Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Um conservador perdido no meio do dicionário



«Na verdade, não há português que não se afirme “amigo do progresso” e desconfiado do “conservadorismo”.»



A minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família, desconfia da existência de um “gene conservador” entre os Homem. Só isso explica, pensa ela, uma certa “tonalidade progressista” em muitas das crónicas com que tenho afligido a bondade dos meus leitores. Fui verificar, preocupado. E adivinho que o problema reside, muito mais, na forma como os portugueses agudizaram, ao longo dos anos, o seu relacionamento com o dicionário da sua pobre língua.

Na verdade, não há português que não se afirme “amigo do progresso” e desconfiado do “conservadorismo”; esta profissão de fé é comum a toda a espécie de gente e serve para declarar que os “conservadores” são inimigos da espécie humana – sobreviventes de uma era anterior ao Titanic e à descoberta da penicilina –, por oposição aos “progressistas”, gente aberta ao mundo e disponível para massacrar tradições e hábitos dos nossos antepassados, com o argumento de que a civilização não cessa de nos maravilhar.

Estas evidências são lendárias, tal como a existência de unicórnios nos bosques de Ponte da Barca ou nas encostas mais arborizadas do Gerês. Em primeiro lugar, a espécie humana é, não raras vezes, uma desilusão a que a nossa generosidade empresta algum carácter; mas não deixa de ser uma desilusão. Em segundo lugar, a civilização não é uma escadaria para o santuário de S. Bento da Porta Aberta, degrau sobre degrau: pelo contrário, há recuos admiráveis e funestos, vergonhosos, indignos – do nazismo aos massacres actuais, o nosso tempo conhece horrores de registo. Finalmente, não vejo vantagem em bom número de “coisas modernas”, que nos transformaram numa espécie sitiada pelo perigo de acordar no dia seguinte.

Mesmo concordando com estes princípios (que não fazem uma filosofia, reconheço), não há português que não se satisfaça por, algum dia, alguma vez, ter apanhado o comboio da modernidade e do “avanço civilizacional”, onde segue a boa velocidade, atravessando florestas esventradas por urbanizações de betão ou falando uma língua sem gramática, nem beleza, nem ordem.

Os conservadores gostam da ordem porque o género humano precisa de alguma tranquilidade – não porque apreciem o controle dos polícias. Foram os tempos modernos que impuseram uma vigilância perigosa nas nossas vidas privadas e públicas. O velho Doutor Homem, meu pai, recusava-se a entrar nesta discussão com o argumento de que, depois do Padre António Vieira, se falava mal o português e as pessoas se não entendiam. Ele tinha uma certa razão, e nunca leu uma única das minhas crónicas.


Publicado no Correio da Manhã | Domingo, 8-12-2013

Arquivo

  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2013
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D