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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Não ter mão para a literatura

Recentemente, num dos almoços de domingo, tive a estultícia de achar que José Joaquim de Sousa Reis, o Remexido, seria um bom tema de romance. Quase toda a família pensa – publicamente – que eu “não tenho dedo para a literatura”, se tirarmos o apego a velharias, à literatura gótica e à poesia inglesa do meu século, às novelas do exilado de Seide e do génio de ‘Tristram Shandy’, às monografias regionais e à chamada literatura panfletária, que vai de Samuel Johnson a Acúrcio das Neves passando por Burke ou Disraeli. É talvez verdade que dessas leituras só pode resultar um espírito perturbado ou um leitor indisciplinado. Na melhor das hipóteses, apesar de tudo, fabrica-se um carácter manchado pela vaidade, que é aquilo que os livros transmitem com abundância.

Seja como for, o desprezo a que a História votou o Remexido é uma injustiça. Ele é um dos guerreiros da nossa galeria de bandoleiros e lutadores condenados à derrota, depois de ter vencido as suas próprias batalhas contra Sá da Bandeira e Severim de Noronha (duque da Terceira). Fuzilado às escondidas, em Faro, depois de ter sido perdoado pela própria Rainha, José Joaquim de Sousa Reis sucumbiu ao desenho que dele fizeram os vencedores, como ordenam as regras e os princípios.

A Tia Benedita, que uma vez por outra regressava ao seu longínquo século para nos surpreender, tinha por ele uma admiração muda desde que soube que o guerrilheiro mandou uns homens a Alvalade, a coberto da noite, recolher uma espada que o Senhor D. Miguel deixara na casa dos seus anfitriões depois de iniciada a viagem para o exílio, que ainda o levaria a Sines no dia seguinte. A matriarca dos Homem, que enviuvara aos quarenta, não sabia de literatura aquilo que um bacharel de hoje adivinha; mas tanto a sua dureza como a repulsa pela democracia (e pela República, que sintetizava todos os defeitos do seu tempo) fizeram dela uma testemunha silenciosa do passado, que venerava sem arrebatamentos e sem ilusões.

Nesta antecâmara da Primavera rendo-lhe homenagem, junto dos botões de azálea na varanda das traseiras. Ela não tinha a sensibilidade das mulheres românticas nem a doçura das avós provincianas. O velho Doutor Homem, meu pai, respeitava-lhe o nome e a memória, e raramente a desculpava pelos seus excessos. Quando a recordo é como se o passado regressasse, nem perfeito nem imperfeito. Apenas como uma penumbra que cobre o início da Primavera que tarda em chegar para nos libertar do frio, da chuva e da decadência em que andamos todos.

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