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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Um passeio breve em volta da fortaleza

«Depois de atravessarmos meia dúzia de viadutos e de visitarmos alguns restaurantes que, felizmente, continuam a manter cozinheiros e cozinheiras em vez de chefs, regressámos a Moledo com uma paragem em Seide.»

 

Contra todas as evidências, o mundo continua a interessar-me. Os meus sobrinhos, mais do que os meus irmãos, entendem o eremitério de Moledo, onde me instalei nos anos oitenta, como uma espécie de observatório inclinado sobre o mar, mas de onde suspeito que o resto do universo continua a mover-se – e de uma forma mais interessante do que Galileu Galilei imaginava.

Na semana passada, aproveitando o que ela chama “o período idiota” para o seu negócio bracarense, a minha sobrinha Maria Luísa levou-me de carro por um passeio pelo Norte do país. Há dois anos que Moledo era a minha fortaleza e a minha fronteira; a leitura dos jornais (cada vez menos, se tirarmos o The Daily Telegraph por assinatura na papelaria), uma passagem de olhos pela televisão e o comentário dominical durante o almoço de família bastavam-me para me considerar um cidadão informado. Tal como em várias gerações de antepassados, as opiniões têm prioridade sobre os factos – estes, limitam-se a repetir uma sequência de acontecimentos cujo interesse reside em confirmarem as previsões da família desde há duzentos anos, ou seja, que o mundo não estará muito melhor, mas que vale a pena persistir em guardar alguns valores que nos protegem da erosão. A frase é complicada, mas resume o essencial.

Serras atravessadas por auto-estradas, cidades rodeadas de edifícios incolores ou devastadas por eles, a velha Natureza enevoada do Norte (que sempre me comove), praças ocupadas por jovens que se vêem na televisão: o meu país não me desilude nem contraria. É como eu supus que ele era. Mantém a sua face, apesar do regime do dr. Salazar e da devastação do presente.

Depois de atravessarmos meia dúzia de viadutos e de visitarmos alguns restaurantes que, felizmente, continuam a manter cozinheiros e cozinheiras em vez de chefs, regressámos a Moledo com uma paragem em Seide, onde anualmente visito as sombras que há mais de cem anos foram as de Camilo, com o seu arvoredo triste, as suas madeiras velhas, o seu crepúsculo mágico. O país mudou aceleradamente mas o refúgio de Seide continua a inquietar-me; ali estava o relógio de Pinheiro Alves, o marido de Ana Plácido, que Camilo usou sem pudor, antecipando o desfecho trágico de uma existência consagrada a sobreviver no meio de ruínas.

A casa de Moledo recebeu-me de volta com o seu ar apaziguador. É a minha fortaleza e a minha fronteira. Maria Luísa, antes de partir para Braga, acenou-me do carro. A poeira do fim da tarde confundiu-se com o nevoeiro, tal como os anos da minha vida.

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo

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