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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Lembranças familiares de um Outono fatídico

O velho Doutor Homem, meu pai, morreu um ano antes de Mrs. Thatcher ter chegado a líder dos conservadores ingleses. Nesses anos, ninguém em Portugal queria ser “conservador” – e mesmo antigos admiradores do dr. Salazar juravam a pés juntos que o antigo lente de Coimbra era, “à sua maneira”, “um amante do progresso”. Ser “conservador” constituía, na cartilha revolucionária, nas missas de Vila Praia de Âncora, nos jornais de direita e mesmo nos discursos moderados do Tio Henrique – antigo militar dos sertões de África –, um pecado quase tão mortal como tentar atingir mortalmente, com arco e flecha, um bondoso e respeitador membro da família.

Pelo contrário, o velho Doutor Homem, meu pai, sempre se reclamou de uma obsessão “conservadora-liberal”, em que a extensão “liberal” não era bem vista por parte de uma família que não esquecera a humilhação de Évora Monte e que continuava a guardar, no casarão de Ponte de Lima, uma cópia do retrato do senhor Dom Miguel. Mas o velho causídico era um homem não apenas tolerante mas, também, paciente com um país que albergava cerca de oito milhões de “progressistas” preparados ou para tomar o Palácio de Inverno, à maneira russa, ou para iniciar a longa marcha revolucionária, de inspiração oriental: finalmente, anunciou apenas que iria aguardar o regresso do bom-senso à pátria, coisa que nunca pôde presenciar em toda a plenitude.

Mesmo assim, a revolução nunca o incomodou  – limitou-se a declarar o Dr. Palma Carlos um bonacheirão inigualável e com poucas leituras de Disraeli, e a registar o general Spínola no grupo dos personagens condenados à derrota por viverem (como se comprovou) noutro mundo. As suas derradeiras semanas passaram com uma serenidade quase melancólica, entrando num Outono com aroma de catástrofe e evitando ver televisão a toda e qualquer hora, com o argumento de que só o interessava a previsão meteorológica para o dia seguinte.

Na verdade, o velho Doutor Homem, meu pai, foi o mais virtuoso dos derrotados. Depois de ter atravessado o regime do dr. Salazar (que vituperava) e amparado os resignados da República (eram conhecidas na família as suas viagens à Corunha para visitar o exílio do dr. Cunha Leal), nem por isso fez planos para a sua obsessão “conservadora-liberal”. Primeiro, porque suspeitava desse fatídico Outono; depois, porque nunca deixou de suspeitar do seu país, que ele achava mais talhado para operetas servidas nos teatros de província. Não, não era arrogante. Limitava-se a ser o que foi.

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