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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Os livros que servem para conservar o mundo

De vez em quando, a meio da semana e aproveitando a doçura daquele silêncio outonal que abençoa os pinhais em redor da casa, Dona Elaine, a guardiã e governanta do eremitério de Moledo, fica de pé observando as estantes que cobrem todas as paredes daquilo que chamamos, na família, “a biblioteca”. São uns milhares de livros com proveniência muito diversa e que servem, fundamentalmente, para ler.

A utilidade dos livros, entre os Homem, nunca se desviou muito dessa estrita finalidade. Não se tome a afirmação por arrogância, digamos, intelectual. Há, claro, uma certa vaidade de bibliómano e um certo prazer na posse de um exemplar raro, uma primeira edição, uma curiosidade; mas a vaidade dos Homem tomou sempre outra direcção. O velho Doutor Homem, meu pai, por exemplo, guardava-se para a meia estação a fim de vestir os seus fatos de ‘tweed’ de Donegal (o único que ele achava digno de um cavalheiro colonial, considerando que não ligava à distinção entre o Eire e o Ulster) e dar uso aos bonés irlandeses que o protegiam, durante os seus passeios à beira-mar, de um frio inexistente. Era essa a prova da sua vaidade. O Tio Alberto, tirando o facto de ser considerado o bibliómano da família, preferia ser considerado pelos seus dotes culinários e por ser reconhecido pelos porteiros do velho Hotel du Lac em Genebra, onde repousava das suas viagens em redor do Cáspio antes de regressar à solidão melancólica de São Pedro de Arcos. E a Tia Benedita, tirando a literatura pia e dois ou três romances de que ignorava os títulos, considerava a vaidade um pecado capital de primeira grandeza. Sobrei eu. Durante anos, décadas, não havia opúsculo de história regional do Minho que não cativasse a minha atenção. Mas não por vaidade absoluta e maldosa. Apenas por ingenuidade e um resto de entusiasmo adolescente (coisa que sempre foi duvidosa, uma vez que a família considera que nasci já adulto e que não passei pela adolescência).

De modo que Dona Elaine estaciona diante das prateleiras e, baixinho, pergunta: “O senhor doutor não sabia o que fazer sem estes livros, pois não?” Não. Não saberia o que fazer. A minha sobrinha Maria Luísa, que acha que os livros são um contributo essencial para “mudar o mundo”, desde o mais modesto romance cheio de erros de gramática, até ao ensaio mais obtuso de um professor de Heidelberga, nunca compreendeu que os livros servem, sobretudo, para “conservar o mundo”. Se quiséssemos mudar o mundo, andávamos lá fora, atrevidos e inconsoláveis. São estas coisas que definem um reaccionário em épocas de intempérie.

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