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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

A recordação que esperamos do futuro

O único contacto entre o velho Doutor Homem, meu pai, e o delicado mundo do futebol, realizou-se através da leitura do ensaio ‘Some Aspects of the Offside Rule’ (‘Alguns Aspectos da Regra do Fora de Jogo’), de Michael Wharton, escrito para o anuário da federação britânica de futebol na longínqua década de quarenta.

O seu conservadorismo, puramente inglês, cheio de humor e de absurdo, era o produto de leituras agradáveis ao fim de semana, rondando assuntos tão inúteis como a economia, a jardinagem, a história da I Guerra ou da ferrovia europeia – nenhum deles de grande utilidade entre nós, explicava ele, porque os portugueses são “poupados e de grande morigeração quando se trata de coisas do espírito”. Compreendo-o bem a esta distância.

Michael Wharton era um dos seus autores predilectos e lia a sua crónica (assinada por Peter Simple) todos os sábados no ‘Telegraph’, mesmo quando aquela era publicada noutro dia da semana. Tal como ele, desconfiava de quase tudo o que tinha acontecido durante o seu tempo de vida – o jazz (exceptuando, suponho, o trompete e a orquestra de Coleman Hawkins), a arte abstracta, a televisão e as obras de Fernando Namora. Tinha razão no essencial, se bem que eu nunca tivesse sofrido a experiência devastadora e inquietante de ler romances passados em Coimbra, onde certa percentagem da família passou agruras impossíveis de descrever (fingindo estudar direito e coleccionar anotações do dr. Paulo Merêa), ou descrevendo a dificuldade de ser médico, ou com mais do que três adjectivos por frase. O último romance moderno que o velho Doutor Homem, meu pai, teve a impressão de ter lido (Aquilino Ribeiro não conta porque sempre foi um autor do século XVI), foi um volume amarelecido, A Garça e a Serpente, oferecido e dedicado pelo dr. Francisco Costa, autor que os leitores de hoje desconhecem com o mesmo orgulho com que ignoram as éclogas de Rodrigues Lobo. Em vão tentei interessá-lo pela leitura de algumas páginas de Dona Agustina, mas a sua resistência estava fortalecida pela más experiências com outros autores que viveram depois de W.B. Yeats, o seu limite temporal.

A minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família, não compreende como é possível ser-se contra o progresso e a modernidade. Tento explicar, com uma paciência de barítono a treinar acordes, que a maior parte dos progressos do último século nos deixou deserdados da felicidade. “E o que é a felicidade?”, pergunta ela. Recordação, só recordação. É isso que esperamos do futuro.

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