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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Passeios a pé com receita médica

Hoje em dia atribuem-se grandes virtudes aos passeios a pé, como se fossem prescritos por receita médica. Os sábados de Moledo, precisamente, são muito dados ao temperamento peripatético; há uma certa melancolia na passagem das dunas, sobretudo quando chega a neblina da tarde, a que o Outono dá uma certa solenidade.

Uma das minhas irmãs garante mesmo que os benefícios das caminhadas se alargam a todos os ramos da medicina, da dermatologia e da cardiologia até aos ramos vastíssimos da otorrinolaringologia, além de afugentar a preguiça, que é o estado natural do género humano. Não me surpreende esta fé; bem vistas as coisas, Dona Ester, minha mãe, educou-nos num pressuposto semelhante, o de que o iodo, fornecido pelas praias, era o melhor dos medicamentos. A questão era, no entanto, um pouco mais complexa: não se tratava de um iodo qualquer, fornecido por qualquer mar; para a existência ‘desse’ iodo saudável era necessário que ‘esse’ mar estivesse acompanhado de uma banda de areia – uma praia – onde no Verão era permitido largar crianças e adolescentes para bronzeamento geral e que no Inverno dispensaria uma espécie de suplemento respiratório que qualquer pulmão agradecia. Esta doutrina não sei se alguma vez foi reconhecida pela Medicina, mas era a ortodoxia seguida em casa. Dona Ester, minha mãe, acreditava que rapazes bronzeados eram mais saudáveis e que raparigas bronzeadas não sofriam de melancolia. No geral, estava certa.

Samuel Johnson (a quem o velho Doutor Homem, meu pai, atribuía quase todos os fundamentos de sabedoria literária desde o século XVII) que, em busca de tranquilidade espiritual, caminhou pelas montanhas e promontórios ao longo das Hébridas, era um moderno; hoje, aí o teríamos, acompanhado do biógrafo James Boswell, perfazendo sem dificuldade a distância entre o molhe de Vila Praia de Âncora e a rua onde fica a biblioteca de Caminha (a Dra. Celina requisitá-lo-ia, certamente), elogiando – de caminho – o iodo que apenas existe, com esta intensidade, à passagem em Moledo.

O velho Doutor Homem, meu pai, dava grandes passeios a pé. Sempre me pareceu gratificante esse seu gosto, que correspondia na perfeição à bela imagem de homem solitário, capaz de identificar quase todo o arvoredo entre Ponte de Lima e São Pedro de Arcos, onde vivia o Tio Alberto que, a despeito de viver no meio de tanto oxigénio, era incapaz de andar mais de duzentos metros seguidos com o argumento de que lhe entupia os pulmões. 

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