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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

O dia em que o velho Doutor Homem repousou

Só dois anos depois tivemos uma explicação: nessa manhã reparou que havia coisas em desordem nas suas gavetas, papéis inúteis, objectos fora do lugar, recordações maldosas. Pensou então que, se a morte o surpreendesse, gostaria de deixar “tudo em ordem” e “facilitado”.

 

Foi por volta de 1970, em pleno Outono, tépido e chuvoso. O velho Doutor Homem, meu pai, apresentou-se à porta de casa a meio da manhã decidido a “arrumar as coisas” – soubemos que tinha sido esta a expressão usada para justificar a momentânea ausência do escritório onde, durante anos, exerceu advocacia e passou praticamente uma vida inteira. Isto merece uma explicação.

A partir de 1966 interrompera o hábito quotidiano de almoçar em casa, tendo decidido que, doravante, passaria a frequentar um restaurante pelo qual se afeiçoou e onde não o incomodavam com sugestões extraordinárias. Nessa altura não havia chefs; uma refeição compunha-se de sopa, prato principal, sobremesa, vinho do Porto e café (que, relembro os leitores benevolentes, não era “expresso”, mas de cafeteira). Por atenção e gentileza do dono do restaurante, o velho Doutor Homem, meu pai, pôde durante anos beber colheitas clássicas da Real Companhia e, uma vez por outra, aceitar xerez com limão como aperitivo (nos dias de Inverno aconchegava-se com um ponche quente à despedida). De vez em quando mandava cumprimentos à cozinha quando a sua vitela no forno ou o arroz de pato lhe traziam à memória a Tia Henriqueta, a melhor de todas as cozinheiras da família, a cuja casa – em Vila Praia de Âncora – acorríamos uma vez por mês para saborear aqueles cardápios que foram sempre a antecâmara da felicidade. Uma vez por outra levava companhia até ao restaurante – mas muito raramente; a sua hora de almoço era uma espécie de recolhimento para um cavalheiro com cinco filhos ruidosos e que gostava de ler O Primeiro de Janeiro com desprendimento enquanto não chegava (do Clube Inglês) o seu pacote semanal do Telegraph.

Excepto naquela manhã. Soubemos, mais tarde (Dona Ester, minha mãe, acompanhou a cena à distância), que se fechou no escritório, vagueou pelo quarto, recolheu papéis – e que, à saída, levava uma caixa de cartão que mandou destruir. Só dois anos depois tivemos uma explicação: nessa manhã reparou que havia coisas em desordem nas suas gavetas, papéis inúteis, objectos fora do lugar, recordações maldosas. Pensou então que, se a morte o surpreendesse, gostaria de deixar “tudo em ordem” e “facilitado”.

Saiu de casa com ar tranquilo; apesar de ainda ser meio-dia, o táxi deixou-o à porta do restaurante onde almoçava diariamente. Quarenta anos depois recordo esse momento com alguma melancolia. O velho Doutor Homem, meu pai, estava disponível para a eternidade.

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