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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

O livro de memórias que nunca se escreve

A minha sobrinha Maria Luísa supõe vagamente que eu devia “escrever as minhas memórias”. Suponho que o faz a pedido do Dr. Boavida que, duas vezes por ano (no Natal e quando me envia o relatório dos meus proventos como modestíssimo autor da sua casa editora), menciona essa ideia suicida. Tento desvalorizar a distinção que ela significa para a vaidade de um velho tonto e doente coronário, mas Maria Luísa volta à carga sempre que vem a talhe de foice alguém pronunciar-se sobre livros de memórias – e anunciou mesmo, no almoço de domingo passado, enquanto a família repousava de um tormentoso cenário de trovoada, que “o tio António está a escrever um livro”.

Notícias desta natureza (sobretudo quando são anunciadas entre o 25 de Abril e o 1.ºde Maio) submetem a família a uma enormíssima pressão, e não apenas por ela ser confrontada com o impudor de um dos seus – no fundo, o pavor causado pela utilização da palavra “memórias” transporta a família ao século XIX, onde ficou a maior parte do seu juízo. Como demorei mais do que o quarto de hora da sobremesa a desmentir a sugestão, o pânico alastrou até ao momento em que alguém (um dos meus irmãos) mencionou  “a vida privada”. A invocação do sacrossantotabu significou que se tratava de pânico verdadeiro.

A “vida privada” de antigamente era justamente considerada privada porque se passava paredes dentro. As casas de família, é certo, albergavam segredos lamentáveis – mas, ou tinham um Camilo à altura como relator (e o romance encarregava-se delas, vingativo e cheio de insinuações), ou limitavam-se a circular nas ruas da maledicência. Era uma vantagem sobre os dias de hoje.

Os Homem tanto prezaram a vida privada que transformaram os almoços de domingo numa arena de maledicência, cujo nível aumenta quando chega o calor do Verão. É uma tradição antiga. O meu avô, administrador de quintas do Douro (e de algumas propriedades no Minho), por exemplo, era aguardado com alegria sincera das suas viagens pelos vales e montanhas onde ia tratar da contabilidade e das contas bancárias dos seus clientes – não pelos cabazes de fruta e pelas perdizes que trazia de Barca d’Alva (o poeta Guerra Junqueiro era seu anfitrião na fronteira do Douro com Espanha), mas pelas notícias que transportava como repórter da vida nas províncias.

Feita a escusa, proclamada a palavra de honra de que nunca escreveria “as memórias”, Maria Luísa piscou-me o olho no fim do almoço: “O tio fê-los sofrer.” Toda a família me quer de boa saúde.

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