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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Da varanda de Viana ao fim da política

Nos anos vinte (estou a referir-me ao século XIX), um antepassado dos Homem participou na célebre reunião da câmara de Viana que decidiu não acatar a Constituição de 1822 – foi ele que segurou as folhas da declaração que o general Luís do Rego leu a uma das janelas do edifício, um ano depois, oferecendo o trono ao senhor Dom Miguel. Parece que o príncipe não ouviu as preces que o Alto Minho lhe dirigira, mas a cerimónia faz parte da lenda familiar, assegurada aqui e ali por alguns livros e jornais da época, tal como as cartas que teria trocado com o embaixador Luís António de Abreu Lima ou as orações que depois se fizeram para que D. Miguel, regressando na fragata “Pérola” já depois do levantamento do senhor marquês de Chaves (que, apesar disso, a tia Benedita sempre considerou um valdevinos), tomasse conta do reino.

Supõe-se que teriam sido, por essa época, as derradeiras incursões dos Homem na vida política, tirando depois um particular apoio ao padre Casimiro José Vieira para a publicação do seu livro “Apontamentos para a História da Revolução do Minho”, ou a Paiva Couceiro para que regressasse ao país depois de falhadas as campanhas contra a República.

O velho Doutor Homem, meu pai, explicava que os Homem tinham “desistido da política” porque a família precisava de se alimentar, mesmo em tempo de revoluções. A Tia Benedita, nossa matriarca miguelista, fingia encolher os ombros sempre que se mencionava o assunto; ela privara de perto com sobreviventes das milícias de derrotados ou com primos cujos avós mandaram acender fogueiras pelas praias do Minho para que “o navio de D. Miguel” trouxesse o príncipe a bom porto; sabia, portanto, que de tudo sobraria sempre um pouco de folclore, que a ela lhe lembravam as marchinhas vianenses que de vez em quando os primos dos Arcos trauteavam para recordação o coro de “Rei chegou! Rei chegou!/ Em Belém desembarcou...” quando alguém assobiava a Maria da Fonte.

Seja como for, a família – que era numerosa e tinha apetite e luxos moderados – precisava de se alimentar. É isto que se chama uma nobre razão para abandonar a política.

Durante décadas ficámos a dever à Tia Benedita a conservação do retrato do senhor Dom Miguel, que continua no solitário recato do casarão de Ponte de Lima – esse encargo foi-me atribuído pela inércia, e é hoje partilhado com Maria Luísa, a votante esquerdista da família que, em Braga, continua admiradora do dr. Louçã. Se isto não é desistir da política, ignoro o que seja.

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