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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

A inútil vaidade de um autor

Tirando o trio constituído pela minha sobrinha Maria Luísa, pela Dra. Celina (a nossa bibliotecária de Caminha) e por Dona Elaine (a governanta do eremitério de Moledo), o Dr. Boavida (o meu editor na Bertrand) alimenta como ninguém a minha vaidade de nonagenário.

Se bem que nunca leia as minhas crónicas (as telenovelas exigem-lhe uma atenção cada vez mais redobrada), Dona Elaine continua a achar que o mundo além de Moledo tem muito pouco préstimo – e periodicamente relembra o convite para, vai para quase quinze anos, me candidatar a autarca. A Dra. Celina, que acaba de organizar uma exposição (que visitei, apesar do Inverno) sobre a beleza do fundo do mar de Moledo, insiste em que eu devia dar ordem aos papéis que compõem o meu há muito anunciado guia do Minho litoral. Finalmente, Maria Luísa dispensa-me os seus sábados em severos passeios à beira do mar, o que eu suponho ser uma nobre concessão da sua juventude a um velho que lhe alimenta parte da biblioteca com livros publicados há nunca menos de cinquenta anos. Este trio, gentil e dedicado, mantém a minha vaidade estabilizada em níveis que ainda se podem considerar decentes.

Esta semana o Dr. Boavida acrescentou-lhe um ponto fatal, anunciando-me, por telefone, que ia enviar um cheque a fim de “pagar os direitos de autor” dos meus dois últimos livros, e que eu devia enviar “o recibo”. Além de me surpreender, a notícia empresta um pouco de dignidade ao meu papel de Matusalém minhoto, e só temo que o senhor ministro das Finanças (a menção ao “recibo” alertou-me para a sua existência) me descubra na húmida penumbra dos pinhais de Moledo a fim de cobrar impostos suplementares a um velho que nunca lhe deu problemas de maior.

“O senhor doutor não se aflija, que também não é um Dan Brown, infelizmente”, descansou-me o Dr. Boavida, quando lhe coloquei a questão. “Mas ainda dá para uns jantares a preços de 2013.”

Conferi que ainda daria para uns jantares e apressei-me a convidar a minha sobrinha e a Dra. Celina (Dona Elaine recusa-se a jantar fora da sua circunscrição) para a mesa do Ancoradouro, o único restaurante – em todo o Minho – que está fora da alçada do meu médico de Viana. A vaidade deixa-nos perplexos se nos olhamos ao espelho, mas é um tempero que se deve usar de tempos a tempos. Foi ali, à mesa, quando a Dra. Celina comentava com Maria Luísa sobre qual seria a capa do próximo livro, que descobri ter acabado de vender a alma ao diabo. O Dr. Boavida não tem culpa.

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