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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Envelhecer devagar em Moledo

 

O velho Doutor Homem, meu pai, trabalhou até aos setenta, um pouco como era costume na família. A parte dela que não desapareceu no interior do Minho (uma minoria) parece ter simpatizado vagamente com o cartismo, por conveniência e cinismo; a que sobreviveu, devia ter sido Regeneradora depois da década de sessenta, mas tinha uma certa noção do ridículo, e manteve-se à parte, ultrapassando a República, a tentação do dr. Salazar e chegando até aqui incólume. A partir de certa altura, como recordava a Tia Benedita (a matriarca ultramontana), os Homem viveram do seu trabalho limitando-se a conservar em condições o retrato do Senhor Dom Miguel ao fundo do corredor do casarão de Ponte de Lima – hoje, é a minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família, que o leva periodicamente para observação.

Somos demasiados, demais – os velhos. Isso contrasta com um mundo cada vez mais adolescente, pouco dado a sacrifícios e onde o optimismo se reduz a acreditar que se pode viver com mais facilidade e com quase nenhuma doença, com corpos perfeitos até depois dos cinquenta. Não pode. Eu trabalhei até aos setenta; o meu avô, que percorreu o vale do Douro cuidando da contabilidade dos seus clientes, retirou-se aos setenta e dois, porque sofria de doenças do século passado. A minha família (sobretudo as minhas irmãs) sempre pensou que eu tinha nascido depois da adolescência; eu tento explicar que o grande segredo é aceitar que se envelhece, ao contrário do que sucede num país onde se passa radicalmente do acne juvenil (e das suas ilusões) para o reumatismo e para a hipocondria.

A promessa de uma vida eterna é o prémio – e a ilusão – dos tempos modernos e de uma sociedade adolescente. Não é preciso ter lido Cícero ou Séneca para compreender que não é a idade ou o conhecimento que conferem sabedoria ao ser humano – mas o tempo, que recomenda prudência e intensidade em simultâneo. Numa família conservadora como a nossa, preferimos exibir a prudência e dissimular a intensidade, mas era pura hipocrisia: apesar dos esforços em prolongar a vida até à eternidade, o que resulta é que se encurtou a “vida útil”, transformando os velhos em “grupos de risco”, incapazes de consumir, de enriquecer e de serem belos.

A minha sobrinha Maria Luísa inveja-me a biblioteca, que eu lhe cedo aos poucos. Mas insiste que devo acompanhá-la em passeios de sábado pelas dunas de Moledo; ela acha que um velho tem direito a prolongar a vida até onde chegar a beira do mar.

 

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