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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Uma ida a Copacabana nos anos cinquenta



«Até ao fim da sua vida, a Tia Benedita (cuja galeria incluía um retrato do brigadeiro Ferreira Sampaio em vésperas da contra-revolução de 1823) nunca deixou de desconfiar do Brasil, tal como o dr. Salazar, que achava os trópicos a antecâmara de todos os pecados.»

 

Recordo com alguma nitidez – aquela que a idade permite – a minha partida para o Brasil nesses inesquecíveis anos cinquenta (a minha sobrinha Maria Luísa considera a palavra “inesquecíveis” sinónima de “o despertar de Copacabana”, e não anda muito longe da verdade).

Para alojamento, o meu pai contribuiu com alguma moderação e mandou instalar-me no então circunspecto Hotel Glória, já um símbolo conservador do Brasil da época. Aqueles três meses, como já contei aos leitores bondosos, mudaram a minha vida, devolvendo-me à Pátria curado de um mal de amor e preparado para enfrentar os enigmas da idade adulta. Voltei ao Brasil mais vezes, mas os “inesquecíveis anos cinquenta” nunca poderia repetir-se pela minha vida fora. Seja como for, o tempo passou sobre o tempo, a minha vida passou sobre esses anos e, como seria lógico, o mundo mudou bastante.

Na altura, tomando conhecimento da viagem, a Tia Benedita manifestou um pouco da sua habilidade para lidar com a História; desconhecendo os areais de Copacabana e as suas tentações limítrofes (é uma maneira de dizer), a matriarca de Ponte de Lima preferiu lembrar, sobre todas as coisas, que D. Pedro tinha “reinado” sobre o Brasil antes de chegar ao trono de Lisboa, o que fazia da antiga colónia uma espécie de foco de contágio. O velho Doutor Homem, meu pai, achou o argumento despropositado e, levando-me a Lisboa para que eu atravessasse o Atlântico, recomendou-me que me divertisse.

Até ao fim da sua vida, a Tia Benedita (cuja galeria incluía um retrato do brigadeiro Ferreira Sampaio em vésperas da contra-revolução de 1823) nunca deixou de desconfiar do Brasil, tal como o dr. Salazar, que achava os trópicos a antecâmara de todos os pecados e, portanto, da liberalidade em política. Para a Tia Benedita, o pecado não contava muito, porque ela conhecia a natureza humana e não se impressionava facilmente com adultérios nem quebras de moral. O que a incomodava era “o contágio”: hoje um degrau, amanhã outro; hoje um deslize, amanhã uma avalanche; da mini-saia ao bolchevismo, o caminho era curto e a passagem demasiado rápida.

Quando regressei do Brasil, ao fim de três meses e meio no Rio de Janeiro, as coisas não tinham mudado nas colinas que rodeavam Ponte de Lima e aquele casarão rodeado de muros cobertos de trepadeiras e rosas de Sta. Teresinha. Vi a Tia Benedita uma semana depois do meu regresso, quando fui visitá-la para oferecer-lhe umas recordações da Guanabara. Tossiu com discrição. A falar verdade, ela achava que era necessária uma quarentena.

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo, 17-11-2013

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