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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Os grandes lilases de Ponte de Lima

O velho Doutor Homem, meu pai, não tinha receio do mês de Abril embora citasse o poeta de ‘The Waste Land’ nos primeiros versos do famoso poema: “Abril é o mês mais cruel, gerando lilases da terra morta…” A sua dependência dos autores ingleses era enorme diante daquilo que ele designava como “escola poética herdada do Sr. Leitão da Silva”. Evidentemente que havia nisto alguma cegueira e obstinação em simultâneo – a família nunca admitiu albergar nas suas estantes um livro de Garrett (a que insistia em chamar de Leitão da Silva), o que não era verdadeiro porque havia o ‘Frei Luís de Sousa’, que periodicamente o velho causídico ia buscar a uma estante obscura para dar exemplos da fraqueza do génio português do fim do século XIX. A cena dramática de D. João de Portugal transformado em romeiro suscitava-lhe comentários escarninhos e certamente injustos, embora não tanto como alguns versos de Guerra Junqueiro – cujo “O Melro” era geralmente classificado como “um dos piores poemas da história das línguas latinas”, outra injustiça notória, porque fazia esquecer “A Lua de Londres”, de João de Lemos, com a sua imagem inicial devastadora (“O astro saudoso rompe a custo um plúmbeo céu…”). O meu avô, que privou com Junqueiro na sua Quinta da Batoca, em Barca d’Alva, não lhe ligava. Limitava-se a encolher os ombros e a murmurar qualquer coisa sobre a leviandade de um filho incapaz de reconhecer aquele génio barbudo e soturno.

Nesta altura do ano, seja como for, o velho Doutor Homem, meu pai, não perdia a oportunidade de citar T.S. Eliot diante dos lilases do jardim do casarão de Ponte de Lima. Fazia parte dos seus rituais de Primavera, contemplando a família e o resto da sua desvanecida juventude literária, sacrificada diante do altar do Direito bancário, ramo em que o escritório da família se haveria de especializar. No fundo, o que lhe importavam eram os lilases que anunciavam os primeiros fulgores da estação, e que usava na botoeira, aos domingos. Até ao fim da vida, Dona Ester, minha mãe, fingiu não perceber o seu acesso de melancolia, resolvendo que o pudim de laranja de um almoço de família bastaria para travar esse desvio temporário. À mesa, os Homem eram palradores e a luz de Abril no Minho prestava-se muito à leveza e à má-língua. Depois, ao longo dessas tardes amenas, os grande lilases de Ponte de Lima temperavam a inclinação mais literária do seu marido – e ela suspirava pelo momento em que a família inaugurava a época balnear.

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