida e apreciá-la condignamente – têm tudo a ganhar.

 

{Publicado no Correio da Manhã}

Arquivo

  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2013
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D