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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Salvar o mundo na meia idade

O velho Doutor Homem, meu pai, achava que era impossível salvar o mundo – não porque não existisse gente com habilidades, assim lhes fornecessem meios, mas porque se tratava, em si mesma, de uma tarefa indesejável. À preguiça que marcava a biografia dos Homem de várias gerações e latitudes juntava-se o pessimismo incurável do velho causídico. Ao longo do fim da nossa adolescência e, mesmo, para lá dela, tentámos arrancar-lhe (eu e os meus irmãos) uma discussão sobre o assunto – mudar o mundo. Em vão. A ideia de que o universo se podia organizar de outra maneira, de que os sistemas políticos são corrigíveis ou de que as “sociedades” (uma palavra que ele nunca utilizaria porque descria da sua existência) se podiam modificar pela acção de uma classe dirigente esclarecida não lhe eram estranhas nem antipáticas; simplesmente estava voltado para temas menos leais para com o seu semelhante. Tendo vivido durante a República, assistido a vários desmandos que culminaram com a escolha do dr. Salazar, coleccionado memórias dos anos de fogo da pátria, o velho Doutor Homem, meu pai, tentava convencer-nos, à mesa, de que o país era um apeadeiro acolhedor para quem gostasse de legumes frescos, de um clima dotado de alguma razoabilidade e de monumentos à espera de serem cuidados. Mas, no restante, pouco havia a fazer: nem na economia, nem na organização política, nem nas letras, nem nas boas maneiras, salvando-se talvez o Vinho do Porto (o meu avô paterno era administrador de quintas no Douro) e, no extremo, o seu alfaiate portuense – que o acompanhou até ao fim da vida, desenhando-lhe fatos de acordo com os figurinos de Londres, que ele acreditava albergar os últimos seres elegantes do planeta, em redor do n.º 32 de Saville Row, onde ficava a casa Chester Barrie (o velho Doutor Homem, meu pai, asseverava ter conhecido Myron Ackerman, filho do fundador do pronto-a-vestir londrino).

A salvação do mundo estava, portanto, fora dos seus desígnios. Desconfiava sobretudo “dos intelectuais”, que – como grande leitor e bibliófilo – decidira serem pessoas pouco confiáveis, decepcionantes e amargas, capazes de tudo para se inebriarem da sua vaidade ou para malbaratarem uma sensibilidade plagiada em vários séculos de leituras deficientes. Este pessimismo dava-lhe parte da sua infinita bonomia. Não fosse a sua elegância de dândi, creio que às vezes se julgava Churchill pintando aguarelas em Marraquexe enquanto a guerra consumia a Europa do outro lado do Mediterrâneo. Não, não chegaria a tanto. A vaidade dos Homem é capaz de ter limites, suponho.

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