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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

A ciência da geografia nos areais do Minho

A Tia Benedita sempre achou que o Tio Alberto, seu sobrinho, namorava uma princesa russa – que, na verdade, era persa. Convinha-lhe bastante que fosse russa para animar o seu combate ao bolchevismo, à minissaia e pela conversão da Rússia, que a certa altura elegeu como o tridente moral da sua pregação. Nós, os mais jovens de então, considerávamos que a Tia Benedita estava em pregação permanente; e que por vezes pisava o terreno da evangelização, que era perigoso e cheio dos temíveis escolhos que os Homem sempre desprezaram, porque eram egoístas, cépticos e arrogantes.

O Tio Alberto encolhia os ombros, sorrindo da tergiversação geográfica e convencido de que, às escondidas, a boa senhora procurava a localização do Cáspio para se certificar de que errava voluntariamente. Mas a Tia Benedita, tal como os nossos antepassados, era teimosa, obstinada, e evitava sujeitar-se ao escrutínio da família. O velho Doutor Homem, meu pai, cansado de lutar pelo extermínio dos gladíolos no jardim do casarão de Ponte de Lima (ele considerava-os uma intromissão desprezível no meio das magnólias, das japoneiras e das trepadeiras das rosas de Sta. Teresinha), oferecia aos seus netos e sobrinhos dez tostões por cada pé efectivamente arrancado – a Tia Benedita sabia do assunto, porque conhecia os limites do descaramento da sua família; por isso, limitava-se a multiplicar os bolbos de gladíolo por toda a área disponível. Da mesma forma, negava-se a aceitar tanto a existência da Pérsia como o desaparecimento do dr. Afonso Costa: para ela, a Pérsia era uma incompreensível extensão da Rússia; e, quanto ao demagogo, convinha-lhe também que ele estivesse vivo para não ter de se preocupar com a escolha de novos inimigos.

Esta atitude não tinha a ver com a ignorância ou o desconhecimento da geografia; a Tia Benedita tinha um atlas na cabeça, e distinguia os sertões de África ou as plantações de açúcar do Pernambuco. Mas a sua insistência no erro dava grande alegria à família, e ela apreciava o papel que se destinara a si mesma.

O Tio Alberto regressava a meio do Outono das suas peregrinações pelo Oriente que, afinal, não passava muito para lá de Genebra, onde a sua princesa vivia a maior parte do tempo, numa casa discreta e cheia de recordações. A Tia Benedita lá lhe perguntava, a meio dos festejos do Natal: “Então como está a Rússia, menino Alberto?” O menino Alberto considerava largamente os areais do Minho e respondia: “Gelada, tia, gelada.”

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