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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Um poeta de Monção e a invasão espanhola

No encerramento das contas do mês de Agosto, a minha sobrinha Maria Luísa deu largas ao que, às escondidas, chamou os seus “verdadeiros sentimentos anti-espanhóis”. A ideia de que Castela poderia tomar as Selvagens, ao largo da Madeira, convocou o seu espírito anti-imperialista. Era um fim de tarde de domingo em Moledo, depois de um dia de sol preguiçoso e poeirento, e em breve Maria Luísa partiria para Braga – onde, como expliquei ao leitor, a minha sobrinha trata de ajudar os ricos a decorar as suas casas sem atropelar o sentido das proporções. O Dr. Barreto Nunes interrompera as suas férias em Âncora para ir a Tui comprar o guia do campeonato espanhol e, de caminho, trouxe tapas de Baiona para um lanche cheio de revelações sobre opúsculos minhotos e versos quase galegos de João Verde, um melancólico de Monção que, além de versejar, apreciava a Galiza de antanho como ela vem em dois livros de Gonzalo Torrente Ballester.

O Tio Alberto, bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, guardara na sua biblioteca um exemplar de Ares da Raia, que transitou nos anos oitenta para as estantes de Moledo, como uma curiosidade regional. João Verde é uma raridade e merece o título. O Dr. Barreto Nunes é um dos seus leitores generosos – e a minha vaidade brilhou ao mostrar-lhe uma primeira edição de 1902. O meu avô paterno, administrador de quintas do Douro, visita regular de Guerra Junqueiro nas colinas estivais de Barca d’Alva, conheceu João Verde à distância. O autor de ‘O Melro’ (o velho Doutor Homem, meu pai, considerava-o um dos mais aborrecidos poemas da nossa língua), que viveu em Viana, foi o responsável por essa familiaridade que o velho contabilista e gestor cultivou educadamente, com o argumento de que se deviam respeitar os homens de letras.

A ideia de um poeta quase luso-galego, declamando em Monção sobre a beleza da raia, mesmo ouvida à distância, foi o motivo da explosão patriótica de Maria Luísa, que temia a ocupação castelhana das Selvagens. A imagem era excessiva, porque as ilhas madeirenses não têm o recorte peninsular de Gibraltar – mas bastava para imaginar o forte da Ínsua, na praia de Moledo, sitiado ou invadido por carabineiros de bigode e tricórnio.

“Os espanhóis são assim. É mais conversa”, tentou explicar dona Elaine, a pretexto da sua experiência de uma década a negociar com contrabandistas de La Guardia. Mas à noite, na varanda voltada para o pinhal, a governanta do eremitério de Moledo olhou para a ondulação, em busca de lanchas invasoras.

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