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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Uma história de outros tempos

O velho Doutor Homem, meu pai, nunca me perguntou se eu tinha deixado o meu coração no Rio de Janeiro daqueles anos, mas suspeitou que essa temporada carioca tinha mudado um pouco a minha vida. O saudoso Hotel Glória guardou por algum tempo a inútil gabardina que deixei esquecida sobre uma cadeira no quarto que ocupei durante três meses, sem a ter usado uma única vez; depois, deve ter depreendido que o seu dono nunca voltaria para buscá-la. Nunca voltei, nem poderia. À minha sobrinha Maria Luísa, que imagina quase todas as histórias de amor dignas de romance, tive de explicar o que era o mundo da época – a acrescentar ao complexo de deveres e temores que era natural apoderar-se de um português fora de portas. Sim, houve algum temor a mais; foi ele a vencer o coração, que ficou – como, sábio e discreto, suspeitou o velho Doutor Homem, meu pai – no Rio de Janeiro, algures na Copacabana enevoada da última semana daquele trimestre.

A família tinha-me enviado ao Rio sob o pretexto de contactar os nossos correspondentes na então capital brasileira, mas a verdade é que a viagem fora prescrita por Dona Ester, minha mãe, como um medicamento apropriado para cauterizar feridas recentes, um noivado desfeito e um temperamento transtornado pela melancolia da passagem à idade adulta. O escritório dos advogados que tratavam dos nossos negócios do outro lado do Atlântico era uma fortaleza dos anos trinta que sobrevivia prosperamente nos anos cinquenta, ocupado por colarinhos e fatos de corte francês. Foi nesse cenário que a conheci, como uma luz passageira que estava destinada a ser – como acabou por ser – definitiva. Durante semanas aprendi com ela (uma jovem nunca deixou de ser jovem nas minhas recordações, mesmo quando constituiu família e, mais tarde, me enviou fotografias dos seus filhos) que, para lá dos deveres e dos temores, havia uma raríssima beleza na fragilidade da vida. Nessas semanas em que vivi, emprestada, a leveza dos crepúsculos cariocas, despedi-me várias vezes do meu destino; de cada vez que, à noite, me apresentava diante da janela do meu quarto, naquele hotel que – como eu – nascera velho e coberto por um manto de solenidade, encarregava-me de afastar a tentação de seguir o meu coração. Descobri tarde demais que não se tratava de uma tentação mas sim de outra vida, e que eu poderia escolhê-la se fosse outro ou se estivesse na disposição de correr todos os riscos da minha idade. Foi, provavelmente, o maior pecado da minha vida. Regressei a Portugal, aos meus deveres e temores. Soube muito depois que Dona Ester, minha mãe, nunca me perdoou.

 

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