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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

O meu avô, antes de Adam Smith

 

 

Chateaubriand era prezado pelo meu avô paterno que gostava dele sobretudo porque, durante a revolução francesa e o terror da época, o autor de O Génio do Cristianismo terá partido para a América e, depois, para Inglaterra, voltando as costas à “modernidade” e à democracia; acessoriamente (possuía a edição de Saint-Beuve), mencionava por vezes as suas páginas sobre a velhice e a idade madura. Ele partilhava, como o génio romântico, da melancolia de envelhecer num mundo desconhecido e de que pouco se gostava. Administrador de quintas no Douro, sentia-se no seu ambiente quando partia da velha estação de São Bento e sabia que ia pernoitar para lá da Régua. De três em três meses repetia a viagem e, sempre que podia, concluía o percurso em Barca d’Alva, onde o final do Verão o surpreendia em meditações sobre política, religião, sulfatos, lagares e creio que o sentido da vida, na companhia de Guerra Junqueiro, que ele recordava como uma espécie de espectro vigiando a pátria – que, anos antes, se encarregara de dinamitar devidamente. Regressava por vezes minado por essa melancolia – que ocultava nos cabazes carregados de fruta, caça, espargos do monte, cogumelos, e outras ofertas de ocasião ao longo das suas visitas de administrador, contabilista, correspondente (os clientes ingleses prezavam tanto os seus livros de contabilidade quanto a sua epistolografia, fixada por uma caligrafia elegante, ligeiramente inclinada, sem arabescos, onde encontravam citações de Shakespeare ou Disraeli) ou até conselheiro espiritual (o isolamento entre as montanhas era perigoso).

Seja como for, o meu avô envelheceu devagar. A II Guerra abalou-o bastante e os seus cabelos ficaram definitivamente grisalhos por essa altura, como se quisesse mostrar-se solidário com os Aliados e, de entre estes, os seus clientes principais. Era um homem suave que conservou os amigos até ao fim da vida e para além dela, e que tratava por tu os netos que, no Verão, invadiam o casarão de Ponte de Lima com recomendações de mostrarem boas maneiras à mesa.

Numa família miguelista que prezava as suas relíquias do velho regime, o meu avô era considerado um excêntrico e quase um democrata; a partir do momento em que se dedicou “aos negócios” uma ventania arejou os corredores da genealogia: ele mostrara, muito antes de Adam Smith ser admitido nas estantes do país, que só se é inteiramente livre quando não se depende nem do Estado nem dos governos. Infelizmente, as coisas são como são.

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