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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

As histórias são sempre as mesmas

«Heróis no uso da palavra, os portugueses indignam-se muito, gritam na televisão, esgotam a lista de advérbios, abusam dos pontos de exclamação e, se fosse por eles, haveria revoluções todos os dias, excepto nos períodos festivos. O velho Doutor Homem, meu pai, considerava isto uma bênção: “Basta tapar os ouvidos e o país parece um quintal à hora da sesta. Tudo o mais é ruído.”»

 

 

O velho Doutor Homem, meu pai, considerava que A Brasileira de Prazins, de Camilo Castelo Branco, era o livro que melhor servia os interesses dos curiosos em história portuguesa do século XIX. Na verdade, nessas páginas habitava uma galeria de celerados, loucos, gente sensata e virtuosa vivendo paredes-meias com frades apóstatas e traidores das milícias minhotas, mulheres intempestivas, homens covardes, pregadores violentos, pecadores arrependidos, gente picaresca, enfim, de tudo um pouco. Um dos personagens, o pedreiro Zeferino das Lamelas, julgou morrer de amores por Marta, que tinha o seu coração prometido a José Dias e o dote garantido pelo que viria a ser, afinal, o seu futuro marido, um tio brasileiro muito forreta e sem carácter. Era deste Zeferino que queria falar, não por ser um modelo de virtudes mas por ser um fala-barato que acabaria morto atrás de um muro em ruínas, a coberto da noite, às mãos de um bando de assassinos a soldo, que assim facilitavam a vida ao pai de Marta, que poderia finalmente negociar com o brasileiro que em breve chegaria disposto a comprar as melhores quintas da região. Confuso? Naturalmente (e poupo os meus leitores e leitoras ao conhecimento de outras agonias crepusculares). Para isso servem os romances, tirando os de Mrs. Trollope, em que tudo acaba a contento.

Resumidamente, julgava o velho Doutor Homem, meu pai, nos meus momentos de desmoralização, aqui estava uma boa ideia sobre como falar da história de Portugal.

Hoje em dia, ao serão, evito cada vez mais ver televisão: tudo medido e considerado, não se acrescenta muito ao conhecimento que temos do género humano ou do destino da pátria. Dona Elaine não perde as novelas e, na cozinha ou na sala, saltita de uma para outra, mudando de canal, creio que misturando as personagens e as histórias de todas elas. Manifestei-lhe essa preocupação. Ela tranquilizou-me:  “O senhor doutor não se incomode, porque as histórias são sempre as mesmas. Em perdendo um capítulo numa delas, logo se apanha na outra.”

Num país tagarela, feito à medida do Zeferino das Lamelas – o personagem de Camilo –, isto ocorre com muita frequência. Heróis no uso da palavra, os portugueses indignam-se muito, gritam na televisão, esgotam a lista de advérbios, abusam dos pontos de exclamação e, se fosse por eles, haveria revoluções todos os dias, excepto nos períodos festivos. O velho Doutor Homem, meu pai, considerava isto uma bênção: “Basta tapar os ouvidos e o país parece um quintal à hora da sesta. Tudo o mais é ruído.”

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo

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