Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Um Inverno obscuro e longo demais

Cansado do Inverno, espreito entre as trepadeiras da varanda a oportunidade de uma tarde de sol. Dona Ester, minha mãe, achava que a melhor parte do género humano tinha sido preparada para o tempo luminoso do Verão, quando somos mais sensíveis ao iodo (um dos grandes mitos fundadores do Verão familiar), ao sal do mar colando-se à pele, aos passeios pelos areais de Moledo e aos deveres a que a civilidade nos obriga. Ela não tinha a melancolia outonal em grande conta, e atravessava o Inverno com a sensação de cumprir um sacrifício a que o Criador nos tinha sujeitado por maldade ou por alguma culpa ancestral. Quando o velho Doutor Homem, meu pai, propunha que atravessássemos a barreira das Astúrias para observar mais de perto a beleza das neves de montanha (ele considerava a Serra da Estrela um ponto obscuro e folclórico na nossa geografia de curiosidades), a família assistia a um interessante avolumar de desculpas para evitar a viagem por parte de Dona Ester: o frio polar que enregelava os passageiros do velho Ford, o perigo das estradas, a abundância de riscos para a saúde dos filhos. Nem a promessa de um alojamento confortável servia para diminuir a contabilidade desses terrores da estação.

Por seu lado, o velho Doutor Homem, meu pai, aguardava a meia-estação como o período mais indicado para um ‘dandy’ da Foz portuense, resguardado nos seus ‘tweeds’ de Donegal e protegido por um boné escocês que lhe conferia um estatuto de estrangeirado na sociedade tão vigiada desses tempos.

Cresci, depois, com a impressão de que o clima ideal era o da Costa Rica, onde nunca fui: calor morigerado pela humidade das florestas, correntes marítimas destinadas a contrariar o estio desolador das altitudes, uma pitada tropical no vetusto Alto Minho em que a família aprendera a reconhecer a natureza destemperada das estações do ano e se habituara a esperar pelos verões do casarão de Ponte de Lima, onde a Tia Benedita aguardava que nos refugiássemos como se tivéssemos escapado à assinatura da concessão de Evoramonte.

Dona Elaine, a governanta da casa de Moledo, suspeita do meu cansaço. Quando o sol atravessa os pinhais das traseiras da casa corre a abrir as janelas, na esperança de diminuir o meu sofrimento. Mas não se trata, propriamente, de sofrimento – e sim de uma sensação de injustiça diante dos ramos exaustos da magnólia que, há décadas, espera os primeiros fulgores da Primavera para voltar a iluminar-nos com a sua beleza. O Inverno vai longo demais este ano, concordou Dona Elaine. 

Arquivo

  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2013
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D