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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

A beleza que perdura e as fotografias de antanho

Dona Ester, minha mãe, insistia em que todos os anos, por volta de Outubro, a família devia repetir o ritual de “ir tirar a fotografia”. O Sr. Domingos recebia-nos no seu estúdio cheio de adereços mirabolantes – mesmo para a época – e, cinco dias depois, devidamente retocadas e iluminadas, as fotografias chegavam a casa. Eu e os meus irmãos sofríamos compenetradamente todas as etapas desse ritual: vestir, calçar, pentear e posar. Tudo isso para que, setenta ou oitenta anos depois, a família possa folhear álbuns onde o pó do tempo passou sem poisar nem estabelecer-se.

Esses álbuns eram visita habitual do velho Doutor Homem, meu pai. Depois de enviuvar, no início dos anos setenta, essas fotografias devolviam-lhe um mundo em que tinha participado, de que tinha absorvido o melhor e o pior e de com que, finalmente, tinha convivido sem pesar. Ele não sofria dos males da nostalgia; limitava-se a observar as fotografias como se fossem uma extensão da sua própria vida – e eram. Antes de morrer, em 1974, a meio de um Outono frio e agitado pela revolução, deixou em ordem esse arquivo que agora está depositado na casa de Moledo, vigiado pelos cuidados de Dona Elaine, a governanta, e visitado por curiosos que desconhecem ou fingem desconhecer o passado da nossa família.

Hoje, a fotografia é uma velharia instruída. A entrada dos Homem na era do vídeo retirou interesse a esse arquivo; hoje ninguém se veste, calça, penteia e posa para a câmara do Sr. Domingos, que nos captava em pretos e brancos magníficos, de uma nitidez transcendente e inexplicável, não por não existir fotografia a cores – mas porque os seus pretos e brancos eram de uma nobreza superlativa que melhorava qualquer pose. Todos os casamentos eram idênticos, todos os jantares de família recorriam aos mesmos sorrisos e cuidados de comensais educados; todas as idas à praia exigiam cenários onde não faltava a figura do banheiro, da bola de praia e de um chapéu de marinheiro que, felizmente, Dona Ester sempre nos dispensou de usar (a acrescentar a uma manta que indicasse o fresco das manhãs de Vila Praia de Âncora).

Mas o mais impressionante eram os rostos, que deviam ser perpetuados com alguma solenidade, sabendo que a eternidade os olharia com atenção. Hoje, o “instantâneo” banaliza a beleza e transtorna-nos com a fealdade. Marilyn Monroe nunca seria tão bela como foi naquela época, perpetuada em fotografias que repetem, até à exaustão, aquela beleza perversa e democrática. A Tia Benedita, por exemplo, nunca foi capaz de pronunciar o seu nome.

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