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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Mais de 40 anos fora de moda

Sobrevivendo ao 25 de Abril por largos meses, o velho Doutor Homem, meu pai, acreditava que o destino final da humanidade não era o de viver em democracia – mas ir sobrevivendo repetidamente às novidades que prometem a felicidade.  

 

O velho Doutor Homem, meu pai, lamentava-se periodicamente de ser conservador num país que alimentava uma genuína paixão pelo progresso em todas as frentes. O caso explica-se facilmente através da literatura: os leitores já não se recordam, mas no Mau Tempo no Canal, o romance do Prof. Nemésio passado no apogeu da República, há um barão da Urzelina muito temente a Deus, que sempre se considerou fiel ao partido de Hintze Ribeiro (o da monarquia, relembro) – porém, como era igualmente fiel ao progresso, tornou-se cabo eleitoral do Partido Republicano, o mesmo de Afonso Costa.

Sobrevivendo ao 25 de Abril por largos meses, o velho Doutor Homem, meu pai, acreditava que o destino final da humanidade não era o de viver em democracia – mas ir sobrevivendo repetidamente às novidades que prometem a felicidade. Isto causar-lhe-ia muitos problemas na época, quando se consideravam a democracia e, por extensão, o socialismo, como uma espécie de pórtico para o paraíso terreno. A Igreja, à excepção da do Alto Minho e talvez da de Miranda do Douro, creio eu, também prometia o socialismo, e o mesmo faziam todos os partidos políticos, incluindo – estranhamente – o Partido Socialista. A minha sobrinha Maria Luísa (a eleitora esquerdista da família e nascida pouco tempo antes da revolução) não acompanhou os debates ideológicos dessas duas décadas preciosas mas, à distância, também sofreu da nostalgia da geração anterior, por pura solidariedade.

A família, que desde o século XIX se habituara a conviver na adversidade com os vários regimes mandantes, preparou-se convenientemente para a democracia. Em primeiro lugar, em vez de flutuar ao sabor das conspirações (foram bastantes), limitou-se a viver como se não pertencesse ao futuro, não obrigando ninguém a aceitar as suas obsessões e teimosias: nestes últimos cento e cinquenta anos conservou a sua biblioteca, reconheceu erros e não esperou a salvação da sua alma. Mantendo-se à distância, cumpriu obrigações e, à excepção de uma ou outra ocasião, foi razoavelmente cínica, não acreditando no apocalipse nem na chegada do reino dos céus. Esta espécie de misantropia não produziu vítimas nem nos isolou do mundo; pelo contrário, apesar da existência da Tia Benedita, a matriarca miguelista de Ponte de Lima, manteve-nos razoavelmente disponíveis para o divórcio, a televisão a cores ou o convívio com políticos que raramente soletram frases com sujeito, predicado e complemento directo. Éramos fora de moda, enfim. E continuamos, em liberdade. Não há maior elogio ao 25 de Abril.

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