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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Lições de economia num mundo de idiotas

«O velho Doutor Homem, meu pai, não só defendia que a vida não tinha sentido (um prolongamento romântico do seu pessimismo) como dizia que era impossível explicar isso a pessoas dos tempos de hoje. Ele acreditava que a um mundo que acreditava em coisas idiotas só poderiam suceder, invariavelmente, coisas disparatadas.»

 

 

O meu irmão mais novo é economista. Ele herdou o escritório do nosso avô em 1965 – exactamente o mesmo que, quarenta anos antes, em Janeiro de 1925, foi tomado de assalto por milícias republicanas que ali foram procurar promissórias e bombas reaccionárias escondidas debaixo dos tapetes. Na época, o avô – administrador de quintas inglesas do Douro – recorreu a uma amizade académica, o radical e incendiário presidente do Ministério, José Domingues dos Santos, matosinhense de quem fora colega no burguês mas solene Instituto Superior de Comércio do Porto, que mandou desmobilizar a púrria.

De 1965 até hoje a ciência da contabilidade transformou-se bastante e o meu irmão protesta, com veemência e estatísticas, sempre que (por cinismo mas boa fé) lhe recordo os erros das previsões económicas, o que aproxima a sua classe tanto dos meteorologistas de antanho como dos astrólogos de hoje.

A nossa fé no Dr. Anthímio de Azevedo em nada se compara com a desconfiança nos economistas; o meteorologista explicava pela televisão, de ponteiro na mão, como poderia evoluir o anticiclone dos Açores e como as chuvas do dia poderiam terminar num céu obtuso ou num firmamento limpo – o seu crédito era ilimitado porque os astros eram imprevisíveis. Já com os economistas da televisão a situação é bem diferente. Rodeados de estatísticas, os economistas manejam-nas da mesma forma que Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, esconde a sua receita de pudim de peixe.

Porém, onde o Dr. Anthímio de Azevedo mostrava a imprevisibilidade dos Elementos, os economistas da televisão consideram a infalibilidade dos números, com a diferença de que as previsões dos astrólogos nos ficam consideravelmente mais em conta. O meu irmão não concorda; ele acha que a crise se deve a factores que os economistas estudam com empenho e seriedade, e que vamos demorar vinte anos a recuperar da hecatombe – um tempo que, quando chegar ao Alto Minho, já não me encontrará vivo.

O velho Doutor Homem, meu pai, não só defendia que a vida não tinha sentido (um prolongamento romântico do seu pessimismo) como dizia que era impossível explicar isso a pessoas dos tempos de hoje. Ele acreditava que a um mundo que acreditava em coisas idiotas só poderiam suceder, invariavelmente, coisas disparatadas. Com toda a probabilidade, teria razão. E, confrontado com a previsão de vinte anos para abandonar a crise, ele teria considerado – antes de voltar à leitura do Telegraph – que isso era bem possível, desde que eliminassem os idiotas. 

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