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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Rodrigo da Fonseca e o gosto pela derrota

Periodicamente, quando estava disponível para ministrar uma lição de história sobre o seu século, o velho administrador de quintas no Douro, meu avô, mencionava o nome de Rodrigo da Fonseca como o seu “falso cartista”, um subterfúgio para esconder a mínima capitulação da família diante do constitucionalismo. Rodrigo da Fonseca foi o cartógrafo e o artífice minucioso da Regeneração, a que Fontes Pereira de Melo emprestou o combustível e as linhas férreas.

O meu avô era um entusiasta das linhas férreas e conhecia todos os desníveis, curvas, pontes, túneis, apeadeiros e afluentes ao longo do Douro – como se, em vez de administrador, contabilista e conselheiro íntimo (coisas que se misturavam nesses anos providenciais para o vinho do Porto) dos proprietários das quintas do vale, de Resende a Barca d’Alva, tivesse sido um engenheiro visionário que presidira e, depois, vigiara a colocação de dinamite sobre as falésias onde depois assentaram os carris da sua linha preferida.

Já por várias vezes mencionei que a família aguardava ansiosamente pelo seu regresso das viagens pelo Douro, esperando-o em São Bento para receber cabazes de fruta, perdizes e alguma indiscrição do país vinhateiro. Mas o avô era discreto, resguardado e cioso dos seus clientes e confidentes. Durante essas viagens ele era um hóspede que venerava os anfitriões, ingleses sobretudo, a quem tratava como cavalheiros de negócios do Surrey – e com quem depois reiniciava torrentes desorganizadas de epistolografia. Mas o que ele transportava consigo, e que a família não podia partilhar, era a paisagem que o comovia e o deixava, por vários dias, tocado por uma doçura de geógrafo em penitência.

Nessas alturas, falava de Rodrigo da Fonseca, o seu “falso cartista”. Rodrigo ajudara a combater os exércitos a que a família emprestara o seu sangue, os seus soldados e, menos, o seu dinheiro (com o argumento de que não queria pagar a genebra a capitães de milícias do Minho que depois apareceriam nas páginas de Camilo).

Mas cedo Rodrigo deixou de ser – se alguma vez o foi – o setembrista revolucionário da sua idade juvenil. Aos 30 anos estava desiludido. Fugiu dos radicais desde essa altura e, por isso, o meu avô o lembrava como “falso cartista”, tal como tratou António Granjo como o “falso republicano”. Queria ele dizer que o Dr. Granjo era republicano mas que se podia falar com ele amiúde (ele recebia-o em São Bento quando, no Verão, vinha a termas nas montanhas da sua terra). A família teve sempre uma predilecção por derrotados.

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