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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Uma ideologia: as coisas são como são

A “pequena holandesa”, como portas adentro D. Elaine se refere a Isabelle, a namorada do meu sobrinho Pedro, chegou na semana passada para a sua temporada de Agosto. Como é uma visita regular (vem quatro a cinco vezes por ano) e já tenta exprimir-se afavelmente na nossa língua, o seu lugar à mesa está garantido para as duas semanas que se demorará em Moledo. Há trinta anos isto não era possível, pelo menos na família que se honra de ter tido a Tia Benedita como matriarca e farol da sua genealogia: Isabelle teria de pernoitar em Caminha ou em Vila Praia de Âncora, pelo menos até se realizar o casamento com Pedro. A minha sobrinha Maia Luísa, que desconfia dos países do norte da Europa, sempre achou Isabelle muito atrevida; depois de murmurar algumas observações sobre o consumo de haxixe em Amesterdão, a votante esquerdista da família compreendeu que estava a batalhar em terreno minado: não só ninguém se preocupava com as drogas holandesas como a simpatia natural (e a sua beleza rara, vinda das baixas temperaturas da Frísia) de Isabelle se coadunava perfeitamente com a desorganização ideológica de uma família que desistira há muito de chorar a partida do Senhor Dom Miguel – e aceitava que “as coisas são como são”.

O axioma é estranho, mas o universo mudou bastante nas últimas décadas. Esse tempo passou. Hoje, Maria Luísa e Isabelle regressam da praia como amigas de sempre, e entre a jovem bióloga holandesa e a decoradora bracarense nasceu uma cumplicidade que admiro ao longe, porque representa uma vitória da minha parte. Para mim é um argumento fatal: insinuo que Maria Luísa está “mais conservadora” por contágio com a representante do luteranismo neerlandês (e logo frísio), um benefício que a idade arrasta consigo sem prevenir.

Maria Luísa cede aqui e ali, sem reconhecer a evidência – mas aceitando que “as coisas são como são” e que os adolescentes estão cada vez mais absurdos (“os adolescentes” são os seus dois filhos) por culpa da educação liberal dos tempos modernos. Mas o Verão de Agosto não é um território para combates ideológicos: uma modorra vespertina recompensa as neblinas matinais e a nortada quase permanente que pica o mar junto da Ínsua, onde ele é mais azul e parece mais profundo. Maria Luísa encolhe os ombros. O seu optimismo é feito de notícias sobre como o mundo está desregulado e irreconhecível, por culpa do capitalismo, do aquecimento do planeta ou da maldade dos poderosos. Entretanto, lê romances. Há dois dias começou com ‘Orgulho e Preconceito’ e temo que os resultados sejam devastadores.

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