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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

A austeridade ou as botas nos pinhais de Moledo

A minha sobrinha Maria Luísa acha que eu devo comprar umas botas novas para atravessar mais este Inverno; as que uso para os nossos passeios de sábado foram compradas há mais de vinte anos numa sapataria de Caminha (ela insiste que foi em Viana, mas não é verdade) e, embora não se ressintam do tempo nem do uso que lhes foi dado, estão ligeiramente fora de moda. Tentei explicar que “estar ligeiramente fora de moda” é uma actividade a que me tenho dedicado com algum empenho desde o fim da minha juventude, mas percebi que o cerne da discussão não estava nas botas (que suportam estoicamente os caminhos húmidos dos pinhais de Moledo), propriamente ditas, e sim na sua existência e longevidade – o que fazia delas um “assunto colateral”: “O tio venha comigo a Viana e, para acabarmos com a discussão, compramos umas botas.”

Havia duas saídas: ou me recusava a ir a Viana, com o argumento de que as “botas velhas” haviam sido compradas em Caminha; ou lhe recordava que a austeridade é um valor nobre que precisa de exemplos, provas e práticas – ou seja, mais do que uma solução para a economia do país, é um modo de vida e um princípio de elevado rigor moral, o que implica pouparmos as nossas botas e só as trocarmos por umas novas em estado de absoluta necessidade. Não valendo a pena insistir acerca da identidade da sapataria (se em Viana, se em Caminha), estava também fora de causa iniciar uma disputa filosófica, com citações de Emerson e Séneca – a propósito de calçado de Inverno. De modo que me preparei para a viagem, como um tio-avô obediente e fragilizado.

Estes factos coincidiram com a chegada da “pequena holandesa”, como é conhecida Isabelle, a namorada do meu sobrinho Pedro, que periodicamente vem de Haia até Moledo e já não tem pudor em mostrar como os portugueses a desconcertam. Foi ela que começou; à sobremesa, lembrou que os holandeses vão este ano pagar mais impostos (recebeu uma carta da administração fiscal a anunciá-lo) a fim de suportar os custos “dos países gastadores”. Maria Luísa não gostou que a jovem frísia viesse lembrar a infâmia – e acusou a austeridade de estar a “matar o país aos poucos”. Por mim, limitei-me a lembrar que o velho Doutor Homem, meu pai, acreditava que a Inglaterra tinha sobrevivido aos efeitos da guerra devido aos hábitos de austeridade locais.

Isabelle arregalou os olhos (coisa que faz quando pretende mostrar-se espantada) e declarou que a austeridade era uma coisa séria. “Por exemplo”, começou então, “imaginemos que eu tenho umas botas.” Maria Luísa olhou para mim, semicerrando os olhos.

 

 

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