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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Passagens do tempo a meio do Inverno

«O ruído que vem da sala, no rés-do-chão, é o dos meus sobrinhos-netos, caminhando na adolescência – não basta para interromper a memória, para apagar os retratos do passado.»

 

Entretenho-me com memórias da família. O senso comum manda que o Inverno, com as suas depressões e dias de chuva seja um período dedicado ao assunto: noites para revisitar a memória, curtas tardes de sábado para recolocar fotografias nos álbuns, crepúsculos melancólicos para meditar sobre a torrente dos anos que passaram. Na minha idade, dobrado aquele ponto de onde nunca mais se divisa o ponto de partida, todos os momentos são dedicados à memória, mesmo quando ela diminui gravemente.

A generosidade, talvez por isso, chega com o passagem do tempo; à distância apreciam-se melhor os momentos que não podem regressar. E somos mais condescendentes, mais generosos, menos dados ao rigor ou à fúria. É a única coisa valiosa que se aprende com a idade: a envelhecer. Como se se envelhecesse para se aprender a envelhecer. O Tio Henrique visita-nos durante o Inverno; vestido com o seu velho casaco de lã, toca oboé ao canto da varanda, aprecia a chuva que cai sobre as faias de Arcos de Valdevez. A Tia Benedita dá os seus passos firmes pelo corredor do velho casarão de granito em Ponte de Lima e, a meio, pára a fim de limpar com o xaile uma pequena mancha de humidade no retrato de Dom Miguel, sem o mínimo sinal de tristeza.

O ruído que vem da sala, no rés-do-chão, é o dos meus sobrinhos-netos, caminhando na adolescência – não basta para interromper a memória, para apagar os retratos do passado. O Tio Alberto, gastrónomo e bibliófilo de São Pedro de Arcos, acende a lareira e senta-se no seu cadeirão voltado para uma estante onde se extingue a memória do seu século – atravessou continentes, é o aventureiro da família, o homem que roubou o coração a Svetlana Davydovna e conheceu o céu sobre Astrakhan, aberto sobre o Cáspio. Poucas vezes falou dela em família: era o seu segredo velado. Conhecendo a tendência dos Homem para a maledicência, poupou Svetlana, a sua princesa russa, ao lado de quem queria ser sepultado em Genebra. Ficou no Minho; ficámos todos no Minho, aguardando o nosso juízo final, igualmente sem tristeza, conformados com a geografia e os nossos vícios.

As gerações da família transmitem as recordações umas às outras, como num álbum de retratos que se herda de um museu. Dona Ester, minha mãe, acena aos seus bisnetos no areal de Caminha, onde o rio se perde na ondulação até não existir mais; a minha sobrinha Maria Luísa, a quem contei estes devaneios, acha que é tema de romance. Não. É apenas o tempo que passa e que nos deixa mais humanos, mais resistentes à gripe, mais sorridentes.

 

Publicado no Correio da Manhã | Domingo

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