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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

A vida dá voltas, ou o caso do fado

O velho Doutor Homem, meu pai, tinha uma predilecção por Anna Moffo, cujas interpretações da Traviatta e do Barbeiro de Sevilha o comoviam bastante. Os discos da soprano acompanharam-no durante muito tempo e, naqueles verões destemperados de Ponte de Lima, onde se recolhia por uma a duas semanas, serviam para acomodar as amenidades locais ao seu temperamento irrequieto. De braço dado com uma ária tardia, o crepúsculo descia mais perfeito sobre o casarão de Ponte de Lima e os seus muros de granito cobertos de trepadeiras e rosas de Santa Teresinha.

A minha sobrinha Maria Luísa estranhou, durante muito tempo, a natureza desse gosto pela ópera, que ela chamava aristocrático – atribuindo-o, alternadamente, ou à bela vida do seu tio-bisavô, ou a uma “educação elitista”, como sugere o seu manual de única eleitora esquerdista da família (tomando como seguro que o antigo partido do Dr. Louçã se apresente periodicamente a votos). Nenhuma das hipóteses é verdadeira: o velho Doutor Homem, meu pai, apreciava ópera porque na sua juventude frequentara os teatros do Porto e porque fizera um esforço para aprimorar, melhorar e aprofundar os seus gostos. E então, sim, era um gosto de aristocrata e de autodidacta.

Outra era a sua relação com o fado, por exemplo, que as esquerdas consideravam um vergonhoso vício do país atrasado que éramos durante o longo consulado do dr. Salazar. Acontece que o velho Doutor Homem, meu pai, apenas gostava de quatro fados, em geral, e desconhecia orgulhosamente tudo o resto, desprezando-o com uma certa ironia aristocrata. “E que quatro fados eram esses?”, quis saber Maria Luísa. Simples: “Havemos de ir a Viana”, “Povo Que Lavas no Rio” e “O Rapaz da Camisola Verde”, todos com poemas do Dr. Pedro Homem de Mello (e cantados por Amália Rodrigues) – e todos os fados cantados por D. Maria Teresa de Noronha, sem excepção, se bem que, além do “Fado das Horas”, ele não conhecesse mais nenhum.

A vida dá voltas: o pobre fado, essa canção lacrimosa, machista e cheia de saudosismo (emblema nacional, portanto), deixou de ser “um vergonhoso vício” do salazarismo, e é hoje um orgulho das esquerdas, que o choram melancolicamente, diz-se que com muita proficiência, ou em seu nome ou em nome do povo e das classes trabalhadoras. Maria Luísa, tentando esclarecer-me, apresentou-me seis ou sete fadistas da “nova geração” de que esqueci os nomes. Em vão: tal como o velho Doutor Homem, um bom melómano, só aprecio três ou quadro fados. Tudo o resto é, digamos, fado.

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