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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Do niilismo à preguiça na província do Minho

 

«A família era realmente conservadora, com a sua pouco subtil tendência para a preguiça e para uma misantropia inócua que significava, no fundo, que era necessário encolher os ombros e seguir em frente.»

 

Para a Tia Benedita, todos os homens eram iguais, tirando o dr. Afonso Costa – com a sua barbicha – que era muito pior. Quando a senhora referia que “todos eram iguais” não estava a citar o emblema da revolução francesa, evidentemente, mas o seu próprio anátema contra o comportamento dos homens da família, que iam a Vigo comprar charutos, à Corunha comer polvo e a Orense e ao Lugo creio que comer presunto cozido e beber viños de ribeiro. Quando referia estes objectivos, a Tia Benedita sabia bem que o seu auditório compreendia o que ela queria dizer: que, em podendo, iam divertir-se e arranjar amantes.

O velho Doutor Homem, meu pai, teve durante algum tempo o costume de ir à Corunha visitar o dr. Cunha Leal, que ali estava exilado – mas com o argumento, que lhe fora explicado pelo seu irmão Alberto, de ir a Ribadeo comer ostras. Por aqui se vê a ortodoxia da família. A verdade é que, até o dr. Cunha Leal ter sido apanhado na companhia de simpatizantes carbonários e republicanos do Partido Democrático, os Homem manifestavam alguma compreensão por aquele cavalheiro que queria ordem na política e disciplina nas finanças públicas; a partir daí, deixou de mencionar-se o seu nome, creio que até hoje, com excepção do relato do funeral de Paiva Couceiro, em 1944, ao qual ambos os lados compareceram: o Tio Alberto, representante de um dos clãs que financiou o seu pobre exército galego; o dr. Cunha Leal, porque lhe agradavam todos os que tinham sido contra qualquer coisa desde que produzissem algum ruído.

Esta ideia de ser “contra qualquer coisa” poderia ter feito escola na família. Havia todas as condições para se tratar de uma tribo de perigosos niilistas conservadores, com a civilizada excepção de não defender o uso de bombas – mas seria uma contradição de termos. A família era realmente conservadora, com a sua pouco subtil tendência para a preguiça e para uma misantropia inócua que significava, no fundo, que era necessário encolher os ombros e seguir em frente. Depois de um século a viver entre despojos de derrotas políticas, o sentido da História – se é que alguma vez ele existiu – não nos interessava. Limitar-nos “a cultivar o jardim”, dizia o velho Doutor Homem, meu pai, citando Voltaire às escondidas da Tia Benedita.

Ela julgava que a frase tinha a ver com algum interesse súbito do seu sobrinho dilecto pela arte da jardinagem ou pela botânica; a sua ignorância no campo das letras ímpias foi, também, a sua salvação. À sua maneira, ela também era “contra qualquer coisa”.

 

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo, 1-12-2013

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