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António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.

Um pequeno elogio ao bigode fora de moda

 

«No meio desta argumentação lembrei-me da Tia Benedita, para quem os bigodes eram, ou a incarnação de carbonários e bolcheviques, ou uma lembrança do rei D. Carlos, que ela considerava um fraco. Pelo sim, pelo não, aparei o meu – à tesoura, como antigamente.»

 

As minhas irmãs não cessam de se actualizar com as coisas do mundo. Como são as mais novas de um grupo de cinco irmãos, têm a seu favor a palavra “modernidade” e quase nada daquela parte do mundo que fica fora de Moledo lhes é desconhecido. Periodicamente mencionam novas dietas e novas religiões que fazem de nós, simples mortais, provincianos de um mundo que não tem fim. A determinada altura conseguiram conciliar uma forma de meditação oriental, de que agora me não recordo, com um regime de baixas calorias que certamente as tornava mais felizes. A propósito disso, a minha sobrinha Maria Luísa acha que eu tenho um preconceito contra as “coisas novas”, estatuto que eu aceito obedientemente, como convém a uma espécie cordata de miguelista do Alto Minho.

Apesar de tudo, houve um tempo em que eu era menos velho. As minhas irmãs, por exemplo, dão como adquirido que eu nasci já depois da adolescência. Elas referem-se a um gosto desajustado, mesmo para a época, por andar bem barbeado e vestido com sobriedade. Conservo o meu bigode desde esse tempo da juventude, nem à Clark Gable, nem à Santos Dumont, se bem que, ao dobrar os trinta, Dona Ester, minha mãe, o achasse demasiado parecido com o de um retrato do ‘Kaiser’ Guilherme II – o que levou a uma consequente aparadela, com o corte que ainda hoje apresenta (ela gostava muito de ver os filmes de Omar Shariff).

O meu sobrinho Pedro deixou agora crescer o bigode, o que não desagradou a Isabelle, a sua namorada holandesa. O argumento familiar é simples: voltou a “estar na moda”. Mas a jovem frísia, criada entre holandeses escanhoados e antepassados de vastíssimas barbas aloiradas, creio que considera o bigode um enfeite mediterrânico e um pormenor aristocrata. Depois de ter sido banido durante algumas décadas, o bigode está prestes – segundo entendo – a regressar aos nossos retratos.

O velho doutor Homem, meu pai, dizia que o passado regressa amiúde para se rir, ou das coisas modernas, ou da vontade de criar modas. Maria Luísa, sem o saber (ela é uma mulher inteligente criada nos anos oitenta), encarou a hipótese e sugeriu que, por embirração, eu talvez devesse considerar a ideia de cortar o bigode. Esclareci que, para mim, não se trata de um adereço, mas de um hábito, como o café de cevada ao pequeno-almoço. No meio desta argumentação lembrei-me da Tia Benedita, para quem os bigodes eram, ou a incarnação de carbonários e bolcheviques, ou uma lembrança do rei D. Carlos, que ela considerava um fraco. Pelo sim, pelo não, aparei o meu – à tesoura, como antigamente.

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