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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Previsões gerais de finanças públicas

 

O velho Doutor Homem, meu pai, gostava de jantar cedo. Ele acreditava nas virtudes do pequeno intervalo que separava a hora da refeição do normal serão televisivo cujo ponto alto era o boletim meteorológico do Dr. Anthímio de Azevedo; portanto, levantava-se da mesa, caminhava pausadamente até à varanda, de onde – olhando para o céu, verificando a existência de vento – recolhia dados para compor a sua própria previsão meteorológica, e permanecia de pé o tempo que julgava suficiente para que a digestão iniciasse as suas convulsões. Só depois desses minutos consagrados ao físico se sentava diante da televisão para ter uma ideia de como ia o mundo (o Daily Telegraph dava-lhe um resumo cómodo durante o fim de semana) e de como poderia evitá-lo.

Em Moledo, o regime mantém-se com esta regularidade, embora sem o contributo do meteorologista e com o pessimismo mais morigerado (por pudor, apenas). Só Dona Elaine, a governanta deste eremitério, compreende o meu cepticismo de telespectador: “O senhor doutor parece que não acredita nisto.” A questão está em que, hoje em dia, todos os telejornais ocupam metade do seu tempo com aulas de finanças públicas. A matéria interessou-me durante várias décadas a par do direito bancário, a especialidade do escritório da família; porém, hoje, mudando de um canal televisivo para outro, apenas se multiplica a monotonia de percentagens, milhões e horror ao défice, tudo lido por apresentadoras e apresentadores (a minha sobrinha sugere que mencione ambos) que me não parecem familiarizados com máquinas de calcular ou com a memória de tabuadas e álgebra clássica. Ou seja, boa parte “da crise” é-nos servida por jovens licenciados que tanto comentam – e com idêntica ignorância – o sistema financeiro internacional (apesar de só recentemente terem descoberto a turbulência associada à palavra ‘défice’) como a deficiente qualidade das automotoras regionais da Linha do Minho (apesar de nunca terem apreciado a beleza extraordinária do percurso entre Darque e Cerveira).

Acontece que na base do mecanismo que regula as finanças públicas estão operações simples (e, infelizmente, indesmentíveis) que só o excesso de “especialistas” torna complicadas como se tivessem vontade própria. O resto são pequenos disparates, como o de dizer que estão por aí “previsões macroeconómicas irrealistas”; ao fim de trinta anos a ler “planos de fomento”, “planos de investimento”, quadros de “orçamentos plurianuais” e outras primícias do género, confesso que nunca vi senão “previsões irrealistas”. O Dr. Anthímio era mais certeiro.

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