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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

O crepúsculo em Moledo durante o Verão

A minha sobrinha Maria Luísa, depois de dois casamentos e três divórcios (uma contabilidade muito arbitrária, notarão os leitores), antiga votante do dr. Louçã (as desilusões nunca terminam) e a mais fiel das frequentadoras da minha biblioteca, olha para esses tempos com a melancolia que atribuo à beleza da sua idade.

 

Já contei aos leitores benevolentes a forma como Dona Ester, minha mãe, encarava o Verão: uma espécie de sanatório. Em primeiro lugar, isto só era possível no litoral do Alto Minho, a única província que a família entendia ter condições para proporcionar férias verdadeiras às várias gerações dos Homem de todas as idades; em segundo lugar, o tratamento incluía uma certa dose de abnegação e, em simultâneo, de desprendimento. Dona Ester, minha mãe, acreditava que pessoas bronzeadas não só resistiam melhor aos contratempos como, também, transportavam um certo ideal de beleza que contrariava a palidez e a tendência para a neurastenia. Assim, segundo a sua bula médica, o sol e o iodo de Vila Praia de Âncora, Afife ou Moledo eram, convenientemente administrados, uma espécie de vacina contra as gripes, o reumatismo, as doenças respiratórias, os problemas de pele – tanto como uma prevenção dos estados depressivos e da tendência para a poesia lúgubre (que ela achava um dos grandes defeitos portugueses). Esta medicina foi aplicada pelo tempo fora, sendo Moledo (com a sua conjugação de pinhal, neblinas matinais, brisas marítimas, banhos de água fria e sol filtrado pela imagem da Ínsua e de Santa Tecla) o hospital e a fonte de todos os milagres. Não era um tempo melhor ou pior do que o de hoje – era a época de Dona Ester. Quanto ao velho Doutor Homem, meu pai, ele concordava com a terapêutica desde que, à mesa do jantar, nos apresentássemos em ordem e com gramática. Hoje, passados setenta anos, recordo esses Verões de outrora como uma derradeira ventania da memória.

A minha sobrinha Maria Luísa, depois de dois casamentos e três divórcios (uma contabilidade muito arbitrária, notarão os leitores), antiga votante do dr. Louçã (as desilusões nunca terminam) e a mais fiel das frequentadoras da minha biblioteca, olha para esses tempos com a melancolia que atribuo à beleza da sua idade; creio que se interroga sobre se a vida teria, ou não, sido melhor de outra maneira, e se os seus filhos teriam atravessado de outra forma, a funesta idade da adolescência.

Ontem, ao fim da tarde, arrastou-me para um passeio até à esplanada do P’ra Lá Caminha (o café diante da praia), onde é sempre difícil conseguir uma mesa para suportar a temperatura do crepúsculo. Aquela felicidade surpreende-me sempre. “Qual felicidade?”, perguntou ela, desconfiada. “Nenhuma. Só isto.” Dona Ester teria compreendido a imagem. Um Verão em Moledo nunca se explica; é um crepúsculo que nunca se espera.

 

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