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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

O mar melancólico do Minho

O velho Doutor Homem, meu pai, achava pouca graça à melancolia de meia-idade e atribuía-a ao medo e à preguiça. Uma coisa (a preguiça), aliás, conduzia à outra; por isso, raramente cedia à tentação de entristecer – o que viesse, chegaria. O seu carácter pouco literário, mas muito cheio de livros, encarregou-se de provar que só a morte, a maldade e a vulgaridade eram fatais como o destino. O resto eram contingências. Como poderia o leitor de Yeats e de Tennyson escapar às garras da melancolia? Da mesma forma que as neblinas da Ínsua de Moledo não me provocam tristeza, mas apenas o receio do reumático, que vejo como uma ameaça, rompendo os pinhais que sobem pela colina e aproximando-se das penumbras casa, ao fim da tarde.

Às vezes penso que serei castigado pela minha leviandade, mas temo que o Juízo Final me acolha antes como personagem de comédia, em vez de avaliar os meus dotes poéticos. A minha sobrinha Maria Luísa não compreende como posso rir de coisas sérias – ela acha que um reaccionário, e ainda por cima minhoto, deve assemelhar-se a um cónego do Cabido da Sé, vigiando a vida segundo a lógica deste e do outro mundo. Ela entende que as coisas sérias têm a ver com o sentido da vida ou com os gemidos diante da depravação. Ambas as coisas me enternecem, mas não costumo ceder-lhes. Com esta idade descobri já, e abandonei, as ilusões acerca do destino: as coisas são como são. E a dissolução dos costumes, a discussão sobre como as pessoas são hoje mais ignorantes ou inúteis, os grandes debates sobre a condição humana – lamento, mas escuto-os há uma eternidade. A melancolia não me apanha, e li Camilo o suficiente para que os arvoredos do Minho sejam apenas um cenário e não a máscara de um sofrimento que não estou condenado a viver. Mesmo assim, a minha sobrinha acha que eu deveria conservar algum tento na língua.

Ora, relembro-lhe eu, relembrando também os destemidos de outras épocas, se há uma coisa que não choro são as lágrimas de outrora. Foi Dona Ester, minha mãe, que me protege dessa tentação ao ensinar-me que não se deve sofrer demasiado por amor. Eles vão e vêm. É uma palavra gasta.

É por isso que desde há uma semana não leio senão Camilo, à procura de sarcasmos que me fiquem baratos. O riso é uma defesa muito séria contra a passagem dos anos. A minha sobrinha vai ficar surpreendida com o desprendimento de um reaccionário que habita as margens do mar mais melancólico do planeta. Assim seja.

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