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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Um Verão tardio para iluminar as dunas

Como previa a Dra. Celina, a nossa bibliotecária de Caminha, agora o Outono veio para ficar. Disse-o com alguma tristeza ao entardecer do sábado passado, como se se despedisse, não do Verão pleno e balnear, mas de uma espécie de recaída de um Verão tardio que viesse dar-nos uma segunda oportunidade para apreciar a luz sobre as dunas de Moledo. Lembro-me de que isso acontecia, geralmente, a meio das tardes de Outubro – Dona Ester, minha mãe, vigiava as bicicletas dos seus filhos naquele então longo corredor da Foz. Ainda não havia neblina. Ainda não havia chuva. Ainda não havia folhas de árvores no chão da Praça de Liège. Praticamente, ainda não havia Outono: apenas a graciosidade daquela despedida que Dona Ester, mais do que ninguém, sentia como uma nostalgia antecipada. Ela acreditava que o Verão e as temporadas de praia eram uma inesgotável fonte de saúde de beleza (coisa que, nesse tempo de pudores públicos e privados, fez dela uma mulher ousada e destemida): queria-nos bronzeados (somos cinco irmãos ao todo, eu o mais velho) e a respirar o perfume da beira do mar.

O velho Doutor Homem, meu pai, tinha uma atitude diferente: era um dandy que apreciava o seu alfaiate, os seus chapéus e a chegada da ocasião mais certa para vestir o primeiro tweed do ano. O fim do Verão não o incomodava; de facto, o seu Verão terminava na primeira semana de Setembro, quando dava por findas as suas excursões ao velho casarão de Ponte de Lima, onde a Tia Benedita vigiava, à distância e com rigor, os espalhafatos da família. Nessa altura, o Tio Alberto já partira para as suas viagens para lá do Bósforo e da civilização, abandonando o jardim e a despensa de São Pedro de Arcos, onde vivia. Há quem atribua ao Outono uma grande percentagem de razões para começarmos a cismar, como se nos desfolhássemos com os plátanos e as videiras das colinas. Pessoalmente, limito-me a agasalhar-me, atitude que me tem protegido bastante. Esta indiferença há-de parecer relativamente arrogante, se pensarmos na minha idade e na teimosia que a acompanha.

Na semana passada, a minha sobrinha perguntou-me se eu penso na morte. “Não costumo cismar. Uma vez ou outra”, menti depois, porque depois dos oitenta pensamos nela todos os dias. O velho doutor Homem, meu pai, aconselhava chá de cidreira para todos os males, inclusive para a tendência de cismar. Por detrás daquela aparência de circunspecto cavalheiro do velho Porto escondia-se um sátiro que ironizava até sobre a existência de vida para lá do Outono.

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